Sarau da Belvedere




Escrito por Belvedere às 18h37
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Um show inesquecível!!!!!!!!!



Escrito por Belvedere às 18h22
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Homenagem de Cissa

De um jeito Belvederiano

Cissa de Oliveira

Quando ele se fez distante
no meio dos meus dizeres
e risos de felicidade
não imaginei declarações.

- No que estás pensando?
Perguntei sem tato ou rodeios.
- No quanto és encantadora!
Respondeu-me a ferro e a fogo.

Tradução exata: perdi o rebolado.
E sobre o cetim bordado
e sonhos tão transparentes
despedimo-nos das reticências.

Chovia de tudo lá fora
mas só vislumbrei as estrelas
que cortavam o firmamento
nos olhos do meu amado.

Tudo é tão perfeito
possível e mágico
quando se ama
desse jeito Belvederiano.

Cissa de Oliveira

 


 



Escrito por Belvedere às 18h17
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Um poema triste

Um poema triste
 
A Manduka
 
Belvedere

A terra  treme,
uma  tenra folha
 cai e a brisa
afaga, indiferente
 à esperança, que
 se esvai.
 
Ouço, ao longe,
o dobrar dos sinos.
Decerto, perguntarão:
-Por quem?
Direi apenas:
-Por um menino.
 
E as folhas caem,
afagadas pela brisa
insistente.
 
 
 
 


Escrito por Belvedere às 15h12
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CAZUZA

Saudades de Cazuza

Belvedere




Quando o vi
pela primeira
 vez
estava
com  uma turma
 alegre
na Farme
 de Amoedo.
Falei
com a língua
 entre-dentes:
-oi Cazuza!
(queria imitar
 seu modo
 de falar...)
Ele olhou e
 fez um gesto
com as mãos...
Anos depois
 eu o vi
pela última
 vez
num show
no Canecão,
 despedindo-se
 da vida.
Jogou 
muitas rosas
do palco
 para o povo.
Pareceu-me
 um gigante
adormecendo...
_chorei_


Escrito por Belvedere às 15h05
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Uma linda homenagem

DEVIA SER COMO A CHUVA
 
        para Belvedere Bruno
 
deveria o amor ser como a chuva
abraçar a terra cobrir o tempo
ir pelo mar adentro como quem chega a casa
e depois ressuscitar sempre nos verões
voando em direcção aos céus infinitos
e aí voltar de novo ao princípio
copiando a ave na queda do abismo
em dar o derradeiro movimento de asa
para retornar ao seu primeiro rumo
esquecendo tudo logo depois?
 
sim o amor deveria ser como a chuva
recolhida entre quatro mãos
divididas primeiro por dois
 
José António Gonçalves
(in «As Sombras no Arvoredo", pg. 74)

 
 
 



Escrito por Belvedere às 14h57
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A Caio F.

A Caio F.
A Caio Fernando Abreu
 
Belvedere
 
   mil e uma flores
 não desabrocharam
 quando anunciaram
 a partida de Caio
 houve um silêncio
 que não foi quebrado
 todos seus escritos
  ficaram arquivados.
 
ai tempo, tão ingrato
que nos faz amar
seres do outro lado
sem chance alguma
de afagos, xingações
melodramas, jurasdeamor
coisaetal...
 
Caio F.
fique em paz
 não  esqueça
de  acender as velas
da cor que sua intuição
passar e regue as plantas
não deixe o canteiro secar...
   




Escrito por Belvedere às 14h55
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Um poema simples Belvedere




Amanhece. Debruçada
à janela ,vejo o movimento
dos pescadores.

Há  contagiante energia.
A monotonia, se passa,
não encontra onde estacionar.

Por alguns minutos,
sonho  pertencer
a tão vibrante universo.

Integro-me, desatando os nós
que me prendiam
à opacidade dos meus dias.


 






Escrito por Belvedere às 14h53
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Boníssima amiga Emilie Belvedere

 
 
 
Gramado, 25 de fevereiro de 1990
 
 
Boníssima amiga Emilie,
 
Foi com crescente  encantamento que sorvi tuas letras, a mim dirigidas, de forma tão delicada. 
Peço-te que entendas minha posição na entrevista à  revista Bergs. Houve grande pressão para que  me pronunciasse acerca  de meu divórcio, e teu nome foi insistentemente citado pelos entrevistadores. Não pude furtar-me a dizer que fui traída por uma amiga na qual confiava e que sempre  dizia ser minha fiel admiradora.
Sempre soube do caso extraconjugal  de Pierre contigo. Por anos a fio, tentaram ocultar, em vão. Simularam romances dele com outras, para que minhas certezas se fragmentassem, mas a mulher inteligente, sempre finge de forma que não percebam. Assim fiz eu. Fingi anos a fio, te recebendo em minha casa como se fosses uma grande  amiga, dando-te os mais finos presentes, e oferecendo-te  os mais amplos e belos aposentos quando ias em férias a nossa casa, em Florianópolis. Naqueles momentos, eu era a atriz!
Confesso que preferia ter mantido o casamento, mesmo  deteriorado da forma que estava.   As aparências teriam valido para uma vida social respeitável . No momento que houve a separação oficial, eu já madura, vi-me  totalmente desprotegida e me enclausurei, confome  bem frisas em tua missiva.  A separação tornou meus dias vazios, e as noites gélidas, pois, mesmo sem nunca ter sido um amante ardoroso, Pierre conseguia me fazer sentir mulher plena, totalmente diferente dos outros que conheci após a separação. Homens medíocres, interesseiros  e frios. Além de sua sensualidade razoável, Pierre sempre foi um amigo que me amparava nos  momentos difíceis e seu senso de humor e espiritualidade me fascinavam. Como me fez falta a sua presença, após aquela abrupta partida no dia dezessete de outubro... Lembro que chovia, como se o mundo chorasse a nossa separação!
Não sinto raiva de ti, de forma alguma. Sei que estou no meu ocaso, e, de agora em diante, abrirei as portas para que a velhice entre. Não mais farei barreiras. Não procurarei bisturis mágicos. De que valem esses recursos se meu corpo cansado não condiz com uma aparência jovial? Ficarei como tu e Pierre, curtindo as alegrias de meus setenta e nove anos.
Sim, estou vincada, sequer sou sombra do que fui, e a comparação com Ava me envaideceu, mesmo a essa altura de minha vida. Como você, nunca me senti bela. Diria que uma mulher interessante, inteligente, não mais que isso. Essa deusa de beleza foi um mito criado pela imprensa.
 
Ainda sinto saudade de Emerson... Por que aquele avião caiu? Ainda lembro do último sorriso dele para mim ao embarcar.  Nunca mais pude ser a mesma pessoa. Minhas perdas foram tantas!
Querida Emilie, surpreendi-me com tua afirmativa de que nunca tive um estilo próprio, embora as críticas que tenho guardadas através desses longos anos, digam o contrário. Aceito todas as opiniões. Quanto ao Beckett, nunca fui sua fã.   Nem de Nabokov.  Talvez  estejas tendo falhas de memória literária. Na nossa idade, isso é possível. Minha predileção sempre foi Virginia Wolf, e todos sabem disso.
Despeço-me pedindo desculpas se a ofendi na entrevista. Nada fiz, senão dizer a verdade, pois a revista, pelo seu alto padrão, por suas propostas arrojadas, merecia. Além de tudo, estava informando aos leitores  sobre o meu próximo romance a ser lançado no mês de abril. O título é Catarse. Creio que seja o último de minha carreira.
Envio-te  junto  à  missiva, uma  linda orquídea,  colhida por nós: eu e Pierre .
Tua amiga, sempre.
Sophie
 

 


Escrito por Belvedere às 09h29
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Rosa Pena para Belvedere

 Coloque numa tigela Três colheres de sopa de infância Acrescente seis colheres de adolescência Dez xícaras de sonhos Dez xícaras de romantismo Infinitas de lirismo. Uma pitada de malícia Unte com idealismo e deixe assar em temperatura ambiente. Saboreie ainda quente. A delícia da Bel, nem precisa de mel. Já vem adoçada. Rende infinitas porções.



Escrito por Belvedere às 20h55
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Olhos fechados Homenagem de Silvane Sabóia

Olhos fechados


(a Belvedere)

De olhos fechados
viajo ao mundo da magia..
me vejo vestida
de anos passados..
retalhos de fotografias..
Sou atriz famosa..
delírio..
posso ser o que eu quiser..
Bogart aos meus pés..
fatal mulher..

Mas a magia é rápida...
acordo
e arranco esta maldita asa

Sou mais famosa
aqui em casa!



Silvane Saboia

***************************



Escrito por Belvedere às 18h12
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LINKS

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


Escrito por Belvedere às 11h25
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Uma homenagem de uma pessoa maravilhosa!

 
----- Original Message -----
Sent: Wednesday, January 05, 2005 7:06 PM
Subject: Re:NADA DE HORRIVEL. UM PRESENTE DE GREGO PARA INAUGURAR O BLOG

Belvedere: aí vai a contribuição de um anêmico poema para o seu blog, que nada tem de feio. O poema é inédito.

 

 

 

AMAR E ENTRETER

 

Entre, tem?

Entro, tinha

Entra, ria.

 

Entre, temos

Entranhas

Entre vistas.

 

Entre tanto.

Entretido

Entre tendo

 

Entre rindo

Entro lindo

Entretido

 

Entre, tenho

Entretenho

Entre tendo.

 

Entre, estiveste!

Entretiveste,

Entre, e ti veste.

 

 

 
 
 
 
 
 
 
-


Escrito por Belvedere às 11h12
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Depoimento sobre a oficina de interpretação poética José Abbade

 
 
 
Quando iniciei a oficina de interpretação poética com José Abbade, eu estava totalmente inibida e com vícios de interpretação que tornavam minhas poesias de certa forma até dúbias, tamanhos eram os erros de entonação.
 José Abbade trabalha  com a palavra. E quem, através da interpretação, não quer enfatizar o que sentiu e colocou no papel, de forma que todos compreendam a sua essência, e o sentimento não fique perdido? Pois é o que José Abbade faz em sua oficina. Ele nos leva a sentir a palavra e a dizê-la com verdade. Convencer. Muitas vezes interpretamos mas não passamos a verdade. De que vale a interpretação falsa? Nada.
Através de um curso intensivo com José Abbade, na cidade de Niterói, consegui   interpretar de forma verdadeira poemas que eu mesma considerava estranhos quando apresentava em público. Tomaram novos ares,  entonação boa,  articulação da palavra perfeita, sem trejeitos desnecessários e prejudiciais.
Para resumir: com José Abbade, menos é sempre mais! Ou seja: é a palavra que vale, e a ela  é que temos que acarinhar, conhecendo todas as suas nuances para que a poesia não se perca num linguajar  falso, gerando   a sensação de que não valeu, pois não convenceu, não passou verdade.
José Abbade nos ensina, acima de tudo, a  passar essa realidade: Interpretar   é como conversar!
Espero que outra oportunidade apareça, pois ele não é apenas um excelente professor, é um ser humano cheio de energia, boa vontade, generosidade. Um poeta do bem!
 
Belvedere Bruno
 
Poeta e cronista.


Escrito por Belvedere às 11h09
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Encantadora

(Para Belvedere Bruno)
Dorcila Garcia


Uma beleza altiva,
     de sonhos imorredouros
         e lindos gestos de diva.


Modesta em seu talento.
      Às vezes, nem se dá conta
          que vale cada momento.


Alma que se edifica,
      a brincar com palavras
          em sua arte de cronista.


Escreve e não perde o rumo.
       Quem resistirá à pena
                   de Belvedere Bruno? 
...

Homenagem à querida amiga
 e irretocável cronista
Belvedere Bruno.


Escrito por Belvedere às 11h08
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Caríssima Sophie Belvedere

 
 
 
 
Salvador, 14 de fevereiro de 1990 

 Caríssima Sophie,
 
Escrevo-te para falar de minha estranheza ao ler tua entrevista   à revista Bergs, na qual  , sem nenhum resquício de educação, teces comentários desairosos sobre minha pessoa. Sinto que uma inveja desmedida te   envolve por conta  de tua separação. Sempre me julgaste culpada, mesmo sabendo que, quando Pierre e eu nos reencontramos após trinta anos, o casamento de vocês estava em franca decadência, e os jornais nunca pouparam comentários sobre isso.  O que fizemos foi colocar nosso amor em dia e para isso foi necessário oficializar a separação. Dez anos passados, e nutres a mesma mágoa, atirando petardos para todos os lados. Faltou classe a  tua  entrevista. Nota-se opulência, esnobismo, mas classe, isso não!
Sempre admirei o teu talento e fui das mais ávidas leitoras de tuas obras. Ainda hoje releio os livros que escreveste  na década de cinqüenta, considerados os mais fracos de tua  profícua carreira. Considero-os excelentes. Não sou de dar importância a críticas, pois confio no meu entendimento em relação à   arte da escrita. Já reli cinco vezes teu recente trabalho  "O ósculo". Penso que, nessa obra, tenhas sido bastante influenciada   pelo espírito de Samuel Beckett. Aliás, sempre sofreste influências no decorrer de tua vida literária. Certa vez lendo um livro teu que não recordo o título, jurava estar lendo Nabokov. É certo que nunca tiveste estilo próprio.
Observei que os anos têm sido cruéis com tua tão decantada beleza. Rugas profundas desenham teus lábios, e, ao redor de teus olhos, as sombras e vincos  dão um ar cansado e antigo.  Teus dentes  desgastados pelo tempo,  sequer lembram aquele sorriso que levava os homens à  loucura, e às mulheres causavam doída inveja. Lembro-me  como eras bela! Diziam que parecias Ava Gardner! Nessas horas, conformo-me por nunca ter sido sequer graciosa. As rugas  hoje circundam minha face e são bem-vindas, não as receio. O corpo flácido, a  pele sem viço,  contam a história de minha vida. Enquanto isso, vagas de consultório em consultório tentando deter o tempo com bisturis mágicos.
Caríssima Sophie, sei que nunca consegui, no teatro, ser  tão boa quanto tu na literatura. Jamais  me compararei a ti em termos de talento. Gostei de interpretar Beatriz  no espetáculo Dante no Paraíso, mas meu desempenho foi considerado sofrível. Quando fui premiada em Rei Lear, na década de sessenta, interpretando Goneril, senti que minha carreira estava em ascendência, mas parou ali. Nunca mais mereci um prêmio. Diziam que deveria ter sido cantora. Sei que minha voz era bela, cristalina, mas nunca quis ser cantora, pois  minha alma  sempre foi de atriz.
Consegui, no entanto, te suplantar em termos de vivência. Enclausuraste tua alma  após a separação. Nunca mais tentaste ser feliz. Apenas o ato da escrita era sagrado em teu viver. Nunca mais abriste as portas do coração para o amor. Vi tua bela casa na entrevista de cinco páginas na revista. Emocionada, revi  as oito  fotos, e chorei  ao ver teu lindo filho  Emerson sorrindo, feliz, aos dezoito anos, pouco antes de partir, tão prematuramente. Decerto sofreste a dura perda.Único filho!
Não sei se és feliz vivendo assim, não aceitando o passar do tempo, o envelhecer. Eu e Pierre gostamos de ficar em nossa cadeira de balanço, tomamos nosso chá todas as tardes, ouvimos músicas clássicas, como antes, e nunca ficamos rememorando o passado, porque nosso presente é lindo e  muito rico. É gostoso ter oitenta e dois anos!
Sinto que tenhas sido tão implacável comigo na entrevista. Pierre não liga, sempre foi um ser muito espiritualizado, acredita até em reencarnação, veja só! Eu não. Fico cheia de mágoas. Pensei em te mandar um buquê de rosas, mas depois vi que seria bem melhor recolher todos os espinhos delas  e te mandar dentro de uma bela caixinha.
Aceite meus mais efusivos abraços.
Tua admiradora
Emilie
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


Escrito por Belvedere às 11h05
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O Curaativo Belvedere

O Curativo
      
      Belvedere

      Quando chegamos  à favela onde morava Severina,  ela estava fora de seu barraco, ao ar livre,  sentada sobre um banquinho e uma jovem mulher, agachada, limpava a imensa ferida que se formara em sua perna, a ponto de, em algumas áreas, visualizarmos a parte óssea.  Com competência, ela limpava todos os cantos da ferida e colocava pomada, espalhando com uma espátula. Preocupada com as moscas, que vinham a todo momento, tinha um grande abano ao lado para enxotá-las. Sabia o quanto seria prejudicial  uma delas pousar naquela ferida ,  já tão difícl de  ser tratada.
      Severina pertencia ao grupo de idosas carentes que ajudávamos. Na realidade,  as assistidas naquele centro comunitário  eram  quarenta . A maioria acima de setenta anos.  Há algum tempo, Severina se ausentara, e sabíamos  que tinha uma ferida na perna, porém não imaginávamos que o caso fosse tão grave.  Como morava  em área conturbada, com tiroteios diários,  pedimos a duas assistidas, que eram suas vizinhas, que nos acompanhassem. Era imprescindível a companhia de  moradores da área, para que não corréssemos riscos, despertando desconfianças dos chefões da favela . Isso não nos impediria de estar, de repente, em meio a tiroteios. Mas, o que fazer, diante das necessidades de Severina? O que vi ali me impressionou de forma definitiva.
      Quanta miséria ! Ratos passeavam sem nenhuma restrição, crianças sujas, desnutridas,  e aquele cheiro de  imundície, impregnado na atmosfera. Sentia  náuseas.
      Porém, a  moça fazendo o curativo, era algo belo, digno de uma pintura. Observava-a no seu trabalho, e admirava-me com a dignidade dela,  que mal tinha um teto para morar mas que diariamente ali estava   para se doar. Estava há meses fazendo o curativo, conseguindo material através de doações.
      Pensei: por que não registram tais atos  para os noticiários? Por que não divulgam o amor em toda sua plenitude, tal como eu presenciava naquele ambiente de extrema pobreza?
      Cheguei-me a ela e perguntei se precisava de alguma coisa.  Respondeu: - Que Deus me dê muitos anos de vida para que eu continue fazendo o meu trabalho.-  E mais não disse.
      Deixamos cestas de alimentação, gazes,  pomadas e medicações diversas para Severina.  As demais companheiras fizeram orações, enquanto eu olhava aquele cenário deprimente e indigno de um ser humano habitar.
      A noite vinha, e, certamente, começariam  os tiroteios; não poderíamos permanecer por mais tempo.
      Pegamos,  então, o  luxuoso carro que estacionamos em local distante da favela, e, ali, senti ainda  mais fortes  os contrastes  de que é feita essa vida!
      Viemos falando sobre Severina, mas meu coração estava  cheio daquela moça. A moça do curativo.




     












                   








Escrito por Belvedere às 11h03
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O Reverso Belvedere

O Reverso

Belvedere
                                          


Adamantina aparecia em noites de lua cheia. Bela e risonha, deixando  um
rasto de perfume. Naquela fazenda, muitos já haviam  morrido, mas Adamantina
conseguira se impor como uma espécie de lenda.
Sentado sobre um banco, Anastácio rememora sua existência:- Êta vida danada!
Já estou cansado, está mais que na hora de ir embora! Não sei o que ainda
faço nesse mundo. Por que não morri  naquele vendaval?
Há quarenta anos, ocorrera o que transformou sua vida nesse marasmo, um
constante arrastar de correntes...
Era inconformado de nascença.   Sua voz  esganiçada não permitia que
travasse contato com mulheres, e, encarcerado em  seu mundo, só despertou
aos vinte e sete anos, quando  encontrou Adamantina, que o procurou,  numa
linda noite de lua cheia,   e disse:- Vamos te curar dessa voz horrível.
Preciso   apenas de galhos de arruda , te banhar com  ervas . Todas  as
noites virei a seu quarto para colocar  uma imagem de barro sob sua cama. E
assim, após algum tempo, ele desentalou a voz, que   tomou  um tom másculo,
passsando ele   a enxergar o mundo com todas as suas cores.
Ela era famosa  e temida como feiticeira, porém,  invejada  pelas mulheres ,
tanto quanto cobiçada pelos homens. Beleza morena,  corpo curvilíneo. Tinha
na época vinte e cinco anos.
Ao saber do casamento de Anastácio, coisa resolvida em duas semanas,
Adamantina disse:- Volte  a usar a imagem  de barro sob sua cama, quinze
dias antes do casamento. Novamente, irei ao seu quarto todas as  noites.
Assim foi feito. Em uma dessas noites de lua cheia,  ela  resplandecia, e
seu perfume tomava conta do ambiente.  Excitados,  se abraçaram, beijando-se
com sofreguidão.  Entregaram-se  àquela paixão, e, ao  longe, durante todo
esse tempo  ouvia-se um ruído, uma espécie de uivo.     No dia seguinte ela
agiu como se nada houvesse acontecido. E os dias  passaram...
Era  noite de  luacheia, quando   um vendaval assolou a fazenda, derrubando
tudo, nada  restando nas casas, a não ser os móveis mais pesados.   A imagem
de barro, que estava sob a cama de Anastácio espatifou-se.    Ele correu, em
meio a enxurrada de objetos espalhados pela fazenda, e encontrou Adamantina
em  sua casa, sob os escombros de seu "quartinho de santo". Com ela,
intacta, estava uma réplica  da imagem  que havia sido quebrada. Adamantina
estava morta.
Ele passa a usar a nova imagem de barro sob sua cama, e conforme os dias vão
passando, observa uma mudança gradativa em sua voz. Atribui ao nervosismo,
devido ao casório.
No dia das bodas, diante do padre, a voz saiu esganiçada, que nem nos tempos
passados. Ele estremeceu.  Apavorado, olhos arregalados,  corria e  gritava
pelas ruas, com seu fiapo de voz:  - Maldição! Maldição!
Tempos depois, começou  falatório sobre aparição de Adamantina em noites de
luacheia. Por anos a fio, Anastácio esperou encontrá-la. Já  não nutria
esperança, .quando  numa dessas noites,  sentado sozinho, rememorando sua
vida, eis que vê Adamantina ao seu lado, e, sobressaltado, ainda consegue
perguntar por que fizera  aquilo com ele. Desgraçara sua vida!  Ela balança
a cabeça, fixa-o firmemente e diz:- Nunca fui  feiticeira,  o máximo que
fazia era rezar pra afastar mau-olhado. O resto  era coisa corriqueira, sem
mistérios.  Todos me viam de forma equivocada. Nunca tive poderes.  Você
sim. De forma semiconsciente. Desde criança  se acobertara numa voz
estranha para se afastar das pessoas e não ser descoberto. Quando tivemos um
relacionamento envolvendo sexo, apelou às forças pelo vendaval para que eu
morresse. Fui a única a morrer. No dia do casamento, perdeu a voz para não
se comprometer com ninguém nessa vida. Tinha que viver sozinho pois seu
segredo não poderia ser descoberto. E o uivo começou a ser ouvido...
Adamantina diz: - Ouça esse som. Já começou a uivar. Observe como seu uivo
chega nos momentos mais marcantes. Você agora uivará até que toda sua
energia vital se esváia. Estou indo embora. - E sai deixando o seu perfume
característico.  Anastácio continua uivando, agora com plena consciência de
que seu grande enigma estava exposto.
Pessoas impressionadas com o incessante som, começam a sair procurando de
onde vinha, até que chegam a Anastácio que com olhos arregalados, fixos na
lua cheia, uiva, uiva, até que  o som cessa e uma nuvem negra o encobre para
espanto de todos, que se persignam.








Escrito por Belvedere às 11h01
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Tsunami

TSUNAMI
 
Belvedere

Perplexa, diante da força
inenarrável da natureza,
observo o bailado insensato
do mar, quando a terra
 descontrolada impulsiona
 o grande desafio.
  _Tsunami é o seu nome_
 
 
Há contrastes nos cenários.
A morte marcando  pontos
em diversos segmentos:
 
Ora entre luxo,esplendores,
ora na pobreza,em
locais plenos
 de tragédias sucessivas...
 
Há os que acreditam
em fatalidade,
outros, em carma.
 
E lá se vão as
multidões, infinitas vezes
 dizimadas.
 
Pergunto:
- Terão direito ao Sétimo Céu?
 



Escrito por Belvedere às 10h45
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Metamorfose
 
Belvedere
 
Ando espantada com as mulheres. Todos os dias encontro uma conhecida e me assusto, pois uma transformação bizarra ocorre entre elas. Aquieto-me e deixo-as falar, depois sigo com um ponto de interrogação na cabeça. O que andam fazendo? Cada dia as bocas estão maiores,  parecem inflar, incessantemente, e temo uma explosão em  minha cara durante um desses encontros. A sensação que tenho é de estrago definitivo. Ruptura integral com o eu dominante para que outro  ser se aloje em seu lugar.
Não pode ser Lenita a que vi hoje pela manhã com um fox-terrier passeando no calçadão.  Que bocão era aquele? Fingi não ver pois cheguei, juro, a sentir repulsa pelo estrago que fez em seu rosto.
Adoro a  vaidade feminina e aceito os atuais recursos que tanto contribuem para a manutenção de uma aparência jovial, desde que bem dosados. Claro que uma boca franzida merece ser preenchida  na forma exata.  Há excelentes profissionais fazendo o procedimento. Se algum dia sentir que meus lábios estão perdendo a forma, claro que recorrerei à técnica, mas prometo a todos que jamais me verão  "bicuda" pelas ruas.   Esse bocão é  feio, estereotipado,  e  está   detonando a naturalidade do rosto feminino.
Pensando bem, ainda opto pela boca murcha  a  uma boca hiper-inflada!
Mulheres, tenham cautela e discernimento. É feio o que muitas andam fazendo; se descaracterizando, mudando totalmente algo que poderia ser embelezado de forma sutil...
Não sejam caricatas. Isso dói!




Escrito por Belvedere às 10h44
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