Sarau da Belvedere


Ana Suzuki - uma pessoa especial

ÀS NOVE EM PONTO
     - Ana  Suzuki -
Eu sempre acompanhava o programa que o João  Gasparini  levava ao ar todas as noites, de segunda a sexta, das oito às dez, através da Rádio Serra Negra. Era um programa alegre, descontraído, intimista como convinha a uma cidade pequena, onde todos se conhecem.
Só que, às nove em ponto, o João apresentava um momento de oração, nos moldes católicos. Nesse momento, invariavelmente, eu chorava. Um choro morno, sem desespero, de pura saudade, por recuperar na memória alguma coisa de um mundo que eu perdi, e que era muito católico.
"Salve a mãe de Deus e nossa, sem pecado concebida..."
Ouço de novo. E revejo o oratório de minha avó Laura, o quadro de Santa Luzia, a gravura do anjo da guarda protegendo a menininha que ia cair num precipício. Mamãe rezando à Nossa Senhora Aparecida para que papai voltasse vivo da guerra na Itália. Tia Líbia no Santuário de Santa Terezinha, acendendo velas para iluminar o caminho das almas. Tio Chote assistindo contrito à dança do moçambique. Tia Dita levando-me ao Convento do Carmo para rezar novenas. Enquanto chorava, ia revendo outros tios, outras tias, suas devoções.
Naquele mundo devoto, só meu avô Nicolau destoava. Ele dizia:
– Não gosto quando dizem que sou um homem bom! Fico com medo de ir para o céu, quando morrer. Se for como na igreja, não vai ter nada do que eu gosto. Já imaginou ficar uma eternidade sem cerveja, sem jogo de bocha, rezando dia e noite no meio daquela velharada beata? Porca miséria!
Quando vovô estava morrendo, um padre foi chamado para ouvir-lhe a última confissão. Ao sair do quarto, com lágrimas nos olhos, o padre declarou à família:
– Acabo de ouvir a confissão de um homem quase santo! Só o Bispo será digno de rezar uma missa por ele...
E de fato o meu avô, um pobre marceneiro, teve sua alma especialmente encomendada pelo Bispo da diocese de Taubaté. Talvez porque tivesse conseguido ser bom pelo gosto de ser bom, sem por isto esperar recompensas na terra ou no céu...
Choro ainda, e chorando lembro um trem.
Havia um trem, que todo ano me levava para a casa de meus avós. Era sempre noite quando eu chegava, e meu avô já estava esperando na estação. Era sempre madrugada quando eu ia embora, e meu avô ia té a estação para a despedida. Na curva, quando eu olhava pela janela, ele ainda estava lá, acenando com um lenço branco. Eu chorava, e sabia que ele também estava chorando.
Mas haveria um retorno, que hoje não há.
Que é que eu podia fazer em Taubaté, terra onde nasci e onde passava as férias, senão chorar junto às sepulturas de toda uma grande família que se extinguiu? Se era para chorar, chorava ali mesmo, com hora marcada, às nove em ponto. Pelo menos isso me deixava livre o resto do tempo, para rir, cantar e dançar, para celebrar a vida.
Boa noite, vovô! Quando meu trem chegar, espero que ele me leve direto para a estação onde você está, nem que seja só para passar umas férias.


Escrito por Belvedere às 19h54
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Elane - homenageando Belvedere

     SERÁ?           

De: ElaneTomich
Para: Belvedere

Será o som de sinos
chamando a tarde,
 que arde
em serranias lilases?

Ou toque de banjos
duelo entre anjos
cristal que se parte?

Não é nem  natal
não há jingles bels
 mas, nada de mal:

Fulana de tal
por quem dobram os sinos
 de pura alegria
  aos muitos fascínios
do  banjos,magia,
pegado emprestado
 da moça fatal
com olhos de céu.
cheiro de menina
andar de prazeres
o brilho no anel
e o som que diz bel
bel-a-belvedere
face a face
 fácil,
onde se vê
 a  vida nascer!

http://www.elanetomich.com.br
http://www.usinadeletras.com.br;
 http://www.lunaeamigos.com.br
MNS:lailaiskra@hotmail


Escrito por Belvedere às 19h50
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POETRIX

Tempestade


caíram todas as estrelas
e a lua não apareceu...
sombrio o poeta morreu.


(Antonio Carlos Menezes)



Escrito por Belvedere às 19h40
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a torneira
 
 
No princípio era só um plinc plinc plinc, gotícula mínima d'água batendo no fundo da pia de alumínio, produzindo um som agudo, finíssimo. Com o passar do tempo transformou-se num ploc ploc ploc irritante, o pingo ficou maior. De um dia pro outro, sem aviso prévio, os pingos pararam e um filete de água começou a escorrer pelo azulejo amarelo, como um rio de ferrugem atravessando a parede. Depois virou uma cascata que inundava a pia.
 
Se uma torneira estava com problema, bem que a mulher podia usar a outra, mas não, tinha que ser aquela, que trazia água da rua, com cloro e o escambau a quatro. A outra era da caixa, de água parada, com o cloro juntado no fundo, não era recomendável.
 
A mulher o azucrinava pra ele trocar a torneira. Preguiçoso, daqueles que pagam pra não fazer o serviço, protelava a amolação. Mas fazer o quê? A verdade é que não podia deixar a pia daquele jeito. Ela até já havia comprado uma torneira nova, mais moderna, mais bonita. E ele era um desajeitado para as coisas domésticas, não nasceu pra isso, nasceu pra ficar escrevendo, desenhando, pintando, era um artista e não um marido pretensiosamente burguês.
 
Quando foi obrigado a trocar a cortina do banheiro, teve de furar a parede pra colocar os ganchos, acabou furando o cano de água. E ao trocar a cortina da sala? Aquilo sim foi um horror. A sala era pequena, o espaço era exíguo, mesmo tirando as poltronas e empurrando um pouco a estante, tinha que ficar enroscado na escada. No meio do trabalho o corpo torto perdeu o equilíbrio, de repente, nada debaixo dos seus pés, viu-se pendurado no bandô, que despencou junto com ele. Foi um desastre, quebrou o vidro da janela, derrubou os livros da estante e teve ferimentos no braço.

Agora era obrigado a trocar a torneira. Bom, vamos lá, pensou, sem achar alternativa. Pelos menos, não tinha que furar nada nem subir em escada. Fechou o registro, tirou a torneira, até que foi fácil, pegou a nova, passou a fita adesiva para vedar e colocou-a, apertando bem. Abriu o registro e verificou, nada de vazamento. Legal. Deu-se por satisfeito.

— Pronto, mulher! Não me encha mais o saco, a torneira tá consertada.

— Morreu por causa disso, perdeu um dedo? — ela trovejou.

Ele não deu bola, sacudiu os ombros e foi sentar-se em frente ao micro, para escrever um conto que havia iniciado.
 
Estava com uma idéia que achava mirabolante, até quem sabe, sensacional. Só precisava concentrar-se, desligar-se dos ruídos do mundo e do blablablá da mulher. Usou toda a força mental que conseguiu, quase se desmaterializando, e deixou os dedos correrem livres sobre o teclado. O clima da história estava se incorporando nele, já estava na segunda folha quando levou um susto:
 
— Ô vagabundo, vem almoçar. O almoço tá na mesa.
 
O grito estridente da mulher deixou-o paralisado feito estátua.
 
— O quê? Você fez almoço, mulher? Está doente? — disse brincando, ao chegar à cozinha.
 
— Senta logo, idiota. Não enche o saco.
 
A cozinha pequena tinha uma mesa oval, grudada à pia, na verdade, quase em cima da pia. Para lavar louça, lavar o filtro ou mesmo para fazer o café, era preciso empurrar a mesa.
 
Sentaram cada um no seu lugar e começaram a comer, calmamente. Dentro do silêncio, apenas se ouvia o barulho dos garfos nos pratos, os dentes mastigando a comida.
 
De súbito, um silvo agudo, vindo não se sabe de onde, atravessou a cozinha. Ele parou de comer, o garfo suspenso no meio caminho. Ela levantou a cabeça e olhou pra ele com um olhar interrogativo. Foi aí que um chiado mais forte jorrou em esguicho, acertando bem no peito dela.
 
— Puta merda — ela gritou, apavorada.
 
Com a pressão da água, a torneira foi arrancada da parede e caiu dentro do prato de salada, desfazendo-o em cacos, pedaços de tomate e alface espalhando-se pelos ares.
 
Foi um deus-nos-acuda. Encharcou tudo, arroz, feijão, mesa, chão e os dois aparvalhados, olhando cada um pra cara do outro.
 
A mulher levantou-se, como se fosse tomar uma providência, desistiu, sentou-se de novo e chorou. Ele começou a rir baixinho, o riso aumentando, aumentando, até virar uma gargalhada que parecia nunca mais acabar.
 
 
pastorelli
05.01.05

Escrito por Belvedere às 17h50
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Livro de Simone Maia - A última estação

 

Para adquirir o livro:

 

Maia, Simone
Endereço(s) de email(s):
  simone_maia72@yahoo.com.br

 



Escrito por Belvedere às 13h13
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Larissa -Simone Maia - acaba de lançar seu livro individual.

 Tua inquietude se justifica, Larissa. Em algum lugar no teu passado, tão pequenino quanto você, a verdade se esconde e espreita teu riso fresco, recente e sempre tenso, ansioso por ela. Esconde-esconde. Esse teu riso é assim tenso, Larissa, porque você já sabe, sem saber como, da existência dessa verdade. Você apenas sabe que ela existe, embora ainda não saiba o que ela representa. “O que é a verdade?” – isso perguntam os adultos que, antes de se esconderem pelos cantos da casa a falarem de você, observam atentamente teus mínimos gestos, a fim de captarem quaisquer “sinais de comportamento suspeito”. E a suspeita deles recai sobre esse teu saber que, sem que eles saibam,  já existe e é só teu. Você sabe que eles têm lhe enganado esse tempo todo, mas você também sabe enganar, não é, Larissa?
 “Quem é teu pai, Larissa?” – pergunta tua avó quando te leva para passear pelos jardins da igreja. “Meu pai é Deus!” – você responde então, feito uma linda bonequinha de ventríloquo. Mas você sabe que tua avó lhe ensinou esta resposta e que deve pronunciá-la sempre que exigido. Não é a tua resposta que ela quer ouvir. Você tem uma, não é, Larissa?
 Os adultos agora te repreendem porque já sentem a ameaça que parte desse teu riso perturbador. “Como ela é esperta!” – eles comentam sobre você, enquanto tremem as xícaras com chá. E então, o riso tenso se propaga feito vírus, surpreendendo bocas omissas. A bebida a queimar-lhes a língua.
 No lugar da meiguice que deverias trazer no semblante e nos gestos, trazes a descrença e o desprezo, tal qual o velho pagador de impostos que a vida toda fora enganado e lesado pelo sistema. Você já não acredita neles. Cresceu no ritmo de tua ânsia por saber. E agora sabe, mas ainda quer saber o quê. Sossegue... eles lhe dirão um dia, Larissa.
 Alguns dizem que você é a extensão de um erro. Um erro cometido no auge de uma paixão inconseqüente, como costumam ser todas as paixões. Um dia tua mãe lhe contará tudo, se ainda tiver forças. E é importante que você apenas compreenda o que ela lhe disser. Não a julgue nem a condene, pois a vida já tem se encarregado disso.
 Quando teu pai te deixou para trás, feito bagagem indesejada em viagem longa, ele apenas estava se livrando de um fardo que não conseguiria carregar pelas estradas íngremes que o aguardavam. Ele a amava, mas deixou que o vício arruinasse seus planos.
 Quando tiveres acumulado mais verões e já tiveres aceitado a verdade, talvez o encontre num boteco qualquer, apoiado num balcão imundo, olhando você passar. Talvez ele ainda encontre na memória um esboço do que você já foi um dia e te reconheça como parte dele. Parte do que ele mesmo já foi um dia. Mas, se por conta de um cabelo tingido ou um semblante radicalmente alterado pela passagem dos teus anos, ele não for capaz de fazê-lo, aceite os gracejos dele enquanto passas, apenas como o ébrio sibilar de um pobre miserável que já não reconhece nem a si próprio.
 E para encerrar, Larissa, quando esse a quem hoje chamas de pai, também partir, reconheça nos hematomas de teu corpo as marcas que tua mãe traz na alma, e permita que essa revelação as una para sempre, num laço de profundo amor e cumplicidade.

 



Escrito por Belvedere às 12h52
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O tempo, Inexorável, Nada Me Diz... Delasnieve Daspet



Já vai ser o quarto dia do ano!
Espanto-me com o tempo.
A realidade cai em meus ombros,
Acordo de um sono profundo.

Deus! Como não percebi?!
Já se passaram os anos e eu não vi!
Já vivi mais da metade de minha vida,
O meu tempo na terra já se esvai!

Não me dei conta e perdi-me com tantas coisas
Sem importância...
Não parei para observar que o tempo não volta!

Que me resta além do que  pus fora com
Intransigência, intolerância, ilusões, desamor,
 arrogancia até?  O que me resta?!

Com muita sorte terei pela frente no máximo
Uma década de vida útil, saúde para realizar
As coisas simples da vida!

Cinquenta e quatro  espartanos anos...
O que eu sei?! Nada!
Só sei que estou viva agora!
Sim estou.. pulsam minhas veias,
O sangue acelerado anda por todo corpo,
E os sentimentos, a emoção, o sentir,
Respiram em mim!


Estou viva ainda ou é apenas um espectro quem escreve?
Estou viva,choro, aspiro, respiro, canso, sonho,
Desejo, amo e odeio...
O vento ondula e lambe o suor que escorre de
Minha pele, com suavidade.
Desperta, estou!

E amanhã?!
Amanhã sentirei estes mesmos sabores e odores?
Não sei... o tempo, inexorável, nada me diz...
Sofro...  Lamento...
Acabo de descobrir a fugacidade da vida,
E tanto escorreu-me pelos dedos...

O que deixei para depois?!
Será que ainda dá tempo
De te dizer que te quero bem?!
Ou será que meu depois não existirá?!

Agora que tudo pode ser tão agradável
Começa a findar...
Chegou a maturidade - o melhor momento
Já passou!

Grama crescendo, uma flor se abrindo, a chuva que cai,
Cabelos molhados, roupa colada ao corpo,
Misha sorrindo, sabiá  laranjeira no quintal,
Ararinha que passa voando,
A melodia que se perde no éter,
Tu - amigo querido,
Teu sorriso - minha criança amada,
São as coisas mais simples e verdadeiras
Que encontrei ...

O tempo...
Já tão curto não me oferece segunda época.

22.17 horas - 03.01.05
Campo Grande MS




Escrito por Belvedere às 20h43
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Uma excelente escritora!

DO CÉU SÓ CAI CHUVA
      
       cláudia villela de andrade

       Prata.  Os pingos de chuva eram tão grossos que pareciam cordões de
prata ligando o céu ao chão. Era só estender a mão, segurar um e subir feito
João no pé de feijão. O ouro estaria lá em cima, debaixo de alguma galinha.
Mas não se queria mais ouro. Queria-se paz. Aquela dos anjos tocando harpas
e flautas. Flutuando no espaço com asas longas de equilíbrio. Harmonia
celeste na alma despreocupada. Apesar de saber que esse tipo de eternidade
deve ser monótona, muitas vezes clama-se por ela na hora barulhenta em que o
avesso é melhor que o direito. Vale todo engano. Até chuva confundida com
cordão de prata. Até trocar ouro pela música dos anjos. Tudo vale. Só não
vale deixar de procurar uma subida, opsss, quer dizer... uma saída.




www.claudiavilleladeandrade.prosaeverso.com
www.paxpoesis.hpg.ig.com.br
www.gaiolaberta.com
www.claudiavilleladeandrade.mayte.us



Escrito por Belvedere às 19h44
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Minha musa: Linda Maria

nácar

    Não tenho mais sonhos.
    Eles se foram junto às folhas,
    levados pela brisa da tarde
    e pelo frio do inverno que sinto .
    Não tenho mais sonhos.
    O que tenho são esperas. E pressentimentos.

    © Linda Maria



Escrito por Belvedere às 19h41
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Chegada ou Partida Elane Tomich


Não! Não foi assim tão ruim
estar entre o sonho e a verdade.
Acordar com frio, sim,
transpondo o portal da saudade.

Não sei se revolta ou volta,
ou se dever de partida.
O que vi de volta à volta
não sei se era morte ou vida .

No meu peito embolorado
saudade com data vencida.
punha-me em dois lados,
de um infinito resumido.

Do lado do ir embora
coube a um hiato de memória
definir, certeira, a hora
de contar e ouvir histórias.

A mão, a mim estendida,
fosse ela de quem fosse
convidava uma ida à vida
mas a asma trouxe a tosse ...

No meio de duas idas
e de uma chegada e meia
uma paixão dividida
calou-se na pré-estréia..

Na casa desta charada
onde sorriu-me o sorriso
um anjo de asa quebrada
sem um pingo de juízo...

...a desvencilhar-me da ida
condução em travessia
à chegada da saída
onde o medo se esvazia!

Se alguém por um acaso
também viu este anjo
com um sorriso de ocaso
e olhos que sonham banjos...

...diga-lhe que não o esqueço
dentro da minha saudade!
Ele sabe o endereço
da minha perplexidade.


 


Escrito por Belvedere às 15h50
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Thaty Marcondes

A menina que colecionava conchas

Thaty Marcondes

 

Era a primeira vez que via o mar. Encantou-se, mas ficou assustada com o barulho. Ergueu os bracinhos achando que podia tocar o céu com a ponta dos dedos. Sentiu a brisa fresca da praia, viu a lua nascer enquanto o sol ainda luzia. Pés de pele fininha, delicados e pequenos, como pãezinhos gordinhos. Quis correr. Sentiu algo duro machucando a sola delicada e viu uma conchinha. Foi amor à primeira vista. Aquela coisa tão áspera e bela ao mesmo tempo! Essa foi a primeira lição de sua vida: a aspereza tem seu lado terno. Lição que aproveitaria mais que tudo em seu destino. Resolveu que teria muitas, muitas conchinhas na vida. Como a experiência havia sido dolorosa, apesar de bela, pensou: “pra cada dor da vida, uma concha vou guardar”.

E assim foi. Dava nome a cada uma das conchinhas; associava-a a pessoas ou fatos; datava; catalogava. Tinha um diário onde colocava o nome de cada concha, a data e a lembrança a ela relacionada. Quando sentia saudades de alguma pessoa-concha, colava-a em seus ouvidos para ouvir, misturada ao som do mar, a voz do ente querido afastado ou perdido para sempre.

Nunca mais se afastou do mar. Nunca mais teve a pele fina em seus pés. Construiu uma casa de conchas. Dormia embalada pelas vozes das conchas. Seu nome? Pérola.

 

30/04 – 22/09/04



Escrito por Belvedere às 15h45
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HELENA ARMOND

Reflexões sem fim
assumo a dicotomia...
não chega a  esquizofrenia...
tantos clones ou desdobrares  de
MIM
em cada espelho
ou nos vidros das vidraças
do passado
reflito e nem me procuro
apareço de imediato
as vezes paro em  imagens
com  as que me identifico
assim... assim ...
parecidas com retratos
que um japonês  fez
de
MIM
de outras me afasto
com certo receio ou medo
em uma delas me vejo
servindo sequilhos em quebras
 receita
de
Muzambinho
Moçambique
quando a farinha
era
mais branca
nas mãos negras da Celina
e...eu servia
a meus amigos das ruas
imaginando hóstias e com isso a garantia
de salvação nas provas
em outras corri esquinas
convidando a periferia
pra uma “ reza” terço... coisa assim...
sobre um tapete persa
herança do bisavô
meu pai não garantia o que poderia ser
de
MIM
minha mãe  que Deus a tenha assegurou
seria um assim assim ...permitido
“senso”  “ criares “ “ salvares “ 
de artista...o que justifica ...
 %¨%$&¨%$#$ ! ! !
em outras eu refletia
atirava pedras
num futuro permanente
que em
MIM
não alcançava
em toda fé eu cantava
e ainda canto toda esquizofrenia
“ vestidadebrancoelapareceu
trazianacintaascoresdocéu
aveaveavemaria
não fazia sentido e ainda não faz
reflexões sem fim...!
são flahs
passados  presentes
futuros flashs que intermediam
e emolduram
vidros
em
                                                                                     portas  retratos
                                                                                             de
MIM
xxx
Óbvio que tudo que escrevo...
Ainda falo de MIMha-esquizofrenia
Xxx
helena armond
 
 
 
 
 
 


Escrito por Belvedere às 19h43
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Belvedere - By Naldovelho

Eis aí a poetisa surgindo de forma contundente para nos conduzir a uma viagem por entre versos, prosas, poemetos, imagens, significados e vivenciação. Às vezes doce, às vezes ácida, em muitos momentos pura ironia, em outros confessadamente nostálgica, a nos mostrar um ser humano rico, denso e cheio de sensibilidade.
Mestra em nos dizer com frases curtas, poucas palavras e textos que chegam a ser lacônicos, coisas tantas que nós outros com muitas não conseguimos expressar.
Seja bem vinda a poetisa, dona de uma visão madura do jogo lúdico que a palavra nos traz. Dona de um romantismo aceso que sem se entregar ao queixume nos mostra o quanto um ser é capaz de amar e, novamente amar e ainda uma vez mais, amar.  
Bom que a sua voz não tenha permanecido em silêncio! É muito bom ler os seus versos, suas pequenas histórias e principalmente perceber o significado das suas palavras.
Sua benção poetisa! Que esta estrada lhe seja sempre fértil, pois a cada poema, mais um passo terá sido dado em busca da compreensão.
 
Para
 
BELVEDERE BRUNO
 
Por
 
NALDOVELHO 




Escrito por Belvedere às 14h57
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Uma prosa gostosinha da Cissa, uma escritora excelente!

GENTE INDISCRETA

Cissa de Oliveira

Eu era viciada em refrigerante. Acho que também em fazer planos. Era chegar o final do ano e lá se vinha uma lista das grandes.

Neste ano foi diferente. Entre tantos planos que eu poderia fazer, o único que eu fiz, de fato e sem rabiscar nem piscar, foi o de não beber, durante os próximos trezentos e sessenta e cinco dias, qualquer refrigerante. Digamos que foi uma promessa feita sob a luz da razão, e dos fogos de artifícios derramando estrelas coloridas na areia da Praia Grande. Além do mais, tudo nessa bebida é excesso. O açúcar, o gás, o aromatizante. Quanto aos planos, pode ser que eu ainda faça mais alguns, lógico, sempre sob a luz da razão.

Há cinco anos eu rabiscava uma lista deles sob a pouca luz da emoção, para depois esquecê-los em alguma página da agenda, afinal eram planos de longo alcance e que eu não precisava ficar relembrando todos os dias. No caso do refrigerante não. É todo dia. Na hora das refeições, na hora do calor, na hora daquela vontade de "alguma coisa" que a gente não sabe muito bem o que é, mas que na verdade só tem um nome: ansiedade.

Na ausência do rabisco dos planos, não há como ter a segurança de que tudo foi previsto, mesmo que a lembrança do previsto seja vaga, muito vaga. Agora, vez em quando eu tenho de me questionar: - O que é mesmo que é importante e prioritário no andamento das coisas?

Engraçado é que há sempre uma nova luz, uma possibilidade, um sonho se descortinando, um permitir-se, e por que não? Mas engraçado, engraçado mesmo, é não sentir a mínima falta dos planos, digo, dos refrigerantes!

Na verdade ninguém liga à mínima para os meus planos, se foram feitos ou não, mas já há quem faça piadinhas perguntando sobre uma tal de "loira gelada" e outros pseudônimos para a cervejinha.

- O gente indiscreta!

Cissa de Oliveira

16.01.05




Escrito por Belvedere às 16h05
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Cigana -NaldoVelho - homenagem a Belvedere

  Oh Cigana!
Qual será o meu destino?
Você que vem lá dos confins do Oriente
e que hoje se mostra tal qual um rio,
mas que outrora já foi nascente,
qual será a trilha deste viajante ?
Você que em seu colo já abrigou tantos peregrinos
e que como um oásis acolheu este ser sem destino,
qual será o meu rumo, o meu norte?
Você que hoje se faz em tão belos versos,
que traz o mel em suas palavras poucas,
que sacode a poeira de nossas roupas,
qual será o nosso destino ?
Você que hoje se disfarça
e se diz muçulmana,
mas que na verdade, se esconde, feiticeira,
qual será deste poeta a sorte?
Oh Cigana!
Por que não me revelar o segredo,
por que o disfarce, o mistério,
se quando eu olho para a sua face
vejo nela o sorriso e a verdade
de quem tem o poder de curar-me os medos.
Oh Cigana!
Por que não desfaz os feitiços,
por que não revela o meu nome
e o nome daquele que um dia me fez no exílio
e que como um nômade me legou ao desterro.
Oh Cigana!
Por que não revela os meus sonhos?


 
 
 
 


Escrito por Belvedere às 19h48
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Opinião da Grande Cissa! ARRE!

Olá Bel!

   Estou no webmail e não posso ver se foi formatado o teu poema.
 Independente disso, e o principal é que ele está um primor! Arre!
 Beijos,
 Cissa


Escrito por Belvedere às 19h37
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NaldoVelho, o grande poeta, comentando o ARRE!

Boa Bel!
 
Adoro quando você dá aos seus poemas pinceladas irônicas.
 
Naldo



Escrito por Belvedere às 14h29
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Helena

A Helena Armond




Com um pote mágico
de tintas e letras,
    brincas,
fazendo de conta
que não és diferente.

Do pote, saem
coisas inusitadas...

  Digo:  -És fenomenal!
 Rindo escancaradamente, respondes:
- Sou hipernormal!

Repito: - Como Helena Armond,
 não há nada igual!





















Escrito por Belvedere às 11h44
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Um excelente domingo!

Um link de qualidade:

http://www.luizpimentel.com.br/

 



Escrito por Belvedere às 11h37
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