Sarau da Belvedere


Passou dos limites

Lula exagerou na dose. Superou-se e criou uma confusão dos diabos. A oposição agradeceu e foi à luta. Exageros à parte, o episódio está dando no que tinha mesmo que dar. Ou alguém poderia supor que tudo ficaria como dantes depois de o Presidente da República dizer em um palanque que impediu um “alto companheiro” de divulgar atos de corrupção no governo anterior (ao invés de determinar uma rigorosa investigação)?

Estivesse o PT na oposição, o pedido de impeachment do presidente que cometesse tal infantilidade política seria pedido com a mesma ênfase como fazem hoje os líderes do PSDB e do PFL. Aliás, pensando bem, o PT, na oposição, dificilmente teria uma chance de ouro como a que Lula deu a seus adversários. Inimaginável pensar em um presidente da república, seja ele de que partido for, cometendo tamanha irresponsabilidade. O Severino Cavalcanti, talvez... Vade retro!

Não resta a Lula outra alternativa que não o pedido envergonhado de desculpas à nação e ao PSDB: “Errei, sim, companheiros! Excedi-me, talvez pelo calor das terras capixabas, e pisei feio na bola. Prometo não exagerar na dose em outra oportunidade”. Pronto, a oposição teria perdido seu cavalo-de-batalha. E o Brasil estaria livre de ouvir disparates ditos por seu presidente. Pelo menos até outro rega-bofe, seguido de outro discurso de improviso.

Mas a arrogância, até agora, falou mais alto: José Dirceu disparou ameaças; Lula disse que tinha direito a responder aos ataques; e outros cardeais petistas (alguns visivelmente constrangidos) tiveram de pular em defesa de seu líder. Pedidas as salutares desculpas, toda a justíssima grita contra a incontinência verbal – tão cansativa e repetitiva quanto perigosíssima – logo terá como sempre acalmado. A cena política então poderá voltar à anormalidade que a vem caracterizando.

          Entretanto, se existirem pessoas dentro do governo e do PT com um mínimo de apego à democracia, essas deverão exigir que Lula se contenha. Não dá mais para brindar com os companheiros nos bastidores de uma reunião ou de um palanque e depois arrotar fanfarronices que coloquem em risco o futuro do Brasil.

 

Passou dos limites (2)

         Morrem de fome as crianças das tribos indígenas no Centro-Oeste brasileiro. Mesmo com toda a retórica de ação emergencial governista, elas continuam morrendo desnutridas. Vê-las esquálidas, olhos tristes, à morte, deveria condoer qualquer um com vergonha na cara. Nenhum país pode pretender ser reconhecido como nação perante o mundo e, mais ainda, perante si próprio, se nele crianças morrem à míngua.

         Mesmo que a cultura de suas tribos determine que os adultos e os mais fortes têm prioridade para receber os alimentos trazidos a eles como esmolas, não é concebível que nos ceguemos e calemos diante das mortes já ocorridas e das que ainda certamente ocorrerão entre as crianças indígenas.

          Para que o Brasil pleiteia assento permanente (com direito a voto) no Conselho de Segurança da ONU? Retórica exibicionista? Conversa para enganar trouxas como eu, que via na Política Externa nacional uma das poucas coisas boas do governo Lula? Tudo isso ao mesmo tempo, parecem nos dizer mortes como estas.

          Ora, senhores, cada indiozinho que morre de fome afasta mais o Brasil daquilo que se pode chamar de país civilizado. Esqueçam o Conselho de Segurança e também seus conceitos de cidadania, se não podem dar alimento nem tratamento de saúde aos pequenos xavantes, bororós, guaranis e caiuás para que não morram de fome. Já que pelo jeito, senhores dos governos estaduais e federal, isto não os mata de vergonha.

           Só é ainda mais criminosa do que a fome de uma criança quase morta a covardia dos homens que têm o dever de zelar por ela e não o fazem.

Aquiles Rique Reis, músico e integrante do MPB4



Escrito por Belvedere às 20h36
[ ] [ envie esta mensagem ]


 

Vinho tinto

Lucilene Machado

Da boca do homem escorreram frases raras. Perfeita masturbação da língua. Nenhum defeito semântico na combinação. O verbo, que tecia o fio condutor, estava no presente do indicativo, tempo das verdades universais. Seria um poeta?

Ela suspirou, profundamente, e ajeitou-se na cadeira – havia uma inquietação em seus movimentos – sentindo as frases subir-lhe ao cérebro em espirais e promover caracóis em sua cabeça. Se olhasse firmemente nos olhos dele, cairia em êxtase.

A mulher de olhar úmido estava desconcertada. Há muito, não alimentava os desejos que agora duplicavam e reduplicavam. No rodopiar da conversa, a imagem casta de um pensamento antigo dilatou sua íris e um pequeno radar detectou o perigo. Súbito uma bifurcação: acolher as palavras ou remar contra a ternura? O olhar negro apalpava seu corpo. Formigação de imagens e possibilidades. A vida é feita de escolhas, e ela, apesar de resistente, sempre cedera ao amor. Talvez por isso, os olhos úmidos banhados por uma lágrima que não escorre. Diante das circunstâncias, preferiu proteger-se do olhar com força de laço.

Levantou-se com dificuldades como se o corpo fosse uma grande montanha onde pesam as escolhas. Na boca, um último gole de vinho para ingerir a insatisfação. Ele não insistiu para que ela ficasse. Teve esta oportunidade quando o lenço de seda esvoaçante, empurrado por um vento invisível, escorregou de seus ombros, mas não o fez. Sem demonstrar o ressentimento, ela sorriu com todos os dentes e arrastou o destino como se arrasta um fardo.

Caminhou pelas ruas com um lento desejo martelando o corpo. Se ao menos ele percebesse, se ao menos adivinhasse o porquê de seus olhos difíceis e aparecesse em sua frente com um botão de rosas, ou lhe tomasse a mão e andassem pelas ruas em meio a sirenes, músicas, risadas... Incorreriam ao ridículo? Absolutamente. Nada pior do que não ser correspondida. Nada pior que a distância afastando dois corpos que podem não mais se encontrar. Ele não moveu os pés do lugar. Individualista que era. Nem deve perceber que a terra gira. Como pôde supor que ele fosse um poeta? Deve ser um ilusionista. Sincero na arte de iludir. Depois a magia se desfaz e resta você com aquele complexo de imbecilidade.

Mas, e se fosse de fato um poeta? Tivesse a capacidade de esticar o tempo, amor agudo em sustenido ultrapassando todas as barreiras... talvez inventasse uma música para ela, uma música que dobrasse seu dorso e lhe arrancasse todos os beijos possíveis e etc, e etc., atitudes demasiadamente conhecidas para que valha a pena descrever.

Suposições! Não poderia encaixá-lo nesse perfil. Um homem com essa sensibilidade conheceria as regras femininas. Sair quando se quer ficar, é regra antiga. Não, não devia pensar assim, ela é que era hipócrita, carregava aquele coração intrincado e cheio de remendos. De que adiantou recolher o corpo se o espírito persistia em permanecer diante da luz amarela dos olhos dele?

Da boca da mulher, não escorria o verbo fácil da compreensão. O tempo era mais que perfeito, mas nenhuma conjugação profética, nenhuma promessa a se fazer sentença. Era movida por uma ciência estranha, próxima e distante. Elegante escultura de concretagem fria e, acrescente-se a isso, beleza na medida exata. Aproximava-se das deusas, em seu encanto, fêmea de traços redondos e olhos afastados. Seria uma aventureira? Que fosse! Correria o risco, inclusive o de ser esculpido pelos elípticos caprichos dela.

O tempo breve para se apreciar uma garrafa de vinho, foi o tempo que o homem teve para observá-la. Os lábios tingidos de um rosa-gerânio poderiam ser indícios de paixão vindoura. Poderia ser o vinho tinto, poderia não ser. Mas nada, nem voz embargada, nem tremor de mãos a denunciava. Talvez estivesse acostumado a mulheres que jogam o cabelo para trás, deslizam as mãos pela mesa como se estivessem procurando um lugar no mapa e, subitamente, as pontas dos dedos se tocam. Depois, os dedos dele fariam o caminho inverso, procurando algum lugar no mapa da pele dela.

Entretanto, a moça pousava o copo na mesa com segurança e, ria-se quase acanhada. O olhar úmido encharcava-se, a água quase chegava as bordas ameaçando alagar todo o rosto, mas como num milagre, o fenômeno das lágrimas não ocorria. Uma leitura difícil de se fazer. Exigia conhecimento científico. E ele empenhado em recorrer a artifícios lingüísticos para ajustar o vocabulário, tendo o extremo cuidado de preservar ambigüidades. Segundo teorias masculina, mulheres gostam de frases duvidosas. Ainda assim, quando brotava a voz, supunha-se navegando nas ondas de uma quimera. Tentava retomar o discurso com adjetivos mais ousados, mas por que se resguardava? Um pouco de atrevimento não seria mal algum. Mas, e se ela não acolhesse os significados? E daí? Daí... era forte o bastante para suportar. Bem, naquela idade seria desastroso não prever a reação de uma mulher. Uma rejeição é uma dor. Ela, cada vez sorria menos e tinha a voz mais ligeira. Fingiu não entender algumas vezes, só para vê-la novamente abrir a boca como uma ostra cheia de pérolas, teve vontade de botar o dedo ali, naquela área úmida do mapa. Quase teve o ímpeto, quando o vento soprou nos panos azuis caindo sobre o colo. Gestos desgovernados tentavam encobrir o imprevisível. Hora de cair, num susto, daquela ponte movediça e ferir toda castidade. Mas, a maldita mania de viver a vida na exata medida que ela permite, dentro das fórmulas, dentro do correspondido, o impediu.

Ela levantou-se, tomou o último gole de vinho e foi-se. Ainda o olhou firme, pela última vez, como se olha uma noite negra e traiçoeira.



Escrito por Belvedere às 20h10
[ ] [ envie esta mensagem ]


Assim não pode ficar

Mauricio Cintrão

 

"Eu quero ficar só, mas comigo só eu não consigo". O cantor do Jota Quest embala a solidão do adolescente, que repete baixinho os versos da música. No refúgio do quarto, o pequeno rádio de pilha oferece o conforto que o destino não permitiu. É uma casa pobre, de gente trabalhadora.

Na pequena Conceição dos Ouros, em Minas, falta brilho aos olhos do garoto Alan. Ouve o rádio e imagina as imagens. Ele quase não vê. "Quero um amor maior, amor maior que eu" repete a canção.

Há 15 anos, quando tinha apenas 9 meses, Alan foi internado no Hospital Universitário de Taubaté para recuperar-se da desnutrição. Pais pobres são os que mais sofrem nas crises econômicas. Seus filhos vivem como podem, quando conseguem sobreviver.

"Amor de dentro prá fora, amor que eu desconheço", ecoa a canção. Mas a barbárie atropelou o tratamento do menino. Em um acesso de selvageria, um estudante do 6ª ano de Medicina espancou o pequeno Alan em pleno hospital.

O menino que ouve o rádio é um herói. Sobreviveu à desnutrição profunda e às seqüelas da monstruosidade: fraturas nos dois bracinhos e na perninha direita, além de escoriações generalizadas pelo corpo. Mas teve perda quase total da visão.

Agora toca Skank: "sozinho não enxergo nada, mas vou ficar aqui até que o dia amanheça". Não há escola próxima à pequena Conceição dos Ouros onde o adolescente possa ser educado para enfrentar o mundo sem visão. Mundo cego que não enxerga quem não vê.

A Justiça cumpriu seu papel. Condenou o agressor. O estudante Flávio Ricardo Baumgart Rossi foi sentenciado a sete anos e quatro meses de prisão. Condenado à revelia, porque fugiu logo após dar depoimento à polícia, em 1989. Alguém o está acobertando. Vive hoje nas sombras.

Sem querer, os destinos dos dois estão interligados pelas sombras. Um porque não enxerga, o outro porque não pode ser visto. Ambos condenados pela insanidade dos tempos. "Vou me esquecer de mim e você, se puder, não se esqueça", canta o Skank no rádio.

A diferença é que o crime do agressor prescreve no ano que vem. Ou seja, ele poderá sair da escuridão se a Justiça não conseguir prendê-lo a tempo. Alan não tem alternativa. Está condenado às paisagens esfumaçadas e aos vultos assustadores.

"Conheço bem a solidão, me solta e deixa a sorte me buscar", repete a música tocada no radinho de pilha.


Mauricio Cintrão

Escritor e autor do livro "O gordinho e a menina de rosa", da editora Protexto



Escrito por Belvedere às 20h08
[ ] [ envie esta mensagem ]


Este é o país com o maior solo cultivável do planeta. Riqueza de poucos, miséria de muitos.
"Salve Brasil, salve Nação!
Teu solo é fertil, teu povo não!" ...ele morre....de fome!
 
Tania Lemke


Escrito por Belvedere às 15h58
[ ] [ envie esta mensagem ]


SEPARAÇÃO
 
Dorcila Garcia
 

É sempre doloroso lidar com  perdas, principalmente se for a perda de uma mãe, de um filho, de um pai, de alguém muito querido. Mas a dor de uma separação, do fim de um grande amor ou de um casamento, também é muito profunda. O que mais sofre é aquele que acha que perdeu, que se doou demais, que recebeu de menos. Quem se vai, ainda que sofra, vai por sua própria decisão. Sente-se fortalecido pela coragem que encontrou para buscar outros caminhos, pelas perspectivas que tem pela frente, pelos sonhos que deseja realizar.
 
Quando o outro diz que tem de partir, não raras vezes argumenta que não será perda, que se pode estar junto sempre, sem ter que dividir o mesmo espaço. Mas o coração abandonado diz que é perda, sim, que o corte que está sendo feito não vai ficar impune, que esse rompimento vai ter o seu preço. Só a ausência da continuidade, a falta da conversa diária, já vão fazer um grande estrago nos sentimentos. Eles irão se arrefecendo aos poucos, quase nem se percebe. Quando ambos se derem conta, faltará até assunto para conversar.
 
Ninguém gosta de lidar com perdas. Separações são dolorosas para ambos os lados, ainda que o lado preterido sofra mais, já que tem de lidar também com o sentimento de rejeição. Quando um decide partir, na maioria das vezes, tudo já foi tentado para salvar o relacionamento. Até que um dia chega o momento de enfrentar a separação, que nos deixa com medo do futuro, que nos faz sentir como se estivéssemos sem chão, sem referência, apavorados por termos de sair da nossa apatia confortavelmente familiar. As mudanças, quaisquer que sejam elas, sempre nos assustam, deixam-nos vulneráveis, frágeis, inseguros.
 
Seria tão mais fácil não mudar nada, não questionar nada...Mas que tipo de vida seria essa? Uma estática interminável, que não machuca, mas que também não emociona. É por isso que se deve lutar com todas as forças para modificar essa letargia, para preservar e fazer renascer esse amor. Entretanto, é um esforço que tem de ser feito a dois, sob pena de se viver a ilusão de uma tranqüilidade insossa e vazia.
 
É quando se percebe que vivemos eternamente à procura do amor. É esse sentimento perene de busca que nos impulsiona a lutar por um relacionamento que já parece perdido. A preservação é instintiva no ser humano. A dor da separação assusta e só chegamos a esse ponto quando não há nada mais para se tentar. O que machuca mais é que raramente os dois lados chegam juntos a essa conclusão. Por essa razão, haverá sempre uma parte em desvantagem emocional, seja o homem ou a mulher. 
 
Diante do inevitável,  vamos nos sentir diminuídos no momento em que estivermos recolhendo nossos pedaços. E a duração desse momento vai parecer-nos uma eternidade. Nossa alma estará protestando contra a dor. Entretanto, mais adiante, quando essa dor tiver passado, vamos nos surpreender querendo apaixonar-nos outra vez, sentir todas as emoções fortes que, um dia,  nos fizeram sentir vivos. Vai depender de nós, de como aprendemos a  lidar com a nossa dor, da nossa coragem em seguir adiante, da nossa capacidade de sonhar. Vencidos esses obstáculos, então, estaremos prontos a traçar novos rumos, novos projetos, novas possibilidades, permanecendo abertos para receber um novo amor.
 

 


Escrito por Belvedere às 10h05
[ ] [ envie esta mensagem ]


Poemas de Otávio Coral

 

 SÚBITA PARTIDA
 
Aquele rosto de jaspe
nunca mais de fez
presente nas auras
iluminadas do sonho
perdendo-se incauto
nas estradas do real.
 
 
 
INSTANTÂNEO
 
Na imobilidade do gesto
- ave sem asas –
ocultam-se promessas
que não se fizeram frutos.
 Um grande silêncio se distende
 por entre escombros opacos.
 
 
 
CRUZAMENTO
 
pedras de sal
decompostas ao sol
fazem-se poeira de luz
faiscando ao meio-dia
da cruel encruzilhada
desafiadora da vida
 

IMEMORIAL
 
Olhar de medusa
prenúncio de impossibilidades
remotas lembranças
vagas ondas cavalgadas
por esgalgos corcéis de espuma.
 Indistinto horizonte de neblina
 afoga-se sob o canto das sereias.
 

SE...
 
Te encontrar
por acaso
seria uma festa
para meus olhos.
 
Mudaria meu rumo
me encheria de poesia,
alegraria minha melancolia,
acordaria meus sentidos.
 
Se por acaso....
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 


Escrito por Belvedere às 09h56
[ ] [ envie esta mensagem ]


Ordinariedade

Ao ser que passa
Sou figura estática
Figurante de um cenário esperado.

Ao ser que vive
Os que passam
Nao passam disso
Todos iguais nessa moagem
De óleo extra virgem
Pureza que não mais existe.

O tocar do sino, senhor!
O tocar do sino nos resgata.

Da mesmice dos homens
Para a mesmice divina.

Estamos perdidos
Não nos encontrarmos faz parte disso.

LLima










Escrito por Belvedere às 09h53
[ ] [ envie esta mensagem ]


Minipensamento
 
 
claudia villela de andrade
 
 
 
Eu queria ter feito uma tatuagem no ombro, outra no pé. Queria ter colocado um piercing no umbigo e quatro brincos em cada orelha...
Não tenho nada disso...sou careta, velha e medrosa...fumei um cigarro de maconha na adolescência e a minha cabeça caiu para trás...nunca mais cheguei perto da maldita. Passei tão mal...
Vivi com um monte de gente, mas não tive filhos...nem marido, mas muitos amantes..e tive cavalos, cachorros, galinhas, tartarugas, maritacas, vacas e mais vacas, gatos, ratos, traças também pela casa...e hoje me pergunto quem sou eu...vc sabe?
A noite está chuvosa e eu aqui sozinha escrevo para você. Tantas vezes me pergunto o porquê? Lembro do meu amigo Iosif Landau que esborracha tudo o que pensa aos 80 anos de idade. Sem censura, sem limite, dando mil foda-se para todos. Quero ser como ele quando eu crescer e olha que tenho só a metade da idade dele. Mas adoro saber que um dia vou escrachar tudo, como ele. Ah, se vou!
 

 


Escrito por Belvedere às 09h49
[ ] [ envie esta mensagem ]


Emissão de um Manifesto pela Suspensão das Execuções
dos Condenados à Morte e pela Abolição da Pena Capital

Tendo o Ministério da Justiça do Japão procedido no dia 14 de setembro à execução de dois condenados à morte, a Ordem Otani de Budismo Shin tomou a iniciativa de emitir o seguinte manifesto, em nome de seu Secretário Geral:

Manifesto pela Suspensão das Execuções dos Condenados à morte e pela Abolição da Pena Capital

Anteontem, dois condenados à morte foram executados, um na Penitenciária de Osaka e outro na Penitenciária de Fukuoka.

A partir do dia 28 de junho de 1998, a cada vez que ocorrem execuções de condenados à morte, temos emitido manifestos, em nome de nossa Ordem, a questionar a pena capital e a solicitar sua abolição. Temos chamado a atenção para a importância de se discutir a pena de morte, não apenas no interior de nossa comunidade religiosa, mas também de maneira ampla, visando a sociedade em geral. Entretanto, é realmente lamentável que nunca nossos apelos foram ouvidos e que as execuções tenham prosseguido.

Nossos ensinamentos propõem, a partir do Princípio do Voto Original do Buda Amida, um mundo em que todas as vidas sejam respeitadas como preciosas e insubstituíveis. Isso se aplica mesmo aos piores criminosos, inclusive nos casos em que eles não mostrem o menor sinal de autocrítica ou arrependimento. Fundamentados nesse anseio primordial, almejamos a concretização de uma sociedade em que a existência de cada ser humano seja respeitada em nome do princípio da dignidade da vida.

É claro que não podemos esquecer a profunda dor e o ressentimento de que são tomadas as vítimas. Também estamos cientes de que se ouvem vozes favoráveis à pena de morte. Entretanto, até agora temos verificado, através de conferências e simpósios que relacionam a pena de morte com a problemática das vítimas, que o que os familiares das vítimas de assassinato mais desejam é que os culpados dêem mostras de reflexão e sincero arrependimento, mostrando-se dispostos a, de alguma forma, repararem o mal que fizeram. Temos aprendido, também, que a dor das vítimas não é mitigada com a execução da pena de morte, mas sim através da comunicação e do diálogo com os culpados e seus familiares.

Nós almejamos o estabelecimento de novos padrões de relacionamento através dos quais seja possível aos culpados repararem seus erros e às vítimas se libertarem de suas angústias. Para isso, envidamos todos os esforços no sentido de criar espaços de diálogo e discussões envolvendo pessoas a defenderem os mais diversos pontos de vista.

Assim, ao mesmo tempo em que expressamos nosso desgosto diante das recentes execuções, queremos manifestar nosso anseio de que semelhantes procedimentos sejam suspensos futuramente e que sejam tomadas as medidas necessárias para caminharmos rumo à abolição da pena capital.

Kyoto, 16 de setembro de 2004
Rev. Soe Kumagai
Secretário Geral da Ordem Otani de Budismo Shin

Templo Budista Apucarana Nambei Honganji
Travessa Dorizon, s/n
86802-265 - Apucarana - Paraná
Telefone/Fax:
(0xx43) 423-0315
Monge Responsável:
Rev. Wagner Bronzeri (Sh. Haku-Shin)
E-mail: honganji@dharmanet.com.br

http://www.dharmanet.com.br/home/   Com autorização  do proprietário do site.Voltar para a página anterior



Escrito por Belvedere às 14h47
[ ] [ envie esta mensagem ]


ESPERANDO QUEM MESMO? (*)

Müller Barone

Meu amigo Betto (sempre ele) costuma dizer que a vida é feita de tragédias cotidianas. Estamos tão acostumados com elas que nem as notamos, salvo quando escapamos do dia-a-dia e paramos para pensar.

Uma delas é, por exemplo, ver sua casa invadida por um punhado de adolescentes, amigas da sua filha – como eu vejo todos os fins de semana – numa espécie de paródia ao que os americanos fazem no país dos outros. Quando saem, tudo está uma tragédia e você tem certeza de que, tão cedo, não terá mais sossego algum.

Foi num desses dias de invasão que levei um susto daqueles que deixam você sem ação, pela absoluta surpresa diante do inesperado. Uma das amigas da Lígia virou-se para mim e disse: "Tio (expressão que significa: você que é bem mais velho que eu.), você leu ‘Esperando Godot’? Eu li, mas não entendi a idéia por trás daquele cenário triste e sem esperança."

O susto foi triplo: primeiro porque ela não falou "tá ligado que eu li"; segundo porque o fato de ter lido este livro era por si só espantoso; e, terceiro, com todo o respeito às gírias e alienação de cada geração, dizer que não entendeu "a idéia por trás..." era intelectualizado demais para alguém que vive falando "supra sumo xexelento".

Após uns vinte minutos da minha crise de ausência, ela ainda estava ali, com aquela cara de Pequeno Príncipe, que nunca desiste de uma pergunta, olhando para mim como quem diz "estou esperando a explicação."

Já deram milhares de explicações sobre este livro e ainda existem alguns milhares de críticos buscando novas explicações, já que o autor mesmo nunca quis explicá-lo, como se dissesse: "Decifrem-no ou ele lhes devorará."

Pensei em uma definição que li, dizendo que Beckett pretendeu retratar o absurdo da existência humana, ou da maioria dos humanos, de viver em um mundo sem perspectivas, porque aqueles que realmente detêm o poder nunca aparecem para cumprir um pouco das expectativas dos desvalidos que eles sempre exploram, ainda que seja só para arranjar-lhes um emprego e continuar sua sanha espoliativa dando algumas migalhas em troca.

Mostrei a ela que ele realçou as tragédias cotidianas, como o Betto havia dito, para mostrar o absurdo da vida, que nós achamos que só existe à distância lendo o livro ou vendo o filme chamado "Ratos e Homens".

Disse a ela que seria mais fácil se pensasse, por exemplo, no Brasil de agora, para não se perder na perspectiva histórica e achar que tudo já acabou. Perguntei se ela sabia o quanto é absurdo alguém que ganha menos de duzentos reais ter medo de perder o emprego. Ela ficou espantada, porque o colégio em que estuda cobra uma mensalidade que é dobro disto.

Lembrei-lhe dos cinco dedos do Fernando Henrique e que ele poderia ser o Godot, já que parece que depois de eleito foi contaminado pelo mal de Hansen e perdeu os dedos e, de quebra, a consciência.

Disse que não prestamos atenção no absurdo que é vermos crianças que freqüentam escolas públicas serem obrigadas a notas melhores em brigas de gangues, por absoluta miséria social, do que em história, geografia ou literatura.

Tentei mostrar que a esquerda é uma espécie de cachorro que, quando os patrões permitem, tirando-lhe o chapéu ou não, fazem um belo discurso, mas só isto, reaparecendo, num segundo ato, da mesma forma absurda como aparecem no primeiro, enquanto os Estragons e Vladimirs continuam esperando algo que os livre da condição de animais, que não seja o suicídio ou o genocídio planejado pelo FMI e aplicado pelo Malan.

Ao final, creio que ela entendeu o motivo do cenário terrível da obra de Beckett., "triste e sem esperança", o absurdo de inúmeras "existências" que temem perder 200 reais ao mês e que não são cúmplices ou alienados, são desesperançados ao mesmo tempo em que vão levando a vida, até que encontrem uma árvore e uma corda suficientemente fortes a ponto de porem um fim nesta miséria, sem correrem o risco de mais uma tragédia, ou seja, a da solidão por não terem mais com quem dividir suas tragédias impostas pelo Godot de plantão.

Uma das invasoras que estava ao nosso lado e não foi além da "Escrava Isaura", exigido pelo colégio, acabou com a nossa conversa, sendo tão mortal quanto o final da história do Beckett: "Que xexelento, tio. Esperando quem mesmo?" E foram para o quarto ouvir Planet Hemp.

(*) escrito em 2001



Escrito por Belvedere às 14h16
[ ] [ envie esta mensagem ]


 
A Peneira
 

A função de uma PENEIRA é ir separando os grãos, pedras, areias e outros materiais, gradativamente, de acordo com a dimensão de cada um.

Ao falarmos DIMENSÃO, estamos nos referindo logicamente à dimensão terrena que nos foi ensinada quanto aos corpos físicos, sejam eles PENEIRADOS ou não.

Muito bem. Nosso SER tem uma maneira de PENEIRAR tudo o que vem ao seu encontro, seja de bom ou de mau: vai diluindo gradativamente aquilo que é salutar para ele, como SER Cósmico, Humano e Terreno.

É curioso como algumas pessoas passam a vida inteira, aceitando tudo de todos, até que chega um dia em que se sentem mais do que estafadas, aflitas em não poderem se LIBERTAR de certos aspectos da vida. Aspectos estes que as acompanharam quando elas mesmas sabiam de antemão que deveriam tê-los PENEIRADO, mas foram deixando, deixando, até que chega o momento em que muito pouco lhes resta senão virar a mesa, bater a porta, enfim, tomar uma atitude nem sempre condizente com tudo o que fizeram durante muitos e muitos anos.

Escrevo isso porque cheguei à conclusão, pura e simples, que realmente tudo o que nosso SER peneira por INSTINTO merece ser separado, pois no futuro poderemos ter seríssimos problemas ao constatar o que somos capazes de ir resolvendo e nunca resolvemos, apenas adiamos a solução.

Será que existe uma solução melhor do que vivermos como realmente gostamos de viver???

Procure analisar como anda a sua PENEIRA KÁRMICA, verifique se tem realmente peneirado ou se tem simplesmente se entregue a tudo que, mesmo sabendo que lhe será prejudicial, lhe ilude.

Faça isso e, sem dúvida, em pouco tempo verificará que muito da sua vida tornou-se mais fácil de resolver.

Escolha bem, e será bem escolhido.

 

 

ERMITÃO DA PICINGUABA
09/02/2005

 http://www.ermitaodapicinguaba.com/

 



Escrito por Belvedere às 14h14
[ ] [ envie esta mensagem ]


Diógenes e Os Políticos
Adilson Luiz Gonçalves

 

Política e políticos, no Brasil, são um caso sério...

Os eleitores têm muita culpa disso, sem dúvida, mas a falta de opções - apesar do mercado inflacionado - não tem ajudado muito a variar ou experimentar novas alternativas. São sempre os mesmos ou seus "herdeiros políticos"...

Às vezes aparece uma cara nova: ou um jovem, cheio de ideais, ou um indivíduo bem-intencionado e de reputação ilibada, o que nos enche de esperança. Mas, quando vasculhamos sua assessoria de campanha, é quase certo que encontraremos alguma "raposa velha", com todos os vícios da má-política, contaminando essa pureza com o canto de sereia da "experiência" eleitoral. Só que esse "remédio", quase sempre provoca efeitos colaterais e dependência.

Ainda nessa fase, são apresentados aos demais personagens desse "circo": os "papagaios de pirata", os cabos eleitorais e os que defenderão, com unhas e dentes, suas qualidades insofismáveis - muitas desconhecidas dele próprio - até que o não cumprimento de uma promessa de emprego ou vantagem pessoal os separe.

O neopolítico tende a ficar tão deslumbrado com o processo, que nem percebe que seus "fiéis" escudeiros quase sempre estão acendendo velas para vários "santos", alinhavando sua sobrevivência rastejante e oportunista em qualquer circunstância.

Pois é: já na fase embrionária são lançadas as sementes do comportamento venal, da traição, dos conchavos, da dissimulação, dos tapetes puxados - mas que nunca são limpos - do uso indevido de imunidade e influência, da promiscuidade e de tudo aquilo que tem feito a classe política brasileira cair em absoluto descrédito perante o eleitorado. No fim do processo, a única ideologia que resta é a da conveniência...

O resultado é que as eleições perderam a graça. A grande festa da democracia, hoje, mais parece venda de rifa, compulsório sobre combustíveis e seguro obrigatório de veículos: Você paga, mas é quase impossível receber!

O congresso, as assembléias legislativas e as câmaras municipais parecem um grande caldo: cheio de ingredientes - partidos políticos e correntes ideológicas - mas cujo gosto é sempre o mesmo e só se conhece os ingredientes lendo o rótulo. E considerando os ingredientes fica a certeza de que ele já está, no mínimo, com prazo vencido há muito tempo. Quando aparece algo de novo, ou é fio de cabelo ou mosca...

É isso que a maioria de nossos políticos têm oferecido aos seus eleitores: um prato de caldo, ralo e insosso, mas muito caro!

O eleitorado não é muito exigente. A imensa maioria da população não espera mais do que honestidade e coerência de seus representantes! E todos têm ciência disso, tanto que, independentemente de partido, esse compromisso faz parte do discurso de dez entre dez candidatos e eleitos! Então, por que não cumprem? Por acaso estão redefinindo o sentido dessas palavras num dicionário que ainda não foi publicado? Deve ser, pois o ônus financeiro e a culpa acaba recaindo sobre o povo, que "não sabe votar", que vota "de cabresto"... Só que por mais que exerçamos nosso lado racional na escolha de nossos candidatos, não temos nenhum controle sobre o uso que os eleitos farão de seus mandatos, nem sobre a variação de seu patrimônio nesse período.

É só não reeleger na eleição seguinte? Talvez, em teoria, mas o passado comprova que candidatos que não se reelegem continuam, de um jeito ou de outro, ocupando, acumulando e inchando cargos públicos.

A solução é o fim da obrigatoriedade do voto? Não! Nas atuais circunstâncias é melhor "não saber votar" - entenda-se: continuar tentando - do que ser omisso!

Quem sabe, um dia, apareçam candidatos ideais, que assumam a plataforma eleitoral do povo e, com dedicação e honestidade, cumpram seus mandatos em nome do desenvolvimento e enriquecimento da Nação, da justiça social, de princípios universais de ética e que se precisarem por a mão na consciência não corram o risco de sujá-la!

Hoje, Diógenes diria: "- Haja lanterna...".



 
Adilson Luiz Gonçalves

Engenheiro, Professor Universitário e Articulista

Leia outros artigos do autor na página:

http://www.algbr.hpg.com.br/artigos.htm

 


 


Escrito por Belvedere às 14h04
[ ] [ envie esta mensagem ]


A hegemônica raça de víboras
 
MARCIO SALES SARAIVA

“A verdade é sempre senhora e soberana; jamais se curva, jamais se torce, jamais se amolda.”
Vinícius (Pedro de Camargo)
 
“A verdade é a essência espiritual da vida” Emmanuel
 
Ser sincero é uma virtude cristã que anda esquecida. Jesus-Cristo – que na minha opinião é o maior Iluminado que já pisou no solo terreno - é muito lembrado como “meigo” profeta e “doce” mestre, mas, esquecem-se do seu lado enérgico, duro com os judeus-fariseus – os de ontem e os de hoje - chamando-os de “hipócritas”, “sepulcros caiados”  e “raça de víboras”.
Lembrei-me dessas coisas quando eu lia uma carta de um comunista ateu para a sua amada noiva onde, entre outras coisas, ele confessava os seus pecados com toda a sinceridade crística:
“Queres que te conte os pecados? Não todos, porque há coisas que não conto. Alguns. Se não estiveres firme no teu propósito [casar-se com ele], é provável que te desdigas e me esqueças, caso te lembres de mim. Evitarás fazer um péssimo arranjo. Se estiveres firme e me quiseres, então amarramos uma pedra ao pescoço, damos um mergulho – e vá o mundo abaixo, com todos os diabos! Aí estão os pecados: o primeiro, um dos piores, é encontrar-me sempre em lamentável estado de embriaguez. [...]
Sou leviano, inconstante, irascível e preguiçoso. Também creio que minto.
Examinando o decálogo, vejo com desgosto que das leis do velho Moisés apenas tenho respeitado uma ou duas. Nunca matei nem caluniei. E ainda assim não posso afirmar que não haja, indiretamente, contribuído para a morte do meu semelhante. Não sei. Furtar, propriamente, não furto; mas todos os meus livros do tempo de colegial foram comprados com dinheiro surrupiado a meu pai.
Sou ingrato e injusto, grosseiro e insensível à dor alheia, um acervo de ruindades. Poderia acrescentar que sou estúpido, mas isto é virtude.”
A citação é longa, mas, nada melhor para exemplificar a virtude da sinceridade do que essa carta do genial Graciliano Ramos à sua amada Heloísa Medeiros em 1928 (Cartas, ed. Record, 1980).
A denúncia do Cristo contra os fariseus e a confissão do ateu Graciliano simboliza esse “modus vivendi” que deveria servir de exemplo para todos/as aqueles/as que se colocam como discípulos de Jesus (católicos, ortodoxos, evangélicos, kardecistas, umbandistas, etc.), mas que em nome das regras sociais, convenções mundanas, acordos espúrios, interesses ocultos, bajulações estúpidas, alianças desonestas, etc. andam abandonando esse caminho da verdade e optando pelas palavras e ações “enquadradas” nos valores hegemônicos. O nome disso é capitulação, falseada como “respeito” e “convivência pacífica”.
Não penso que Jesus sirva de argumento para encobrir a deselegância, a falta de educação ou a aspereza no trato com o outro. Há pessoas agressivas que se acham sinceras, mas são apenas agressivas. A publicização das nossas verdades interiores deve se dar num clima de respeito. Não podemos permitir que nossa consciência torne-se complacente com aquilo que honestamente discordamos, nem permiti-la ser cooptada por situações contrárias aos nossos valores, cristãos ou não. Não podemos permitir essa violência existencial, se é que ainda temos consciência existencial, algo “fora de moda” nessa era pós-moderna de pessoas flácidas, maleáveis, adaptáveis, verdadeiros produtos de mercado, alienadas de si mesmas.
É isso que me faz admirar pessoas tão diferentes como Olavo de Carvalho e Luiz Carlos Prestes, Allan Kardec e Lutero, São Francisco de Assis e Osho, Krishnamurti e Arnaldo Jabor, porque todos eles têm uma coisa em comum: são exemplos de sinceridade, honestidade, franqueza, custe o que custar. Talvez, esse meu texto reflita uma nostalgia da época em que tínhamos heróis, valentes e verdadeiros. Uma época onde as palavras eram “sim, sim; não, não”, conforme o Evangelho. Hoje, a hegemonia é das víboras, dos sepulcros caiados, dos covardes e medíocres.
 
MARCIO SALES SARAIVA
Sociólogo formado pela UERJ e estudante de Teologia.
Membro da Ordem [Anglicana] de São Francisco


Escrito por Belvedere às 13h54
[ ] [ envie esta mensagem ]


 

Solidariedade, onde andas?

Luiz Maia

A solidariedade é, sem sombra de dúvidas, a forma maior de alguém expressar o seu amor. Solidariedade é coisa fina e rebuscada. É sentimento nobre. É comum nas grandes tragédias, quando se vê o espírito de solidariedade impregnado em cada rosto anônimo, em cada gesto esboçado na vã tentativa de poder reverter tal acontecimento. Ninguém nesse mundo foi tão solidário às pessoas quanto Jesus. Ensinou-nos a repartir o pão. Mostrou-nos como devemos ser solidários aos mais fracos e oprimidos. E como se isso não bastasse, atingiu o ponto máximo da solidariedade quando em nosso lugar morreu na cruz. Portanto, foi Jesus Cristo aquele que melhor encarnou o espírito de solidariedade, durante todo tempo em que veio pregar o Evangelho entre os homens.

Nos anais da história é fácil encontrar exemplos de pessoas que fizeram desse sentimento uma bandeira de luta, uma razão de vida. Casos de homens e mulheres que doaram parte de suas vidas sendo solidários a uma causa, transformando a vida de muitos, são comuns de se ver. Acontece, aconteceu e continuará a acontecer. É um fato insofismável e digno de louvor.

Como é bom saber que existem pessoas que se preocupam conosco, que lutam em nossas trincheiras e fazem dessa luta sua também. É fácil notar pessoas que lutaram uma vida inteira, tendo como premissa o bem comum da coletividade. Sonhadores, pensadores, guerrilheiros, poetas, escritores, políticos, cientistas e gente do povo, cada um na sua área e no seu front, são exemplos puros e fiéis de humanistas devotados e comprometidos com os princípios básicos do cristianismo.

Alguém poderá até pensar que um mero guerrilheiro não estaria em nada sendo solidário em suas ações. Pois bem, para citar apenas o mais famoso deles, Che Guevara, dele sabe-se que foi um fiel cumpridor dos sonhos libertários de um povo. Pugnou sempre pela causa da libertação dos povos das américas. Morreu abraçado à causa de libertação de povos que secularmente vivem debaixo do jugo do imperialismo. Como negar ou omitir ter sido ele uma pessoa investida do mais profundo sentimento de solidariedade humana? Com sua morte, deixou todo um legado de luta pelos mais fracos, oprimidos e excluídos do planeta. É bom lembrar que, ao lado de Fidel Castro, liderou uma revolução redentora em Cuba, livrando aquele povo das garras do ditador Fulgêncio Batista. Galgou o cargo de Ministro da Defesa de Cuba, permanecendo nele apenas pouco mais de um ano, donde seguiu para dar prosseguimento ao seus sonhos libertários, vindo a falecer no ano de 1967, nas cerradas matas bolivianas. Quem chega em Havana, pode visualizar um pensamento dele, na entrada da cidade, que diz assim: "Entre os homens sós e desesperados surgem facilmente os mais elevados sentimentos de solidariedade e lealdade humanas."

O mundo está cheio de exemplos de pessoas que são a própria solidariedade personificada, que são verdadeiros tesouros, que fazem desse sentimento bússola para o seu caminhar. Ninguém de sã consciência pode negar isso. Inclusive, sou defensor da tese de que todo homem nasce bom, vindo alguns a se tornarem empedernidos face à maldade que sempre absorveram ao longo de suas vidas. Não se nasce mau. Aprende-se a ser vivendo e comungando com quem assim já o é. Claro que para toda regra existem as exceções. Ainda bem que é assim.

Agora, o que fica bem visível diante de nós, é a escassez desse sentimento entre as pessoas, nos últimos tempos. Lamentamos que o homem esteja tão envolvido, apenas e simplesmente, com os seus problemas e suas necessidades básicas. Parece não sobrar mais tempo para o outro. Os vizinhos quase não se conhecem mais, parecendo até que todos preferem viver em total anonimato. Um simples "bom-dia" nas grandes cidades virou artigo de luxo. E o pior nisso tudo é que passou a ser comum. De tão comum que é já passou a ser normal. É uma pena que seja assim. A luta do dia-a-dia tornou as pessoas frias e calculistas. O que se vê é uma grande massa a correr pela sobrevivência, tornando-se todos autênticos equilibristas. Pior que isso: todos vivem a crueza fria da competição. E dessa realidade extraímos que todos parecem ser meros inimigos. Em meio a tudo isso, vemos ainda "ilhas" de pessoas a desenvolverem tão salutar sentimento pelo próximo. Enquanto pessoas assim ainda viverem, sem dúvida alguma, irão nos poupar de perguntar: "Solidariedade, onde andas?"

http://geocities.yahoo.com.br/maialuiz/
i c q: 100 105 154
SKYPE: luizmaia1
msn:
luizmaia1@hotmail.com
"Agradeçamos àqueles que costumam abrir caminhos para as pessoas temerosas,
que indecisas retardam o inicio de sua caminhada. Grande é aquele que
considera a vida uma viagem e tudo faz para torná-la prazerosa para os
outros e para si."
(Luiz Maia)



Escrito por Belvedere às 18h29
[ ] [ envie esta mensagem ]


CARTA DE CONFISSÃO

Adelmario Sampaio


... tenho o meu coração purificado,
desde que essa chama se acendeu...

Noutro tempo,
mais me afeiçoavam,
quando altivo e rude, era...
e em consequência,
proferiam os meus lábios,
palavras sem nexo...

Pois a turba se agrada dos sons incontidos
das feiras e praças das cidades desgovernadas...
E lá, desdobram-se humildes os servos,
aos pés de senhores ásperos e violentos...

Ó Amada,
não olharei mais para essa cena de horror...

...porque o Amor ensinou-me a contemplar a Beleza
...escondida em nossos corações...
**





Escrito por Belvedere às 14h20
[ ] [ envie esta mensagem ]


NAMO BUDDHAYA - NAMO DHARMAYA - NAMO SANGHAYA !

A IMPORTÂNCIA DA ESPIRITUALIDADE EM NOSSA VIDA DIÁRIA

Don Kulatunga Jayanetti


Querendo compreender a essência da vida, que é viver feliz, vamos examinar, caros amigos, a importância da espiritualidade no cotidiano. A espiritualidade pode ser definida como a qualidade do progresso metódico, anímico e natural, dotada de sensibilidade na vida animada - psíquico - , na vida animal, humana e seres invisíveis. Na vida animal, espiritualidade é os poucos momentos de amor, caridade, compaixão e alegria que os animais compartilham com sua própria espécie ou filhotes, mas que eles não estão capacitados a desenvolver. Por outro lado, o homem, com a sua dualidade corpo-mente, seus atributos de coragem, paciência, vigor, concentração, etc..., tendo consciência de suas virtudes e fraquezas e dispondo de incontáveis recursos para vencer as vicitudes, deve aproveitar sua existência para enriquecer seu lado espiritual, a essência da vida. Pois, se assim não proceder, perderá a oportunidade única que lhe é oferecida de atingir maior progresso evolutivo neste ciclo de nascimento e morte - Samsara. Espiritualidade é, na verdade, a mais elevada tarefa que pode o ser humano desempenhar.

Junto ao lado espiritual, existe o lado material - mundano, que é considerado transitório e dado a gozos ou prazeres materiais. Sem condições apropriadas, a espiritualidade não floresce. Nestes termos, vemos que há necessidade de se desenvolver ambos os aspectos - material e espiritual - para alcançar o progresso evolutivo. Ainda assim, estamos condicionados, vivendo viciados por uma multiplicidade de estímulos que nos iludem fazendo-nos acreditar que nada existe além do progresso material - mundano em detrimento do espiritual. Em vista disso, o lado espiritual é negligenciado e, sem ele, o progresso material torna-se superficial devido às leis universais que regem o cosmo, como a lei da causalidade - ação - reação - Karma. Colhemoss o que semeamos. Cada ação-palavra-falar, pensamento-pensar ou agir pelo corpo é movida por uma intenção, que é uma vibração que entra neste cosmo. Nada se perde; tudo está no cosmos. Existem boas e más vibrações que nos pertencem neste cosmo. À semelhança de uma ímã, às vezes atraímos boas vibrações e, então temos boas condições; às vezes, atraímos más vibrações e temos más condições. Não há certeza sobre o que vai acontecer porque tudo é relativo, depende de outras circunstâncias. Por esta razão, torna-se necessário dar importância à espiritualidade no dia-a-dia.

Amor, compaixão, caridade, alegria e equanimidade são elementos básicos da espiritualidade inerentes a todos os seres. Para aperfeiçoar essas qualidades, devemos igualmente aperfeiçoar as outras boas qualidades também inerentes a nós, como a moralidade - uma vida ética, a renúncia, o esforço, a sabedoria, a paciência, a tolerância, a veracidade e a determinação. Nelas nada é novo; nada que nos seja desconhecido. Sabemos a verdade que elas encerram, mas falta manter o forte reflexo em nossa mente sobre a importância - a proeminência, a necessidade urgente de sua prática a cada momento do dia-a-dia. Então, temos que enfatizar, estimular e aperfeiçoar essas qualidades, praticando, falando, contemplando e, desta forma, gravando na mente - memória de um forte reflexo que vai atuar indiretamente em todas as atividades de nossa vida, de modo natural e espontâneo. De que vale a teoria que sabemos se não a colocamos em prática? Só provando é que conhecemos o paladar de uma coisa, mas não a explicação sobre ela. Tal como corpo e mente, materialidade e espiritualidade, teoria e prática são interdependentes, se entrelaçam, se interligam. Nossa tarefa é trabalhar para que formem uma união equilibrada que se traduz em uma existência harmônica e feliz - o lado positivo da vida, com menos egoísmo.

Para conhecer o lado positivo da vida, vamos pesquisar o que é nossa vida. Dizemos que estamos vivos por causa da consciência que funciona através dos cinco sentidos e da mente. Se a consciência não aparece, estamos como mortos. Então, o surgimento da consciência é nossa vida. Estamos conscientes deste surgimento de consciência pelos pensamentos como “Estou consciente”, “É dor”, “É lembrança”, “Estou ouvindo”, etc. A cada momento de nossa vida, oito fatores estão funcionando para que estejamos conscientes. Senão vejamos: para ouvir, temos que fazer (1)esforço para (2)conscientizar que traz a (3)concentração na audição. Por causa desta concentração, temos uma percepção instantânea, uma (4)compreensão e (5)pensamentos com as (6)palavras e a (7)ação de ouvir, a qual faz o nosso (8)meio de vida neste momento. Estes oito fatores estão funcionando simultaneamente com muita velocidade, com alguns aspectos mais proeminentes. Colocá-los no lado positivo é o Caminho da Correta Compreensão - Budismo - o caminho universal da eespiritualidade que é a essência da vida humana. Colocando nossa vida no lado positivo por meio desta prática, desenvolvemos ambos os lados - espiritual e material - podemos viver felizes sem nos envolver no sofrimento - nos aspectos negativos da vida, como dor, tristeza, medo, ansiedade, raiva, ciúme inveja, lamentação, etc. Não se trata de alguma coisa em que devemos acreditar mas sim entender - compreender. Pratique este caminho da vida no lado positivo e verifique por si mesmo a verdade destes fatos.

Seja feliz!

Com autorização do propritário do site. http://www.geocities.com/callceb/ImpEspVD.html



Escrito por Belvedere às 14h12
[ ] [ envie esta mensagem ]


Eu traí José Saramago
 
Rubens da Cunha
 

Sou um leitor apaixonado. Saramago sempre figurou entre os meus escritores preferidos. O estilo denso, a prosa meteórica, plena de discursos indiretos, suas histórias fincadas no absurdo, e de lá, da irrealidade, daquele mundo onde uma cidade fica cega, onde a Península Ibérica se torna uma jangada, ele expõe nossa sociedade conturbada, injusta, desagregadora. Tudo com personagens delicadamente fortes e poéticos. Por isso, eu sempre amei Saramago. Há um mês, quando comecei a ler "Memorial do Convento", deu-se início a minha traição.
Este é o primeiro livro dele que não chegou em mim, que não me envolveu, não me arrebatou, não me convenceu. O primeiro livro de Saramago que eu não gostei. Protelei a leitura, esqueci o volume pelos cantos, abri outros. Fiquei com vontade de desistir de Saramago. Não podia fazer isso com quem amo. Tentei reler os capítulos, conhecer melhor Blimunda, Baltazar, o padre Bartolomeu e seu sonho de voar em plena inquisição. Pouco adiantou. Aconteceu o que jamais imaginei possível: tornou-se penoso ler Saramago.
Se a matéria-prima que ele normalmente usa está no livro: a linguagem, os personagens, a temática, um narrador cheio de opiniões, então o que aconteceu comigo, entre "A Jangada de Pedra", o último romance de Saramago que li, e este "Memorial do Convento"? Não sei.
O que sei é que todo traidor tenta encontrar explicações para amenizar sua culpa. Quando tomei consciência, lá pela décima página, de que "Memorial.." não seria prazeroso, eu já maquinava explicações para me salvar. Primeiro num auto-engano leve, dizendo-me: "Calma, segue mais adiante, logo você e ele retornarão àquele diálogo esfuziante dos outros livros. Logo o Saramago vai te levar em alturas nunca antevistas, nunca falhou nisso, por que falharia agora?" Depois, quanto mais me aprofundava no livro, e paradoxalmente, mais minha alma se afastava dele, outras desculpas vieram: seria uma expectativa exacerbada em mim, surgida do fascínio com que a poeta e amiga Dúnia de Freitas me falava dos poderes sobrenaturais de Blimunda; ou o fato de que eu ainda não estava psicologicamente recuperado da recente leitura do "O Fiel e a Pedra" de Osman Lins. Tudo desculpas falhas: Blimunda é uma das grandes mulheres da literatura mundial e eu não sou um leitor frágil, que se exaure quando termina um livro, por mais atordoante que este possa ser.
Já abandonei muitos outros romances pelo caminho e nunca tive a sensação de que estava traindo o autor, desprezando a obra. Por amar demais a literatura de Saramago, por saber que a beleza de "Memorial do Convento" está lá, inteira, apta para os meus sentidos, é que me redimo de meus pensamentos traidores não exercendo o direito de não gostar de um livro. Culpado e sem entender o real motivo de não conseguir me envolver com a história, seguirei lendo até a última página. Por teimosia. Por amor.

Rubens da Cunha, escritor.



Escrito por Belvedere às 13h43
[ ] [ envie esta mensagem ]


São longas as noites, mas os dias voam como folhas e se vão; perdem-se, em meio a uma neblina  tão densa  que me é quase imperceptível o horizonte. Mas, sei que ele existe e aguarda-me, entre tons e sobre-tons.
 
Caríssimo,
 
Já é quase um novo outono! As velhas árvores que contornam o caminho das Acácias já principiam perder algumas folhas. O vento, nos finais de tarde, sopra mais forte e gélido. Agasalho-me, agora com maior cuidado. Ontem, ao pentear-me, espanto: aparecem-me muitos fios brancos! Fico a imaginar-te a barba...Terão fios cinzentos, aqui e ali, despontando? E ao imaginar-te, assim, mais senhoril, impossível conter o sorriso e a curiosidade. Conta-me, por favor, estes detalhes que, aos teus olhos masculinos, tenho certeza, parecerão tolos?
Faz-me tanta falta tua voz... Faz-me tanta falta trocar idéias, comentar o livro que agora leio, a leitura que concluí ontem e a que pretendo fazer amanhã- se amanhecer! Faz-me tanta falta teu olhar, teu sorriso, teus gestos tão peculiares e próprios!Ah! Fazes-me tanta falta, essencialmente ! Pode a água ser, sem uma das duas partes de hidrogênio ou uma do oxigênio ? Pode o pássaro ser, sem as asas que lhe são o vôo? Pode o poema ser, sem versos e rima, sem ritmo e poesia? Pode o livro ser, sem a pena e o pensamento?Amor, não há como ser,  eu ... Compreendas!
Lembra-te de quão belas as tardes de outono naquele ano que nos conhecemos em Arles? Lembra-te do perfume de jasmim? Pois, amado, nosso jasmineiro cresceu! Floresceu! Guardo-te o perfume, em imaginários frascos de cristal, que coloco, um a um, sobre a cômoda do corredor dos quartos, sob o quadro de Monet, que trouxemos como lembrança da nossa primeira vez, lá. Lembra-te? Bobagem minha esta pergunta! Que tolices estou a dizer: como tu haverias de ter esquecido maravilhas? Perdoa-me! Isso, creio, não te será difícil, pois me sabes. E infinitamente tola. E infinitamente apaixonada por ti. 
 
A cerca do jardim a precisar de reparos urgentes e o canteiro de rosas - que tiveram poda antecipada - trazem-me melancolia imensa...O tempo, suas marcas, as transformações e o desgaste que causam nas coisas fazem-me temer por tudo que te possa ele causar, sem que possamos compartilhar os preciosos instantes de amadurecimento que o inevitável envelhecimento nos traz. Este meu único lamento! É-me tão lamentável isso tudo que ocorre conosco, pelos caprichos de homens tão insensíveis aos sonhos que lhes depositamos aos pés...
Pés! Impossível conter, novamente o sorriso natural e espontâneo: meus pés sobrevivem às tardes frias envoltos em grossas meias de lã rosa que tricotei, durante a primavera, orientada pela Senhora Paulette que, pacienciosa e persistentemente não desistiu de minha falta de jeito com as longas agulhas e fios de lã enrolados-me ao pescoço! Sentia-me uma verdadeira senhora, sentada à cadeira de palha, sob o frondoso jacarandá, tecendo um par de meias de lã! 
É... Na verdade, sou quase uma velha senhora, agora.  É isso que tento, temerosa, dizer-te, desde o princípio: o tempo é inexorável e não me foi possível conter-lhe a fúria, até tua volta. Envelhece comigo tudo ao redor. Nada será como antes, quando de teu regresso. Prepara-te, amor!
É quase outono. Logo chega o inverno. Apressa-te, se puderes. Apressa-te.
 
Sempre tua.
 
 
 
© Linda Maria
 
conto inspirado em imagem
 


Escrito por Belvedere às 20h58
[ ] [ envie esta mensagem ]



Religiões
"O Portal Brasil®, independentemente de suas convicções religiosas, abre aqui um canal de informação sobre algumas religiões apenas para servir como fonte de pesquisas e estudos. Quem quiser colaborar com matérias, utilize o nosso e-mail."

- Catolicismo -
* A religião oficial do Brasil *
            Para a Igreja Católica, todos aqueles que receberam o sacramento do batismo são católicos. A maioria, porém (cerca de 80%) é formada por não-praticantes. A pouca adesão às missas de domingo é um reflexo desse comportamento. Segundo A World Christian Encyclopedia, nas cidades pequenas do interior, 65% da população vai à missa de domingo, enquanto nas grandes cidades a adesão varia de 10% a 20%. De acordo com os últimos dados disponíveis, 18% participam de grupos formados por leigos (não-religiosos), como o Movimento da Renovação Carismática e as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).
Estrutura - Em 2000, de acordo com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Igreja Católica no Brasil contava com seis cardeais, 54 arcebispos (38 na ativa e 16 eméritos), 351 bispos (268 na ativa e 83 eméritos) e mais 413 membros, entre abades, coadjutores e bispos auxiliares. Havia ainda 15 mil padres e 38 mil freiras. A Igreja se organiza no país, em 268 dioceses e mais de 8 mil paróquias. A Igreja Católica experimenta rápida ascensão no número de administrações eclesiásticas durante a primeira metade do século XX. As dioceses, que em 1900 eram 19, passam a 114 em 1940. No entanto, a influência do catolicismo é forte desde o descobrimento. Ordens e congregações religiosas assumem, já no período colonial, os serviços nas paróquias e nas dioceses, a educação nos colégios e a catequização indígena.
Comunidades Eclesiais de Base - As CEBs são grupos formados por leigos que se multiplicam pelo país após a década de 60, sob a influência da Teologia da Libertação. Curiosamente, foram idealizadas pelo cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, dom Eugênio Sales, integrante da corrente católica mais conservadora. Com o decorrer do tempo, as CEBs vinculam o compromisso cristão à luta por justiça social e participam ativamente da vida política do país, associadas a movimentos de reivindicação social e a partidos políticos de esquerda. Um dos principais teóricos do movimento é o ex-frade brasileiro Leonardo Boff. Apesar do declínio que experimentam nos anos 90, continuam em atividade milhares de núcleos em todo o país. Em 2000, de acordo com pesquisa do Instituto de Estudos da Religião (Iser), do Rio de Janeiro, existem cerca de 70 mil núcleos de Comunidades Eclesiásticas de Base no Brasil.
Renovação Carismática Católica - De origem norte-americana, o movimento carismático chega ao Brasil em 1968, pelas mãos do padre jesuíta Haroldo Hahn, e retoma valores e conceitos esquecidos pelo racionalismo social da Teologia da Libertação. Os fiéis resgatam práticas como a reza do terço, a devoção à Maria e as canções carregadas de emoção e louvor. A RCC valoriza a ação do Espírito Santo - uma das formas de Deus, na doutrina cristã, expressa no Mistério da Santíssima Trindade -, o que aproxima o movimento de certo modo, dos protestantes pentecostais e dos cristãos independentes neopentecostais. Ganha força principalmente no interior e entre a classe média. Em 2000, soma 8 milhões de simpatizantes, representados em 95% das dioceses, na forma de grupos de oração. Desse total, 2 milhões são jovens entre 15 e 29 anos, atraídos pela proposta renovadora e alegre, embalada pelas canções de padres cantores, como Marcelo Rossi, religioso paulistano que se torna fenômeno de mídia em 1998 com o lançamento do CD Músicas para Louvar o Senhor.
A Igreja Católica no Brasil - Até meados do século XVIII, o Estado controla a atividade eclesiástica na colônia, responsabiliza-se pelo sustento da Igreja Católica e impede a entrada de outros cultos no Brasil, em troca de reconhecimento e obediência. Em 1750, o agravamento dos conflitos entre colonos e padres por causa das tentativas de escravização dos índios leva à expulsão dos jesuítas pelo marquês de Pombal. No entanto, só em 1890, após a proclamação da República, ocorre a separação entre a Igreja e o Estado e fica garantida a liberdade religiosa. A partir da década de 30, o projeto desenvolvimentista e nacionalista de Getúlio Vargas incentiva a Igreja a valorizar a identidade cultural brasileira, o que resulta na expansão de sua base social para as classes médias e as camadas populares. A instituição apóia a ditadura do Estado Novo, em 1937, a fim de barrar a ascensão da esquerda. Em 1952 cria-se a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a primeira agremiação episcopal desse tipo no mundo, idealizada por dom Hélder Câmara, para coordenar a ação da Igreja. No fim dos anos 50, a preocupação com as questões sociais fortalece movimentos como a Juventude Universitária Católica (JUC). Desse movimento sai, em 1960, a organização socialista Ação Popular (AP).
            Durante a década de 60, a Igreja Católica, influenciada pela Teologia da Libertação, movimento formado por religiosos e leigos que interpreta o Evangelho sob o prisma das questões sociais, atua em setores populares, principalmente por meio das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). A instalação do regime militar de 64 inaugura a fase de conflitos entre Igreja e Estado. O auge da crise acontece em 1968, com a implantação do Ato Institucional n° 5 (AI-5), quando grande número de católicos se alia aos grupos oposicionistas, de esquerda, para lutar contra a repressão e os abusos que violam a ordem jurídica e os direitos humanos. A ação é intensa nos anos 70.
            A partir dos anos 80, com o papa João Paulo II, começa na Igreja o processo da romanização. O Vaticano controla a atividade e o currículo de seminários, e diminui o poder de algumas dioceses, como a de São Paulo - comandada na época pelo cardeal-arcebispo dom Paulo Evaristo Arns, afinado com os propósitos da Teologia da Libertação, que a Santa Sé pretende refrear. Após o engajamento da Igreja na luta pela redemocratização, nos anos 70 e 80, os movimentos mais ligados à Teologia da Libertação cedem espaço, a partir da década de 80, à proposta conservadora da Renovação Carismática.

http://www.portalbrasil.net/      Com autorização escrita dos proprietários do site.

Escrito por Belvedere às 12h37
[ ] [ envie esta mensagem ]




Maria, Mariazinha, minha sempre "Bibia"

Irene Serra

A morte espreita. Ouço seu ronco e sei que nada posso fazer a não ser dar um
abraço, um carinho, passar as mãos pelos crespos cabelos da pessoa que
respira com dificuldade ao meu lado. Vejo seu raro sorriso ao lhe pedir,
hoje, um beijo, como se ainda eu criança fosse, sentindo seu colo amigo e
protetor. E ela também, criança mostrando-se cada vez mais em seu corpo
miúdo e magro quase centenário, olhar longínquo, medo permanente em meio aos
devaneios e ausências.

Gênio difícil - o de todos nós. Palavras duras e amargas, impaciência até
mesmo nos momentos em que sentimos sua incapacidade de compreensão e os
reflexos já murchos e lentos. Maldita língua que não se cala, apesar de todo
o amor existente!

Com o tempo foi se tornando mais amarga, muda, egoísta... Mas quem assim não
agiria ao se sentir carente de afeto, de uma palavra amiga, tão só? Não me
lembro de alguém que tivesse tido muito tempo para ouvir suas bobagens ou
jogar conversa fora, nesta vida tão agitada que nós mesmos construímos. Da
pia para o tanque, das compras para o quarto, ei-la um cão de guarda fiel
que quase não recebia afago. E nós, a família que ela adotou desde sempre,
inúmeras vezes indiferentes ao seu silêncio sofrido!

Amando, alcei novos vôos e não a carreguei em minhas asas. Não mais recortes
de Cashmere Bouquet das velhas revistas, sentada no chão da cozinha,
olhando-a trabalhar responsável e confiante, a fingir que não me via. Não
mais lugar para histórias de fadas, confissões pueris, brincadeiras de
panelinhas, o dengo a qualquer hora. Não mais tudo. Não mais nada. E ela, em
seu canto, quedou-se na espera. Apesar de visitá-la quase diariamente, eu
sabia que não era isso que queria; ela  precisava de minha companhia
incondicional.

Seguro sua mão, que já não tem força. Converso baixinho, sabendo que pouco
me ouve, mas na esperança de que minha voz a acalme e durma serena. O gato
aconchegado em suas pernas dorme de há muito, como a lhe dar o ritmo da
respiração. Até quando terá forças para lutar? E fico a contemplá-la, em
angustiada prece, a lhe pedir perdão pela felicidade que não lhe dei, só
recebi!





Irene Vieira Machado Serra
professora, foniatra, psicóloga, editora da Revista Rio Total
RJ
irene@riototal.com.br



Escrito por Belvedere às 12h46
[ ] [ envie esta mensagem ]


Camponesa

Lílian Maial



Não te entristeças, meu eterno vate,
nem vagues pelo mundo à revelia,
pois meu amor não veio em arremate,
nem teu amar é casta rebeldia!

No reino aonde és rei, seria a dona,
mas já que és um peão, tenho certeza,
prefiro o teu amor, que a tudo abona,
correr nos campos, simples camponesa.

Se sou tua musa, tua poesia,
Tu és também meu sonho e realidade.
Misturo nossos passos, qual folia,

E danço em teu saber de liberdade.
Ai! Como é tão pequena a imensidão,
Se estou contigo no teu coração!
 

15 set 2004


************************

 
MIRAGEM

Lílian Maial


Cansei de percorrer todos os cantos
do mundo, em busca insana e sem resposta.
Colhi só o bagaço e tanto pranto,
que o mar se fez em mim, marisco e rocha.

O amor não me contempla nessa vida,
por ser forjada em sonho e na palavra.
Persigo a primavera colorida,
e encontro inverno gris, na longa estrada.

Se vago no deserto, peregrina,
de uns olhos que, há muito, não enxergo,
o oásis não integra a minha sina,

só areia e vendaval é o que carrego.
Sem ti, vou prosseguindo essa viagem,
pois sei que o teu amor é só miragem.





Escrito por Belvedere às 12h40
[ ] [ envie esta mensagem ]


O JURAMENTO DE HIPÓCRATES

Braz Chediak,

Cada dia procurava um médico e todos a atendiam com a mesma cortesia. No
consultório do cardiologista, por exemplo, apresentava sintomas cardíacos:

- Não agüento mais essa queimação no peito, essa pontada...

E o médico, com paciência de Jó, a examinava e sabendo de sua neurose, de
sua necessidade de doença, dizia:

- O caso é sério!

E ela, com um sorriso nos lábios, com uma alegria súbita, indagava:

- É grave, doutor?

- Gravíssimo!, respondia o doutor, indo até à pia onde enchia um copo d'
água, com um pouco de açúcar, e entregava à mulher:

- Beba isto. E cuidado. O caso não é para brincadeira!

Ela saía embevecida, elogiando:

- Nunca vi um doutor como este. Nunca vi.

Dia seguinte procurava outro. Chegava ao consultório do gastroenterologista,
gemendo:

- Estou com dor aqui, aqui e aqui...

O médico a mandava deitar-se, apalpava-a e dizia:

- O problema é seriíssimo! Seriíssimo!

E novamente ela abria o sorriso, tomava o remédio que o médico lhe dava e
saía feliz.

- Isso é que é médico! Isso é que é médico!

E todos a conheciam e atendiam, de graça com a mesma paciência.

Os médicos dos Postos de Saúde a recebiam diariamente. E até o pediatra,
quando a encontrava, mesmo na rua, tirava do bolso uma colher e uma
lanterninha e ia dizendo:

- Põe a língua pra fora. Fala AAAAAAAHHHHHHH!!!!!!!

Entrava nas farmácias e drogarias como um santo entra num templo ou um
jogador no Maracanã. Aquelas prateleiras, aqueles remédios todos eram o
paraíso. Mal via os balconistas, perguntava ansiosa:

- Alguma novidade?

E eles, tomando-lhe o pulso:

- Chega amanhã um produto novo. Mas, meu Deus, como a senhora está
pálida....

E ela saía dali felicíssima:

- Bom menino este farmacêutico. Tão atencioso...

. . .

Um dia, surgiu na cidade um médico novo. Jovem bem falante, trazendo em sua
bagagem a sabedoria dos recém-formados, começou logo a montar seu
consultório na Rua Direita.

Em contado com os colegas já estabelecidos, tomou conhecimento dos assuntos
(e das moléstias) de Três Corações e foi informado por todos da existência e
da mania de Dona Milica. Escutou tudo e, entre dentes, murmurou:

- Essa não!

Pronto o consultório, colocou anúncio nos jornais e na rádio: estaria
atendendo os clientes "amanhã, a partir das 9 horas...".

Dona Milica, não contendo a ansiedade, veio a pé do Fim Cotia e foi a
primeira a chegar. E com o coração saltitante foi atendida pelo jovem
médico.

A bem da verdade, ele a examinou com o cuidado do iniciante. Dos pés à
cabeça. Só pulou "as partes" porque ela, ali, não deixava homem nenhum pôr
as mãos.

Quarenta minutos cravados de exame. Depois mandou que ela se assentasse e
fez algumas anotações. Dona Milica não agüentava mais esperar o veredicto,
esperançosa de alguma doença moderna, um nome estranho, etc. Seria acertar
na loteria.

Mas o jovem médico levantou a cabeça e disparou:

- A senhora não tem nada. Tem saúde pra dar e vender!

Foi como uma punhalada. Ela ainda arriscou um "mas...", mas o jovem médico a
interrompeu:

- Uma saúde de ferro!

E ela, então, sentiu o sangue subir. Sentiu que o corpo esquentava. Sentiu a
tristeza, o abandono, a decepção. Num esforço, tentou levantar-se mas viu
que tudo fugia. E seus olhos pararam.

Enquanto o jovem médico, lavando as mãos, resmungava entre dentes:

- Comigo não. Eu fiz o juramento de Hipócrates!

Sem perceber que Dona Milica estava morta.





Braz Chediak,
cineasta e escritor
Três Corações, MG
brazchediak@bol.com.br


Escrito por Belvedere às 22h08
[ ] [ envie esta mensagem ]


Evite o câncer de pele.

Prevenir-se é muito fácil

O que é o Câncer da Pele?

O câncer da pele é um tumor formado por células da pele que sofreram uma transformação e multiplicam-se de maneira desordenada e anormal dando origem a um novo tecido (neoplasia). Entre as causas que predispõem ao início desta transformação celular aparece como principal agente a exposição prolongada e repetida à radiação ultra-violeta do sol. 

O câncer da pele atinge principalmente as pessoas de pele branca, que se queimam com facilidade e nunca se bronzeiam ou se bronzeiam com dificuldade. Cerca de 90% das lesões localizam-se nas áreas da pele que ficam expostas ao sol, o que mostra a importância da exposição solar para o surgimento do tumor. A proteção solar é, portanto, a principal forma de prevenção da doença. 

Como fazer para evitar o câncer da pele?

A exposição prolongada e repetida da pele ao sol causa o envelhecimento cutâneo além de predispor a pele ao surgimento do câncer. Tomando-se certos cuidados, os efeitos danosos do sol podem ser atenuados. Aprenda a seguir como proteger sua pele da radiação solar.

  • use sempre um filtro solar com fator de proteção solar (FPS) igual ou superior a 15, aplicando-o generosamente pelo menos 20 minutos antes de se expor ao sol e sempre reaplicando-o após mergulhar ou transpiração excessiva. (saiba mais sobre filtros solares e FPS)
  • use chapéus e barracas grossas, que bloqueiem ao máximo a passagem do sol. Mesmo assim use o filtro solar pois parte da radiação ultra-violeta reflete-se na areia atingindo a sua pele.
  • evite o sol no período entre 10 e 15 horas.
  • a grande maioria dos cânceres de pele localizam-se na face, proteja-a sempre. Não esqueça de proteger os lábios e orelhas, locais comumente afetados pela doença.
  • procure um dermatologista se existem manchas na sua pele que estão se modificando, formam "cascas" na superfície, sangram com facilidade, feridas que não cicatrizam ou lesões de crescimento progressivo.
  • faça uma visita anual ao dermatologista para avaliação de sua pele e tratamento de eventuais lesões pré-malignas.

Estas recomendações são especialmente importantes para as pessoas de pele fototipos I e II, as quais devem evitar qualquer tipo de exposição ao sol sem proteção.

Quando começar a proteção solar?

Comece o quanto antes. Cerca de 75% da radiação solar recebida durante a vida ocorre nos primeiros 20 anos. Os efeitos da radiação ultra-violeta só se manifestam com o passar do tempo. As lesões começam a aparecer na maioria das vezes ao redor dos 40 anos . Portanto, proteja as crianças e estimule os adolescentes a se protegerem. 

Não tenha medo do diagnóstico.

Procure seu dermatologista se você tem alguma lesão suspeita na sua pele. Não deixe de ir por medo de saber o nome da sua doença. O câncer da pele pode e deve ser tratado e o diagnóstico precoce é muito importante para se obter a cura. Além disso, o tratamento das lesões pré-malignas, que podem dar origem ao câncer da pele, ajuda a preveni-lo. 

Como são as lesões de câncer de pele?

Conheça os tipos mais frequentes de câncer da pele: 

Carcinoma Basocelular: é o mais frequente e com o menor potencial de malignidade. Seu crescimento é lento e muito raramente se dissemina à distância. Pode se manifestar de várias maneiras, a da foto abaixo é apenas uma delas. Feridas que nao cicatrizam ou lesões que sangram com facilidade devido a pequenos traumatismos, como o roçar da toalha, podem ser um carcinoma basocelular. (clique aqui para mais informações) 

http://www.dermatologia.net/ Com permissão escrita dos proprietários do site  dermatologico mais visitado da net.



Escrito por Belvedere às 12h43
[ ] [ envie esta mensagem ]


UMA PERDA

 

Artur da Távola


       
   A Carlos Drummond de Andrade

 

No meio do caminho tinha uma perda.
Tinha uma perda no meio do caminho.
Tinha uma perda.
No meio do caminho tinha uma perda.
 
Primeiro a irmã depois o pai.
Não sabia que no meio do caminho
tinha a perda do paraíso
que me fez bravo.
Fui só, fui eu,
fui vida a partir da perda
que me estava destinada
no meio do carinho
de minha mãe solitária.
 
Fui perda de mim mesmo
procurado por toda a vida
até que achado no poema
do meu hoje encanecido.
 
Tudo porque
no meio do caminho tinha uma perda.
Tinha uma perda no meio do carinho.
 
 
 

             


Escrito por Belvedere às 12h25
[ ] [ envie esta mensagem ]


 

Estarei Gerundiando

Müller Barone - Curitiba/PR

Eu e o Felipe fizemos o possível para instalar aquele presente chique que eu ganhei de natal, um Cinema em Casa. Acertamos quase por inteira a instalação. Achei que tinha uns probleminhas e resolvi contratar um técnico.

Na loja onde comprei, vou atrás de um vendedor, explico tudo e ele, muito solícito, manda ver: "Pois não, senhor. Eu estarei passando o senhor para a responsável e ela estará lhe atendendo e estará agendando a visita do técnico." Fiquei mais zonzo que o Tio Patinhas sob efeito das bombas atordoantes da Maga Patalógica. Quase disse a ele: "Pára com isso que assim eu estarei vomitando e não estarei retornando aqui."

Essa coisa monstruosa, esse assassinato da língua ganhou até, segundo me disse o Bebezão, comunidade na internet "Eu odeio Gerúndio." Já acho esquisito o nome do tempo verbal - Gerúndio -, parece berinjela ou nome de senador nordestino (com todo o respeito aos nordestinos, por favor) - Senador Gerúndio da Silva, da UDN (pronto, assim ninguém vivo se ofende). Agora inventam a moda.

Provavelmente, toda a história é fruto de algum executivo tecnocrata que se achou gênio e erudito traduzindo, muito mal e parcamente, o famoso "to be going to", do inglês, que para eles tem sentido, porque gramaticalmente diferencia a ação iminente da distante, diferenciação que nosso idioma dispensa. Mas vá-se lá saber o que se passa na mente globalizada e boboca dos intelectuais de marketing de plantão, hoje em dia.

Por falta do que fazer e para relaxar a mente, imaginei algumas situações populares e históricas adaptadas ao modismo boboca:

D. Pedro I, no Dia do Fico: "Se estará sendo para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que estarei ficando.

Eu ouvindo algo de alguém , digo ao meu algoz que - desculpem os estômagos sensíveis - estarei cagando e estarei andando.

Claro que há situações em que o tempo composto funciona, mas não assim, não como a massagista que pega na gente e começa: "agora eu estarei fazendo massagem nas costas; estarei pegando na perna."

O mesmo modismo de intelectuais sem intelecto algum, como aqueles do "a nível de", do "você enquanto idiota", a imbecilidade tratada como modernismo e avanço que apagou o verbo apagar da nossa língua e o substituiu pelo horroroso deletar. Imaginem uma poesia: "Deletei sua imagem da minha memória." Mais um pouco haveria o complemento: "Deletei sua imagem da minha memória ram."

Não ouço mais ninguém dizendo que tem memória curta, só que tem winchester pequeno.

Tá legal, prometo a todos que estarei parando com essa pegação no pé e na língua, mas é por conta de baixarmos a guarda sem qualquer protesto que todo mundo, hoje, no Brasil, acha-se com todo o direito de disponibilizar ou de nos dizer que estará disponibilizando..

Acho que estarei terminando esta crônica com parte do artigo o Ezio Bazzo, Anglo & Americanófilos, publicado no Palanque 151:

"José Marti, Rubens Dario e Vargas Vila, para quem não lembra, foram ferrenhos defensores da não submissão ao idioma dos colonizadores. E nessas nações dominadas, - diziam - se o esquecimento não matar todos os livros, os que escaparem sofrerão o último ultraje: a tradução."



Escrito por Belvedere às 12h20
[ ] [ envie esta mensagem ]


CENTELHAS DE VIDA
 
Urda Alice Klueger
 
Era uma vez, lá no Paraíso Terrestre, quando Deus criou Adão e Eva e todos os animais, criou Ele, também, um casal de cachorrinhos. Viviam todos, lá, muito felizes, e se não fosse a preocupação de Eva e Adão de provarem dos frutos da Árvore do Bem e do Mal, a festa lá ainda não teria acabado, e ninguém passaria nenhum tipo de privação neste mundo.
Bem, o fato é que lá, junto com Adão e Eva, havia um casal de cachorrinhos, e que enquanto Eva era tentada pela Serpente, os cachorrinhos, muito naturalmente, tiveram seus primeiros filhotes, que tiveram outros filhotes, que tiveram outros filhotes, até que um dia, milhares de anos depois, nasceram os dois cachorrinhos que vivem na rua do lado da minha casa.
Eu comecei a vê-los no começo deste inverno que está tão frio: dois cachorrinhos amarelos, dos mais legítimos vira-latas, a saírem para a entrada da rua, bem na minha esquina, para ficarem ao sol que chega antes na esquina do que na casa deles. Pequenas centelhas de vida explodindo de inteligência e alegria, eles sabem  exatamente a hora em que o sol chega a um pedaço quadrado de asfalto na saída da rua, e lá vêm, lépidos e alegres, a balançarem seus rabinhos na efusão gratuita de viver, para aproveitarem o calor fraco do sol e se aquecerem.
Como se divertem os dois bichinhos! Eles ainda são cachorrinhos muito novos, mal e mal deixaram de ser bebês, e a idade adulta deve vir só lá pelo verão. Estão naquela fase em que os cachorrinhos gostam de roer os chinelos das pessoas, e onde a alegria é infinita dentro dos corpinhos peludos e inquietos de tanta vida. Naquele quadrado de sol da esquina da minha rua, eles se aquecem com os focinhos erguidos, e brincam, alternadamente, brincam um com o outro tendo a certeza de que a coisa mais importante deste mundo é brincar. Eles conhecem todas as crianças da redondeza, e todas as crianças os conhecem – quando elas passam, cedinho, em direção da escola, eles interrompem suas brincadeiras para fazerem festa às crianças, e acompanham-nas um bom estirão pelas calçadas, até lembrarem-se que têm seu quadrado de sol no mundo, e voltarem à minha esquina.
Conhecem gente grande também: recentemente, quis saber mais sobre eles. Minha amiga Margarida contou-me que se chamam Toco e Bilú, e Margarida é uma mulher séria, tesoureira de um banco, o tipo de pessoa que a gente não pensa que sabe o nome de dois cachorrinhos de nada, duas centelhazinhas de vida que surgiram no começo do inverno num quadrado de sol. Depois que Margarida contou-me até o nome deles é que vi o quanto estão populares em toda a vizinhança.
Sabedora, agora, dos seus nomes, ontem de manhã fui lá falar com eles. O dia estava nublado, e o pedaço de sol não tinha aparecido na esquina. Os cachorrinhos, porém, sabiam perfeitamente onde ele iria surgir, se surgisse, estavam lá sentados,com cara de aborrecidos pela falta daquele amigo Sol que os tem aquecido desde que se lembram, na sua curta vida. Eles ainda não me conheciam – sempre os observo de longe, de dentro da garagem – e se mostraram indiferentes até que chamei:
– Toco!
Na hora descobri quem era Toco, pois ele veio pular em mim arrebentando de alegria, e foi só chamar “Bilú”, para que Bilú também entrasse num paroxismo de prazer e de pulos, ambos inteiramente cônscios da sua identidade neste mundo. Nasceram faz pouco tempo: da vida só conhecem o quadrado de sol e as crianças que passam, mas sabem muito bem como cada um se chama, e como ficam gratuitamente felizes quando um adulto se digna dar-lhe o pequeno nome que é quase tudo o que possuem!
Eles pularam e me lamberam até que eu tive de ir-me. Pelo retrovisor do carro, fiquei vendo como, depois da alegria de terem sido reconhecidos por um adulto, esqueceram-se de que o quadrado de sol não tinha vindo, naquele dia, e passaram a brincar com a mesma alegria de quando se sentiam aquecidos!
Se Adão e Eva não tivessem acabado comendo do fruto da Árvore do Bem e do Mal, cachorrinhos como Toco e Bilú nunca sentiriam frio, e nunca precisariam ficar brincando num quadrado de sol na esquina de uma rua, e não haveria na minha vida a luz das suas pequenas centelhas de vida. Até que Adão e Eva não erraram de todo!
 
Blumenau, 04 de agosto de 1996.
Urda Alice Klueger


Escrito por Belvedere às 12h16
[ ] [ envie esta mensagem ]


As Células - tronco e a Diretriz Organizadora Biológica

Dr. Iso Jorge Teixeira

Recentemente, encaminhamos um artigo para publicação em nossa Coluna SAÚDE, do Jornal de Espiritismo, órgão da Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal, a ser publicado com o título Colonagem – Os embriões congelados têm Espírito? Pois bem, utilizamos parte deste artigo, ainda inédito, especialmente para apreciação dos internautas do blog  Sarau da Belvedere.

A ovelha Dolly, primeiro mamífero clonado de célula somática.
Naturalmente, a maioria dos organismos desenvolve-se da união de um do sexo masculino com outro do sexo feminino (reprodução sexuada), ou seja, um espermatozóide que contém n cromossomos fecundando um óvulo, também com n cromossomos, dando origem a um indivíduo com 2n cromossomos.
A ovelha DOLLY foi o primeiro mamífero clonado por transferência nuclear de células somáticas, isto é, com 2n cromossomos do indivíduo original, ou seja, de uma célula da glândula mamária de uma ovelha de 5-6 anos denominada BELLINDA, da raça Finn Dorset.
               O prof. JAN WILMUT, do Instituto Roslin, de Edimburgo na Escócia, foi o pesquisador responsável pelo experimento que produziu a ovelha DOLLY. Tal trabalho foi realizado ao longo de 1995 e 1996. A ovelha DOLLY nasceu em 05 de julho de 1996; porém, somente em 23 de fevereiro de 1997, o prof. JAN WILMUT anunciou o sucesso com a ovelha DOLLY como um possível salto qualitativo em clonagem. Em resumo, enquanto as clonagens anteriores eram feitas com células embrionárias, a de DOLLY teria sido  conseguida através de uma célula diferenciada, somática, com 2n cromossomos.

Clonagem terapêutica – Embriões congelados para fabricação de tecidos orgânicos  –  As células – tronco
A clonagem da ovelha DOLLY produziu grandes debates internacionais, principalmente, sobre a possibilidade de clonagem humana artificial e a chamada “eutanásia” dos embriões, além da criação de “monstros”...
 É preciso que se ressalte que ao se falar em “clonagem humana”, hoje, referimo-nos à modalidade reprodutiva , que produz bebês como cópias físicas de seres já existentes, de gêmeos (clonagem natural) e a clonagem terapêutica, que elabora embriões humanos, que são congelados, com a finalidade de fabricar tecidos orgânicos diversos, tratar infertilidade, etc...
 As células - tronco, também chamadas por alguns de “sementes da vida” estariam presentes nos primeiros 14 dias do desenvolvimento embrionário. Por serem células indiferenciadas, estão sendo utilizados em alguns países para tratamento da Doença de Parkinson, Diabetes, músculo cardíaco enfartado, etc., com resultados promissores. Assim, tais células se diferenciam em quase todos os tipos de órgãos em que são colocadas. Porém, ao serem retiradas as células-troco de embriões, estes ficam danificados, transformam-se em um “amontoado de tecidos”, como teria dito o prof. JAN WILMUT... Embora, tais células também possam ser extraídas da medula óssea...
 


Em que momento o Espírito une-se ao corpo? 
A união do Espírito ao corpo “COMEÇA na concepção”, mas só “SE COMPLETA no momento do nascimento”, como foi revelado pelos Espíritos Superiores na resposta à questão 344 de O Livro dos Espíritos (OLE), “ab initio”... Além disso, essa união NÃO É DEFINITIVA (cf. se depreende da resposta à questão 345 de OLE), pois tais laços “fluídicos” são muito “FRÁGEIS” (cf. explicitado na mesma resposta da questão 345 de OLE).
 Portanto, Srs. e Sras. internautas, não conseguimos conceber que um embrião permaneça congelado, nos seus primeiros 14 dias, e um Espírito ali permaneça ligado a ele nestas condições!! E há até uma classe de espíritas, contrários a tais experiências, que dizem que “o espírito sofreria muito, pois ficaria congelado”!!! Ora, Espírito não é líquido para ser congelado e, muito menos matéria!...
 Não obstante, o Sr. leitor ou leitora poderia argumentar:   E se aquele embrião for implantado no útero de uma mulher e vingar, ele teria um Espírito? Responderíamos:
 Obviamente, sim, se nascer vivo, sem dúvida!... O que desejamos argumentar é que a Providência Divina a tudo provê; o Espírito será atraído para o feto por poderosas forças, cuja natureza ainda desconhecemos... Alguns falam em força “magnética”... É possível, mas o fato é que tal força é DESCONHECIDA cientificamente. A propósito, lemos no item 18, Capítulo 11, do livro A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo, de ALLAN KARDEC:
 “Quando o Espírito tem de encarnar num corpo humano em vias de formação, um laço fluídico, que mais não é do que a expansão do seu perispírito, o liga ao gérmen que o atrai por uma força irresistível [o grifo é nosso], desde o momento da concepção. À medida que o gérmen se desenvolve, o laço de encurta. Sob a influência do princípio vito-material do gérmen, o perispírito, que possui certas propriedades da matéria, se une, molécula a molécula, ao corpo em formação(...)”
 Outros afirmariam perguntando:  Mas, a estrutura do feto não é determinada pelo perispírito, através do Modelo Organizador Biológico (MOB), e, portanto, antecede a formação do embrião?!... Diremos nós: não aceito as teses contidas na teoria humana do MOB, por ser fatalista e por conceber o perispírito como se fosse matéria. Sim, o perispírito é semimaterial, mas a matéria aqui é quintessenciada... O que me parece é que haja uma Diretriz Organizadora Biológica (DOB), através de uma força ainda desconhecida por nós, seres humanos ainda imperfeitos, até porque desconhecemos COMO nasce o Espírito! A propósito, na resposta à questão 78 de OLE, a Espiritualidade Superior enfatiza para KARDEC, e para nós:
 “(...) mas quando e como cada um de nós foi feito, eu te repito, ninguém o sabe, isso é um mistério.
 É possível que no futuro saibamos como e quando cada um de nós foi feito, até lá é recomendável que tenhamos a mesma prudência de KARDEC, e parafraseando-o diremos:
A fantasia científica de hoje pode ser uma realidade amanhã, antes que chegue o amanhã, fiquemos com a realidade de hoje!

 

 

 

 



Escrito por Belvedere às 19h56
[ ] [ envie esta mensagem ]


Estou muito feliz com a qualidade do meu blog!  O que tem de gente boa aqui ultrapassa qualquer expectativa.

Agradeço a todos que  me deram a honra!

 

Mil beijussssssssss

Belvedere

 



Escrito por Belvedere às 09h17
[ ] [ envie esta mensagem ]


 
Raymundo Silveira
 
Estendido numa rede de tucum, junto a um canto de parede salitrada, deixando cair o reboco, pensava num passado tão presente. Comprara aquela casa para os pais. Quando estes morreram mudou-se pra lá. Sentia um misto de remorso e de saudade. Enquanto esteve casado pouco os visitava. Preocupava-se apenas em manter os hábitos pequeno-burgueses, indiferente à sua sorte. Hoje morava sozinho. Ninguém o visitava. Não visitava ninguém. O único contacto com o mundo exterior era a televisão. Ultimamente, pouco a assistia. Preferia passar as noites bebendo goles de aguardente que o mantinham, por algum tempo, sob uma falsa e efêmera auto-estima. Que na manhã seguinte pagaria com os juros de uma agônica ressaca.

Supérflua qualquer Esplendidez. Inúteis Bem-aventuranças. Desnecessária Esperança, essa prima-irmã da Espera. Nada esperava nem desesperava. O próprio agora-já pouco o interessava. Um gato miou nessa fantasia chamando-o de volta à realidade. Alguém veio entregar as marmitas do almoço. Nenhum apetite. Não comeu nem bebeu. Só sentia fome de silêncio e sede de serenidade.

Um relógio de pêndulo tiquetaqueava. Aquele som era, ao mesmo tempo, bem-vindo e funesto. Marcava os minutos que ainda faltavam para o anoitecer da solidão. Logo, para a hora da ilusão alcoólica. Mas também soava como a voz de um duende contando, regressivamente, os segundos de vida que ainda lhe restavam: “um segundo a menos, um segundo a menos, um segundo a menos”.

Essas horas que antecediam as libações eram as piores do dia. O tempo preguiçava. A necessidade de se comunicar era obsessiva. E o tédio, intolerável. Ligou a tv. Àquela hora, só futilidade. E ainda que exibissem “A Noviça Rebelde”, ou mesmo um clássico de Hitchcock ou de Billy Wilder, o roteiro e as imagens teriam o mesmo efeito visual de uma página de calendário nos últimos dias do mês.

Então por que não começava logo a beber? Simplesmente porque dormiria cedo da noite e despertaria na alta madrugada. E sabia que a insônia que se segue a uma bebedeira é muito cruel. A princípio não tinha a mínima noção de tempo. Não sabia se era manhã, tarde, noite ou madrugada. Por causa disto, nada importava: compromissos, trabalho, pagamento ou recebimento de dívidas, estado de saúde, ou até mesmo a morte de algum parente próximo. Sentia esgotadas as reservas de energia física e mental. Mas quando acontecia de acordar na alta madrugada, a ansiedade e a depressão se multiplicavam por mil. Parecia que tudo deixara de existir e só restara aquela alma sozinha e cheia de desespero. Então, somente o pavor da insônia o continha.

Levantou-se e foi ao banheiro. Depois deu várias voltas em torno das áreas laterais da casa. Havia árvores e outras plantas dispersas. Folhas de bananeiras, agitadas pelo vento, incrementavam-lhe os conflitos ao se agitarem perpendicularmente. Pareciam cabeças afirmativas: “que sim, que sim, que sim”. Outras meneavam em sentido diagonal: “que não, que não, que não”. Colheu tomates maduros. Jogou-os fora. Nada o entretinha. Tudo entediava. Voltou para a rede. Agora olhava o teto contando as telhas em cada fileira. Olhou o relógio pela milésima vez. Três e meia da tarde. Teve a sensação de que o tempo retrocedia. Apanhou uma folha de jornal e ensaiou resolver um problema de palavras cruzadas. “Abóbada celeste” (três letras). Achou-se tão ridículo que rasgou o papel em pequenos fragmentos.

Voltou ao banheiro. Fitou-se num espelho. E se odiou. Por existir, por ter fracassado, por ter nascido. E por não ter coragem de se matar. Sentou numa cadeira de balanço. O ruído das molas de aço eram como risinhos sardônicos de antigos competidores que tinham “vencido na vida”. Olhou mais uma vez o relógio: seis da tarde. Ainda faltavam duas horas. Isto é, dois séculos. De trinta em trinta minutos voltava a consultar o mostrador. E, a altíssimo custo, resistia. Deitou-se mais uma vez e fechou os olhos prometendo-se que só os abriria duas horas mais tarde. Suportou apenas cinco minutos.

Enfim, as abençoadas oito badaladas. Lavou um copo como se banhasse um bebê. Abriu a garrafa de aguardente, cheirou-a e despejou uma porção dupla. Engoliu de um só trago. E entrou no Paraíso.


23/02/2005
www.raymundosilveira.net



Escrito por Belvedere às 09h14
[ ] [ envie esta mensagem ]


Bruno Kampel



RAFIC HARIRI:
DOS ASSASSINATOS POLÍTICOS E OUTROS BICHOS


Bruno Kampel

 

Há muito que estou acostumado a formular duas perguntas obrigatórias quando algum caso de assassinato político alcança e se instala nas manchetes da realidade:

1.- A QUEM BENEFICIA ESSA MORTE?...

2.- A QUEM PREJUDICA ESSA MORTE?...

Geralmente (não lembro nenhuma oportunidade em que essa prova dos nove tenha falhado) o assassino está escondido por trás da primeira resposta.

Também aprendi que as teorias conspirativas (no caso em questão a suposta autoria de Israel ou USA ou ambos) sempre se combatem com a técnica de ridicularizar a teoria e os seus autores, como se ela fosse produto de uma paranóia muito conhecida e estudada, e não da pura e simples leitura do passado.

Nos Estados Unidos há uma lei que impede que se conheça o conteúdo de certos documentos oficiais durante um período de 30 anos. Depois desse tempo decorrido, ficam à disposição dos interessados. E é assim que a cada trinta anos passados desde a ocorrência de alguma situação na qual muitos pensavam que a mão dos Estados Unidos estava envolvida, era possível constatar que de fato fora o responsável.

Ou alguém esqueceu os desmentidos oficiais às acusações que apontavam ao apoio americano aos golpistas que acabaram com o regime e a vida de Salvador Allende, ou às declarações dos porta-vozes do Departamento de estado de que não tinham nenhuma relação com a corja que derrubou o governo do Jango, ou às juras de inocência quanto ao envolvimento americano na preparação e implementação do Plano Cóndor?... Os exemplos são tantos que fico nesses três, que são mais do que suficientes para demonstrar a tese que defendo.

A lógica, baseada na experiência e no passado, indica que não foi necessariamente a Síria a autora ou a mandante (ainda que o regime do Assaf tinha o Hariri como inimigo), porque é a única que não lucra com o assassinato, mas muito pelo contrário, fica em evidência devido ao interesse de muitas partes de atribuir-lhe a responsabilidade. E tal fato era sabido e conhecido por qualquer um dos atores ou dos espectadores atentos do desenrolar dos acontecimentos nessa parte do Oriente Médio.

USA está interessada em desestabilizar todos os governos que não rezam pela sua cartilha (não esqueçamos o que tentou e ainda tenta na Venezuela, em Cuba, e agora no Irã).

No Líbano está a oportunidade de poder agir contra Síria sem arriscar um conflito de dimensões imprevisíveis caso os “libertadores do mundo” iniciassem um ataque militar contra a própria Síria.

Não esqueçamos que o Líbano em si não existe como país plenamente soberano. É, como o Afeganistão com o ópio, uma terra distribuída entre os sátrapas do hashish. O Walid Jumblatt é o que mais tem durado, provavelmente porque os drusos que ele comanda não são uma ameaça nem para Israel nem para os Estados Unidos. Dizem as más línguas que tem colaborado com ambos, e essa é a receita da sua longa sobrevivência.

O benefício-lucro-vantagem de Israel nessa morte é bastante dúbio, o que se diz uma verdadeira faca de dois gumes, com as que tanto gosta de brincar o Sharon. Por um lado, tentar influir para que USA aja contra Síria, e pelo outro, a terrível certeza de que se isso vier a ocorrer, o alvo da pesada artilharia síria seria o Estado de Israel, e não os Estados Unidos.

Uma penúltima alternativa, "maluca" mas muito possível, é que alguma facção do cristianismo libanês (muito atomizado, com líderes regionais que se odeiam os uns aos outros) tenha feito o trabalho para aumentar as suas chances de voltar ao governo. Parece doidice, mas em se tratando dessa região, tudo é possível.

O único cenário realmente indesejável é o montado pelos interessados, e no qual se dá por descontado - sem deixar lugar para outra hipótese - que foram os sírios os autores do magnicídio. Isso é cair numa simplificação que nem os melhores estrategas da Casa Branca sonharam que fosse possível.

Mesmo que no fim se prove que foram os sírios, ficará na boca de muitos o gosto amargo que deixa a burda manipulação da informação no estilo do que foi feito nas vésperas da invasão do Iraque. Depois, é só começar a somar os mortos laterais, colaterais e multilaterais, as grandes vítimas da demência que rege a orquestra do século XXI.



Bruno Kampel  é analista político, poeta e escritor.
Reside atualmente na Suécia.
bkampel@home.se 
Antologia cibernética: http://kampel.com/antologia
http://kampel.com/poetika/brunokampel.htm 
Blog de Bruno Kampel: http://brunokampel.blogger.com.br

      http://bruno.kampel.com


 


Escrito por Belvedere às 09h11
[ ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]
 
Histórico
15/10/2006 a 21/10/2006
10/09/2006 a 16/09/2006
03/09/2006 a 09/09/2006
27/08/2006 a 02/09/2006
20/08/2006 a 26/08/2006
13/08/2006 a 19/08/2006
06/08/2006 a 12/08/2006
25/06/2006 a 01/07/2006
18/06/2006 a 24/06/2006
11/06/2006 a 17/06/2006
04/06/2006 a 10/06/2006
28/05/2006 a 03/06/2006
21/05/2006 a 27/05/2006
14/05/2006 a 20/05/2006
07/05/2006 a 13/05/2006
30/04/2006 a 06/05/2006
23/04/2006 a 29/04/2006
09/04/2006 a 15/04/2006
02/04/2006 a 08/04/2006
26/03/2006 a 01/04/2006
19/03/2006 a 25/03/2006
12/03/2006 a 18/03/2006
05/03/2006 a 11/03/2006
26/02/2006 a 04/03/2006
19/02/2006 a 25/02/2006
12/02/2006 a 18/02/2006
05/02/2006 a 11/02/2006
29/01/2006 a 04/02/2006
22/01/2006 a 28/01/2006
15/01/2006 a 21/01/2006
08/01/2006 a 14/01/2006
01/01/2006 a 07/01/2006
25/12/2005 a 31/12/2005
18/12/2005 a 24/12/2005
11/12/2005 a 17/12/2005
04/12/2005 a 10/12/2005
27/11/2005 a 03/12/2005
20/11/2005 a 26/11/2005
13/11/2005 a 19/11/2005
06/11/2005 a 12/11/2005
30/10/2005 a 05/11/2005
23/10/2005 a 29/10/2005
16/10/2005 a 22/10/2005
09/10/2005 a 15/10/2005
02/10/2005 a 08/10/2005
25/09/2005 a 01/10/2005
18/09/2005 a 24/09/2005
11/09/2005 a 17/09/2005
04/09/2005 a 10/09/2005
28/08/2005 a 03/09/2005
21/08/2005 a 27/08/2005
14/08/2005 a 20/08/2005
07/08/2005 a 13/08/2005
31/07/2005 a 06/08/2005
24/07/2005 a 30/07/2005
17/07/2005 a 23/07/2005
10/07/2005 a 16/07/2005
03/07/2005 a 09/07/2005
05/06/2005 a 11/06/2005
22/05/2005 a 28/05/2005
15/05/2005 a 21/05/2005
08/05/2005 a 14/05/2005
01/05/2005 a 07/05/2005
24/04/2005 a 30/04/2005
17/04/2005 a 23/04/2005
10/04/2005 a 16/04/2005
27/03/2005 a 02/04/2005
20/03/2005 a 26/03/2005
13/03/2005 a 19/03/2005
06/03/2005 a 12/03/2005
27/02/2005 a 05/03/2005
20/02/2005 a 26/02/2005
13/02/2005 a 19/02/2005
06/02/2005 a 12/02/2005
30/01/2005 a 05/02/2005
23/01/2005 a 29/01/2005
16/01/2005 a 22/01/2005
09/01/2005 a 15/01/2005
02/01/2005 a 08/01/2005




Votação
Dê uma nota para
meu blog



Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis





O que é isto?