Helena Armond comenta meu conto O Parto
fui ler a sua seqüência de flashs de uma realidade que tem até cheiro de miséria....é chocante como vc abre janelas e portas e fotografa ...palmilha cantos...o mais terrivel é a imediata aceitação que consola os personagens.......
terrivel e muito muito muito bom
Escrito por Belvedere às 12h41
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Crónicas de Vírginia Flores - Eva Proibida -
Dizia-me Sebastião, que deveria escrever - Pelo menos, pelo menos! - uma crónica, ou conto, por mês. Esta comecei-a há seis anos, e só hoje a dou por terminada. Olha, escreve sobre a tua vida! Achas que a minha pouca vivência tem algo que possa despertar a curiosidade de um leitor? Vamos lá! ao menos um leitor, tens! Eu, por exemplo. Tu escreves, e eu leio. Para isso tenho que ter tempo, caneta, papel e ânimo. E neste momento sobeja-me, papel e caneta. Pois eu podia contar-te a minha vida, inteirinha! E tu, escrevias. Sobeja-me papel e caneta, repeti. Tu lembras-te do Carlos? Devo ter ficado com cara de espanto. Olhe o leitor se eu lhe perguntasse se se lembra do Zé. Zés há muitos, sua palerma! - tenho a certeza que seria isso que pensaria. Um nome pessoal, só, torna-se impessoal, se não for acompanhado de um apelido que o valha: o Zé do talho, o Zé da mercearia, o Zé Favinha, etc., etc. Só para o meu tio Duarte, é que são todos Zé Maria do Pincel, quando não conhece o apelido que o valha. Do Carlos Alberto, pá. Aquele que te esfolou o joelho quando eras miúda. O da Dona A.! Não me esfolou o joelho. Caí e esfolei o joelho por causa dele. Não é o mesmo. Ainda tenho a cicatriz. Aquele, sim, é que era um mariquinhas. Sabes que se tentou matar duas vezes? Sei, ou já te esqueceste que vivia no prédio ao lado do meu? E, na primeira tentativa, quem ficou esfolada fui eu. Tudo por causa do Comandante Koenig, das luas e dos céus. Quem quase foi para o céu, foi ele, e eu para o purgatório porque me esqueci que a directora da escola queria falar comigo, e quase que não apareço. Que grande barraca foi aquela, hã? Pois foi. Ele tinha más notas, e o pai castigou-o sem o espaço. Não fez outra, enfiou um frasco de comprimidos goela abaixo, e cá vai disto ó Evaristo. E tu que foste a correr para falar com a directora. Se não tivesses um peso na consciência, não tinhas ido a correr. Quase que lhe esmurrei a gargalhada. Estávamos, afinal, a falar de coisas sérias e antigas. Coisas com um quarto de melancólico século. Como o tempo se esvai... Estou, agora, a lembrar-me dele, à varanda, no primeiro andar. Primeiro aparecia a mãe, e depois, ele. De tarde, cruzavam os braços e as pernas sobre uma mandriice descarada, e ficavam no parapeito da janela à espera dos burburinhos. Gostava de coscuvilhar, o malvado. Mas também era útil. Às vezes avisava a vizinhança, aos berros, quando chovia: - Ó D. Sara, olhe a roupa! D. Zezinha, tem o canário cá fora. Ó D. Maria do Carmo, está a chover. A casa, sempre um brio. O meu Carlos Alberto, limpa a casa melhor que eu, dizia a Dona A. a quem a quisesse ouvir. Também me lembro, que era ele que assava as sardinhas. Punha o grelhador à janela, apoiado nos ferros da corda de secar a roupa. Depois, era uma azáfama a limpar os vidros da marquise. Ah! mas não pense o leitor que o Carlinhos não avisava, antes, que ia assar sardinhas. Corriam a fechar janelas, com medo daquele cheirinho, que, agora, deu-me saudades. Coitado. Quantas vezes não lhe chamei borboleta e ele não se incomodava. Dizia-me que gostaria de ser uma: alegre e livre. Pior eram os que lhe chamavam menina Carlota. Cheguei a zangar-me com aquela malta. Até à porrada andei. O gajo tinha jeito para o teatro, e para o ballet, não tinha? Pois tinha, mas proíbiram-no, que essas coisas eram coisas de menina. Fizemos teatro juntos. Então, eu não sei! E porque é que não continuaste? Até me lembro da tua mãe, sempre a dizer que tu tinhas muita queda para o teatro, só não tinhas era onde cair. Desfigurei-o. Meti-lhe a mão à boca, desapertei-lhe as bochechas, enfiei-lhe o braço até às entranhas, e arranquei-lhe os bofes. Bofete-ei-lhe as gargalhadas insolentes. Na próxima crónica, mato-o, esfolo-o! Deixo-o como um cristo. Desvendo-lhe os mistérios, como ele desvenda os de Carlos. Tu achas que ele já nasceu com aquela tara, ou...? Nã! Então, tu não sabes que a coisa pega-se? Tens com cada uma, Sebastião. Diz-me, tu eras muito amigo dele. Andavam, sempre, juntos... Chega para lá essa boca! Ele é que não me largava. Até para ir ao baile dos Penicheiros, tinha que ir com ele atrás. E de miúdas, nada! Aquilo afugentava as miúdas todas. Deixa-te de coisas. Bem que aproveitaste. Quantos copos é que ele não te pagou, diz-me? Ora, pagou-me o tempo que o aturei, e ainda ficou a dever-me. Mas o tempo não queria aturar o Carlos, pensei. Não sinto pena dele. Sinto que não era compreendido pelo tempo, e que o mesmo ainda hoje lhe deve. Nunca ninguém lhe conheceu uma namorada. Amigos, tinha alguns. Uns para cada ocasião. Sebastião quando andava penado, achegava-se a ele. Outros... achegavam-lhe. Um, mais que os outros. A segunda tentativa que fez para acabar com a vida, já era adulto. Saía furtivamente de casa, durante a noite, e regressava de madrugada, antes do acordar da vizinhança. A mãe fechava os olhos, mas o pai arregalou-os até ao branco, até ficar cego. Proíbiu-o de sair de casa, e de ir ver o Adão. Desta vez não engoliu comprimidos. Atirou-se da janela do quarto. Para mim, nunca ele tentou matar-se, ou suicidar-se. Engraçado! Existe furtar e roubar. Furtar é apoderar-se de algo alheio, sem violência. Roubar, é subtrair para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência. Chego ao término desta crónica sem saber se Carlos furtou-se ou roubou-se. Uma coisa é certa: roubaram-lhe o paraíso.
Cristina Pires (04/2005)
Escrito por Belvedere às 17h52
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olhando as frestas e ver
que o sol é feito de retas
beber das cascatas
verticais
aparando as seivas
sem dilacerar as cascas
saber dos vermelhos
rios
vizinhos que vibram
enquanto respiram
olhar nos espelhos do asfalto
entre buracos
em que se tropeça
e...
tocar o chão com a face
e entender o cantochão dos trovões
e...
sentir na cachaça...
o espírito desperto
e
do santo ! dai-me !
dos emaranhados cipós
curvas que se amarram
em amarrilhos artisticos...
DEUS
é
orgânico-geométrico
numérico....
observar....o risco
de
confundir paz...
com tédio
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helena armond
HAbril-hos 05
Escrito por Belvedere às 14h40
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PLENITUDE
Marque encontro comigo Na paisagem mais bonita Apenas hoje seja pontual Para adentrar meus sonhos
Se arrume Com o melhor traje Na simplicidade exata Das pessoas elegantes
Não use perfume Preciso do seu cheiro (Sua voz, seu texto, eu já conheço)
Preciso da sua pele Do seu toque Como a lua precisa da noite Para fingir-se estrela
Chegue assim brilhando Com o sol das manhãs E só se despeça Com o pôr-do-sol.
Preciso juntar os pedaços de você Para que eu possa entender Se como adolescente amo um sonho Ou se como mulher amo um homem
Edna Feitosa
Respeite os direitos autorais
Escrito por Belvedere às 14h37
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AO CORAÇÃO DA POETA DESCE O LUAR A poesia banhada pelo brilho amarelo do céu numa manhã de Primavera com Maria Gabriela Llansol por Antonio Júnior de Lisboa (Portugal) Existe sempre uma qualquer luminosidade eterna, com toques de fábula, que aniquila a melancolia. Uma luminosidade enigmática, por vezes súbita, só avistada quando atravessamos os limites do jardim do bem e do mal. Essa jardim, real ou metafórico, sonhado ou vivido, nos pertence a todos, apesar de que a muitos lhes parece mentira. Por ele transcorre uma vida mais ou menos razoável, previsível, equilibrada; sobre ele flutuam névoas cinzentas a que chamamos costumes ou a ausência de novidades que chamamos sossego. Em tal jardim enigmático, muitas vezes sem árvores e sem flores, em tal espaço protegido por muros altos ou até mesmo cercas elétricas, praticamos uma moral minúscula adornada de dogmas, de temores e de tabus, pela qual nos sentimos protegidos e que, ao ser respeitosos com ela, acreditamos nos transformar em respeitáveis aos olhos alheios. Entre esses conceitos nos tranquiliza a certeza de que a maior felicidade sempre está por surgir, de que a estabilidade que defendemos é o mais alto dom. Embora, com o passar do tempo, como um relâmpago, terminamos compreendendo que a felicidade nunca existiu e inclusive que nunca existirá. Fugir, enquanto é tempo, desse aparentemente formoso jardim, seria o mais sensato. Para descobrir o mundo autêntico, o dever autêntico, a poesia autêntica e a autêntica ética. Além dele, das heras que embelezam com seu disfarce as grades da cárcere, se encontra a claridade interior. Se não saltamos fora de nossas mediocridades, de nossas crenças estúpidas, de nossas convicções herdadas; se não nos confrontamos cara a cara com nossos desenganos, estamos mortos. Viver não é conservar vivo o corpo: isso é só um passo prévio da vida e seus mistérios. O fundamental é abandonar-se nos braços – nos braços imensos – da vida; agarrar-se neles com força, de olhos fechados. Desnudos em busca de uma vida desnuda. Desamparados na tormenta de uma vida desamparada. Fora do confortável jardim: guerras e vitórias, tropeços e ascensão, sacrifício e compreensão. Dentro dele, o temor: pela velhice, pelas mudanças, pelo amor que queima e aniquila, pelo desamor que nos perturba, pela infelicidade que cruza nossa mente como um raio fulminante. De qualquer maneira, é preciso sair. Para encontrar-se com nós mesmos. Como saíram, expulsos ou não, Adão e Eva do Edén, transformados em um homem e uma mulher livres, não uns seres dóceis, indiferentes e mimados como animais domésticos. Atravessando as fronteiras do jardim, começaremos a viver. Em Sintra, encontrei casualmente uma escritora além desse jardim, portadora de uma escrita onírica, filosófica, metafísica, fundamentada no humanismo e na antiga mística religiosidade feminina. Uma estranha literatura libertária, inclassificável, ponte entre o homem e os seus enigmas, entre o sonho e a vigília. Encontrei Maria Gabriela Llansol, a autora da trilogia “Geografia de Rebeldes” em uma manhã de primavera deste ano. O ar ensolarado preenchia a reluzente paisagem com tons dourados. Falei sem receio de minha consideração por sua obra. Escutou com alegre paciência, como uma mulher que aprendeu a contemplar a vida e as suas surpresas. Muito gripada, com uma expressão dócil, convidou-me para tomarmos um café na semana seguinte. Abri a porta que dava acesso ao mais íntimo, desaguando. O meu coração tomou-se por um assombro lúdico. O mesmo havia acontecido ao encontrar Paul Bowles nas ruas de Tânger, Hilda Hilst na Chácara do Sol, Al Berto numa tasca de Lisboa ou Doris Lessing num subúrbio londrino. Escritores tão diferentes, entre a tormenta e a compreensão mais íntima do essencial, que generosamente me deram momentos de uma felicidade completa, uma satisfação sem consequências. Sonâmbulo, vaguei por Sintra, entrando em uma outra dimensão. Vaguei nesta cidade em que tudo pode conhecer, desde camélias que falam a luas que se duplicam. A imaginação tornar-se real e vice-versa. Perder-se em suas ruas estreitas é constatar que o tempo não existe, não passa de uma limitação humana que nos obriga a fazer coisas. Quanto tempo terei para escrever sensações? Quantas primaveras estão à minha disposição? São limites pouco importantes, que fazem parte do nosso jardim. O significativo é o caminho, ele não dá prazos, é atemporal, simplesmente acontece: abelhas alimentando-se de pólen, raios de sol dourando folhas, olhares cálidos que se cruzam, fugaz bem-aventurança de uma brisa roçando a pele, o sentimento de ser flor. Enquanto refletia sobre todas essas coisas, me perguntava: “Realmente conversei com Maria Gabriela Llansol, considerada tão inacessível, ou foi projeção dos meus próprios milagres?”. Fiquei na dúvida toda a semana seguinte. No dia marcado, apareci, e lá estava ela: de baixa estatura, idade indefinida, meiga, cabelos grisalhos presos num coque, vestida como uma romântica camponesa e protegida por um bonito chale negro. Uma aparição de contos de fadas! Pediu um café curto e uma queijada. Então conversamos como dois velhos amigos. Não era uma entrevista. Enveredamos pelos caminhos do pensamento, falando da literatura que vem da alma, de ausências sentidas, poetas franceses e da nossa própria história. Ela transmitia uma enorme sensação de paz e de beleza. Nos presenteamos com livros, pausas, silêncios, cumplicidades. Em plena luz do dia, com todo o esplendor do Monte da Lua visto através da janela, uma lua cheia desceu os céus e penetrou no coração da poeta. Depois a deixei na porta de sua casa, beijando suavemente sua face. Me sentia leve, abençoado, livre do meu jardim, como uma criança alegre e despreocupada. As mensagens sensoriais surgiam através do aroma agridoce de ervas, da visão dos sedosos amores-perfeitos. Subi o caminho que leva a Quinta da Regaleira, quase asfixiado pelo perfume envolvente, parecia que tudo girava; segui sempre em frente, como se não soubesse onde estava, como se lá em cima o mundo fosse acabar. Foi então que parei para admirar um belo carvalho, muito alto, e lentamente sorri, a vertigem significante havia tomado conta de minha alma.
Escrito por Belvedere às 14h16
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DE MÃE PARA MÃE
Hoje vi seu enérgico protesto diante das câmeras de televisão, contra a transferência do seu filho, menor infrator, das dependências da FEBEM em São Paulo, para outra dependência da FEBEM no interior do Estado.
Vi você se queixando da distância que agora a separa do seu filho, das dificuldades e das despesas que passou a ter para visitá-lo, bem como de outros inconvenientes decorrentes daquela transferência.
Vi também toda a cobertura que a mídia deu para o fato, assim como vi que não só você, mas igualmente outras mães na mesma situação, contam com o apoio de comissões, pastorais, órgãos e entidades de defesa de direitos humanos.
Eu também sou mãe e, assim, bem posso compreender o seu protesto. Quero com ele fazer coro. Enorme é a distância que me separa do meu filho. Trabalhando e ganhando pouco, idênticas são as dificuldades e as despesas que tenho para visitá-lo. Com muito sacrifício, só posso fazê-lo aos domingos, porque labuto inclusive aos sábados, para auxiliar no sustento e educação do resto da família. Felizmente conto com o meu inseparável companheiro, que desempenha, para mim, importante papel de amigo e conselheiro espiritual.
Se você ainda não sabe, sou a mãe daquele jovem que o seu filho matou estupidamente, num assalto a uma videolocadora, onde ele, meu filho, trabalhava durante o dia, para pagar os estudos à noite.
No próximo domingo, quando você estiver se abraçando, beijando e fazendo carícias no seu filho, eu estarei visitando o meu e depositando flores no seu humilde túmulo, num cemitério da periferia de São Paulo.
Romeu Prisco
Escrito por Belvedere às 13h42
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O leitor, este desconhecido
A arte literária possui uma complexidade bem característica: não tem o espetáculo na sua essência. Não pode ser produzida, nem consumida em grupo, como a música, o teatro, ou o cinema. É impensável convidar os amigos para escrever um romance, ou um possível futuro amor para ler um livro no primeiro encontro. A literatura é a junção de duas solidões: um escritor que cria sua obra em silêncio e, na outra ponta, um leitor que individualmente consumirá essa obra, também em silêncio. É nesse diálogo estranho, sem catarse coletiva, sem aplausos, que reside a beleza da escrita. Mais que no escritor, é no leitor, este desconhecido, que mora o mistério. Em 24 de maio de 1969, o jornal "O Estado de S. Paulo" publicou uma entrevista com Osman Lins. Ao ser perguntado para quem escrevia, ele respondeu: "Antes de tudo, para mim, porém, de modo algum, só para mim. Em segundo lugar, para o leitor. Não tal ou qual pessoa conhecida, nem tal ou qual leitor médio descoberto pelo Ibope. Para um leitor que imagino, a quem respeito, e que se modifica segundo minha própria evolução É ele, também, um personagem de minha invenção, talvez o mais importante de todos, pois orienta em grande parte minha obra, realizada com vistas ao seu possível olhar". No plano da idealização, as palavras de Osman Lins são muito confortáveis para os escritores. Estabelecem uma forte liberdade criativa, não fazem concessões à mediocridade, pois acreditam que no outro lado está um indivíduo capaz de aceitar todas as experimentações. Um leitor que segundo Osman é "bastante compreensivo com o insólito". Estamos falando de um leitor que tem na criatividade do escritor uma escada para a sua própria criatividade. Um leitor muito mais que leitor. Alguém que ao ler metamorfoseia o ato da leitura e passa a reescrever a obra. No plano real, estamos num tempo em que um autor sem nenhuma ousadia criativa é capa das três principais revistas semanais do País. Em que um outro, devidamente fabricado pelo departamento de marketing da editora, brinca de refazer a história e provocar suaves polêmicas com a religião. Em que uma autora respeitável ameniza-se com escritos de auto-ajuda debilmente disfarçados de arte. Eles dialogam com o leitor que deseja conforto, entretenimento, que reduz a literatura a um passa-tempo asséptico. O leitor-preguiça, agarrado a árvore do estabelecido. Se houvesse vida ideal, haveria um equilíbrio perfeito entre estes dois modelos de leitores, mas não há. O que existe é um predomínio do leitor acostumado com facilidades. Nisto mora um dos principais conflitos dos autores em início de viagem. Para ampliar seu público eles têm de fazer um texto padronizado, sem inventividade literária, um quase suicídio artístico. A outra saída é arranjar uma profissão que pague o aluguel, e fazer da literatura experimentação, jogo com a linguagem, busca da expressão mais pessoal e intransferível. Este escritor terá poucos leitores, apesar da (ou por causa da) qualidade inequívoca do diálogo estabelecido.
Rubens da Cunha, escritor
Escrito por Belvedere às 21h29
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leveza do ser
diante da sua fragilidade
não sou nada
sou tudo
sou apenas o momento
te sinto voar
te quero solar
nos carinhos do mar
diante da sua sensibilidade
não sou fraco
sou forte
sou apenas a vontade
te sinto pousar
te quero amar
nas asas do luar
ydeo oga
Escrito por Belvedere às 11h51
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No jardim do amor eterno
existe uma árvore cujas folhas não murcham e toda semente fecunda e os frutos amadurecem em direção ao Sol... ...não depende das estações do tempo (posto que o Amor é eterno) e há um rio perene a regar suas raízes... ...e quem dele sabe já provou do seu fruto e conhece das alegrias da saudade e da saudade das alegrias... Em volta da árvore não há sombra nem morte ...nem sombra de morte... ...e os vivos circundam tranqüilos sem lembranças da morte do passado ou das angústias do futuro... Porque foi-lhes mostrado que aqui, todos os dias são primeiros e todas as horas... ...momentos eternos... ®Adelmario Sampaio
Escrito por Belvedere às 13h41
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Encontrei num site!
"Encontrei num site!"
Autor: Jose António Gonçalves
Buscar na Web "Jose António Gonçalves"
Bel, estou de novo a encontrar-te, nestas lides da escrita, através desta pequena, mas bela colecção de poemas. Estou começando a sentir-me o dragão que andas a tatuar, marcando-me com a polivalência e a qualidade literárias de que está eivada a tua obra. E se és a personagem que se divide em duas, confesso-te que gosto de ambas: o ser humano, sensível e preocupado com o que observa no seu quotidiano e a relatora, a cronista das singularidades que nele residem. Não são muitos os autores que se podem gabar de tal sagacidade e sentido de transposição para o papel de uma moral, de uma mensagem síntese, dirigida à argúcia do leitor, em cada história contada, tanto na prosa como na poesia. Habituado que estou a estes caminhos de mundividências no universo "biblos", não posso deixar de aqui deixar-te, com os cumprimentos de parabéns, uma palavra de incentivo e de aplauso à Literatura Brasileira que, assim, se está renovando num cantinho inesperado: o dos escritores da internet, tábua dirigida ao futuro. Beijos.JAG José Ant. Gonçalves | Email | Homepage | 03-03-2004 21:50:21
Escrito por Belvedere às 19h55
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GOSTO PELA LEITURA
Por Montezuma Cruz, de Maringá (PR)
Este país não chega a ter mil livrarias de verdade. Mas tem pelo menos a metade desse número de editoras. A leitura contribui para desenvolver o caráter, ouvimos desde criança. Ler é um santo remédio, concluo depois de ver tantos amigos, conhecidos, filhos e parentes, contando algo sobre o que leram na vida. Daniel Piza, editor-executivo de “O Estado de S.Paulo”, disse recentemente que num país onde a arrogância dos ignorantes se alastra por todas as classes sociais, estimular a boa leitura deveria ser fundamental. No entanto, reconhece que as escolas em geral, quando tentam estimular a leitura, terminam estimulando a má leitura. Ele explica: “Clássicos, por exemplo, são passados como coisas chatas. Na verdade, muitos são realmente chatos e outros tantos só podem ser conhecidos depois de certa maturidade e leitura”, ele diz. “Obrigar um adolescente a ler ‘Senhora’, de José de Alencar, pode condenar um futuro leitor”. O jornalista acredita que o gosto pela leitura tem de ser transmitido como uma forma de entender a própria vida. “Qualquer livro deslocado de seu poder de perturbar não passa de arquivo. E não são apenas os clássicos que podem perturbar, embora mereçam sempre o crédito de que já perturbaram muitas gerações”. E quem é o bom leitor? Piza garante que este não dá preferência a um gênero. Lembra que ficção é importante e inclui contos, poemas, peças, mas, sobretudo num mundo tão inundado de ficção em todas as suas formas (incluindo filmes publicitários), não convém ler muita ficção. Recomenda: “Ensaios sobre os mais diversos assuntos — arte e ciência, livros de história e pensamento, indo de artigos a biografias — podem ser decisivos”. Outra constatação do jornalista: o bom leitor sabe que a leitura não se mede por vantagens práticas imediatas ou por quesitos falsamente objetivos, a exemplo dos que são utilizados nos júris de alguns prêmios literários nacionais. Ele sabe que a leitura pode adensar sua inteligência e o ajuda a enxergar para além das polarizações sentimentais que tanto marcam o debate subdesenvolvido. Médico pediatra, sanitarista e deputado federal pelo PT-PR, Florisvaldo Fier (Dr. Rosinha), lembra que a diminuição do número de pessoas lendo não tem ocorrido somente no Brasil, mas, também, em países que têm o hábito da leitura — os de língua hispânica, entre os quais a Argentina, onde surgiu em 2003 a campanha com o slogan “Quem lê ganha sempre”, com distribuição de livros nas filas de entrada dos estádios de futebol. Dr. Rosinha escreveu no “Correio Braziliense” que, no processo educacional português, ao contrário do hispânico, a leitura foi pouco valorizada, e isso é facilmente notado em qualquer visita feita a esses países. Nota-se no número de livrarias e seus freqüentadores — verdade que hoje com menos jovens que outrora — e o número de pessoas lendo nas praças, ônibus e metrôs (em Buenos Aires e Santiago). O médico e deputado duvida que esse tipo de campanha ‘pegaria’ no Brasil. Mas alerta que uma iniciativa para estimular adultos e ganhar adolescentes para a leitura deve ser tomada por todos os setores do poder público — educação, cultura, esportes, bibliotecas etc — e em todos os níveis (União, estados, Distrito Federal e municípios). Ainda o Dr. Rosinha: “A leitura obrigatória, do tipo ‘leia porque vai cair na prova’, não é a solução nem leva a pessoa a ter gosto; isso não se impõe, se adquire, geralmente por meio de um processo construtivo”. Completando essa reflexão a respeito da leitura, lembro o também recente desabafo do jornalista Carlos Heitor Cony, com relação a mudanças curriculares: o que deve ser ensinado nas escolas de 1º e 2º graus e a retirada da literatura da pauta escolar, reduzindo-a a um corolário da cadeira de português, não mais como matéria autônoma, específica, capaz de formar licenciados, doutores e mestres. “O argumento que volta e meia é brandido pelos técnicos do setor é que os alunos lêem pouco e mal e, mesmo quando lêem, forçados pelos professores, não entendem o que estão lendo. Chegam a alegar que o ensino da literatura é a besta negra das escolas, sobretudo no 1º grau, uma vez que os alunos detestam a obrigação de ler tal ou qual livro, fazer uma dissertação sobre esse ou aquele tema abordado por um dos autores selecionados pelos professores”. Carlos Cony diz que, queiramos ou não, somos um povo comprometido com a literatura, não a literatura de Ph.D. que esmiúça poetas e escritores maiores — Carlos Drummond, João Cabral de Melo Neto, Euclides da Cunha ou Machado de Assis. “Em criança, ouvimos (ou pelo menos ouvíamos, os mais vividos) de nossa mãe ou de nossas avós os versos de Casemiro de Abreu (oh! que saudades que eu tenho da aurora da minha vida) ou de Gonçalves Dias (minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá), ou mesmo de Castro Alves (auriverde pendão da minha terra) — versos, citações que formam nossa alma, nosso sentimento”. O brado de Cony é o brado dos que ainda sonham com bibliotecas cheias em todas as cidades brasileiras, crianças e jovens lendo, mesmo tendo à disposição: festas musicais em estádios, acesso à internet, DVD e videogravadores modernos. Além da pobreza de livros, com raríssimas exceções, a retirada do ensino da literatura das escolas pode desfigurar a dita alma nacional, nosso gosto, nossa memória.
MONTEZUMA CRUZ é jornalista
Escrito por Belvedere às 21h25
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"O HOMEM QUE NÃO ACREDITAVA NO TEMPO" (Conto)
Raymundo Silveira
“Le passé c’est la seule réalité humaine. Tout ce qui est est passé.”
(Anatole France: Le lys rouge)
Sim, ele existiu! Minto. Pretendo contar essa história da perspectiva dele. Então, não posso dizer que existiu, que existe, nem que existirá. Simplesmente porque não acreditava em nada disso. Como é impossível contar algo sobre alguém sem um referencial ligado ao “tempo”, só me resta uma saída: narrar os acontecimentos aleatoriamente. Por outras palavras: Ora relatarei no presente, coisas do passado. Ora, no passado, fatos do presente. Ora no futuro, o passado e o presente.
Reconheço que a missão é espinhosa. Todavia, aceitei o desafio por dois motivos - e aqui já estaria encaminhando a minha heterodoxa técnica narrativa -: prometerei a ele que faria e nunca sou um desertor.
Passeio pelos anos que para ele não houve. Senti-me um objeto. Para a maioria das pessoas, o tempo, enquanto valor mensurável, é tão lógico quanto o princípio de Arquimedes. Mas, de fato, só existe em função do observador humano. Neste ponto, não só concordo com o meu personagem, como sou capaz de demonstrar a racionalidade do seu pensamento. Com efeito, não existem Futuro, Passado, e Presente. O Futuro, porque ainda não aconteceu.
O que chamamos Presente, mesmo estando ocorrendo nesse exato instante, também não existe, porque é mais fugaz do que o pensamento. Isto é, nenhum episódio chega, de fato, a acontecer no Presente. Uma vez que, logo a seguir, já é Passado. Quando dizemos, por exemplo, a palavra mãe, a imagem que se forma na consciência já não é igual àquela que se formou quando foi pronunciada. E sim uma outra, que deveria estar no Presente. Mas já passou. Portanto, só existiria o Passado. Como este já passou também, não existe. Donde se conclui que o tempo não existe.
Assim sendo, nem a epígrafe de Anatole France fará sentido. Parece uma sandice. Portanto, numa perspectiva lógica, o tempo não passa (nem passou, nem passará) de uma abstração criada pelos homens a fim de medir o tamanho das suas esperanças passadas, ou a extensão das suas saudades futuras.
Direi que me senti um objeto. Foi uma incoerência. Como objeto, não terei como formular este raciocínio. Mesmo assim, continuo me sentindo o próprio. Na verdade, rigorosamente, apenas coisas são incapazes de observar a passagem do que as outras pessoas chamam de tempo. Um cão e um gato sabem muito bem quando devem comer ou urinar. Logo, até eles tiveram essa noção. Uma pedra, não Com isso esperei ter provado, logicamente, a mera intuição do meu amigo por falecer.
Morreu num futuro ainda remoto. É um homem bastante sensível. Nele, a emoção sempre predominará sobre a razão. É também nostálgico durante toda a vida. Mas saberá aproveitá-la, ainda que sentindo uma profunda saudade do amanhã. Muito saudável, não comerá carne. Será vegetariano por convicção. Pratica uma espécie de dieta que foi mais uma filosofia de viver: a macrobiótica. Paradoxalmente, isso não impediu a sua micro-existência: morrerá jovem.
Sei muito bem o que você está pensando, leitor: “este sujeito é um imbecil, um embusteiro, ou quer me gozar”. Não o condenei por isso. Soube reconhecer que o seu raciocínio está sintonizado com a noção anódina de tempo. Inclusive porque estarei escrevendo isto sem nenhuma veia poética. Se tudo o que já foi dito acima, terá sido sob a emoção da Poesia, ninguém me censurou. Garanto, porém, que jamais estarei a caçoar dos leitores. Tampouco sou idiota.
Um poeta pode e deve dizer: “Eu, passarinho. Eles passarão”. Misturar e comparar, abusivamente, verbos e substantivos. O escritor não poeta, jamais. Porque outra característica dos humanos foi gostar de Poesia. Com efeito, ai de nós se não será ela. Contudo, a Poesia é para ser sentida e contemplada, pela emoção. E não pode ser diferente. Ela existiu exatamente para mitigar a dor da condição humana. E esse texto, apesar de ser a história de um homem emocional, contém um critério racional.
O meu parceiro morrerá mais certo do que ninguém. Mas nunca conhecerá as bases científicas e filosóficas da sua extraordinária capacidade intuitiva. Ele passará. Eu passarão.
http://www.raymundosilveira.net/
raysilveira
Escrito por Belvedere às 17h18
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