Sarau da Belvedere


Niteroi, 27 de abril de 2005
 
Às autoridades competentes

Vivo dias cheios de medo. A vida, aos poucos, vai perdendo o encanto. Já não transito pelas ruas com tranqüilidade, já não vou ao cinema, nem aos restaurantes à noite, para  depois percorrer a orla. Não faço mais caminhadas no Campo São Bento... Medo!
Meus direitos estão sendo tirados de forma vil.
Hoje, um asssaltante foi  morto  na Rua Gavião Peixoto. Os tiros assustaram os que estavam na rua e aqueles  que, como eu, estavam sob abrigo, em casa. Onde está o policiamento da cidade? Por que a cada dia prolifera o perigo nas ruas de Niterói? A  Rua Gavião Peixoto, há muito, é  cenário de assaltos e nada é feito para coibí-los. A Rua Moreira César, chamada "passarela da moda" pela mídia, à noite é um verdadeiro submundo. - As autoridades não estão vendo no que a referida rua está se transformando? Uma legião de pedintes e várias famílias alojam-se  sob  marquises. Homens vestem-se  com cobertores  e espreitam os que passam. No ar, há inquietação.
Como sobreviver a este estado de coisas?  Como cidadã, sinto-me lesada em meus direitos básicos.
Sempre houve promessas  eleitorais não cumpridas, que apenas fizeram com que o eleitor ficasse decepcionado. Agora a coisa piorou drasticamente. O medo habita cada ser. É como se as luzes, na cidade, fossem todas apagadas. O que resta é uma imensa escuridão.
 
 Belvedere
 


Escrito por Belvedere às 19h32
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Algo de Imperfeito

Cissa de Oliveira

Certos anjos, eu tenho minhas as reservas com eles.

Ficam tão impávidos nas suas plasticidades

de jade, barro, cristais e tintas

que os prefiro em algodão que se desfaça,

lá em cima,

num céu de abstração.

O níveo dos beijos, as sedas

e os suspiros que se desprendem

dos lábios do meu amado,

não há ali qualquer verso trincado,

das suas mãos faz-se um lago,

dos seus atos um costume verde

por onde eu respiro desde cedo,

e do seu corpo a paisagem de sangue

das tardes.

Certos anjos

não deviam viver nas prateleiras

e certos amores

terem algo de imperfeito,

serem.

Cissa de Oliveira

26.02.05

 

 

 

 

 

 



Escrito por Belvedere às 11h25
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Famosos anônimos

Quase toda cidade tem seus famosos anônimos, gente que não se encaixa nos trilhos e resolve impor-se aos olhos atônitos dos normais. Aqui na província dos príncipes, minha memória ainda guarda os retalhos sujos da Rosa do Pé Inchado e também a elegância silenciosa da "mulher do turbante". Essas duas mulheres conviveram durante anos com a cidade. Indiferentes na indiferença urbana. Talvez nenhum outro consiga a fama e a constância dessas senhoras, sobretudo Rosa, ainda hoje citada e comentada como exemplo máximo da "louca da cidade". No tempo em que elas viveram eu não atentava para esse tipo de pessoa, passava por cima de sua poesia torta, de seu lirismo agressivo.
Nos dias de agora, com o olhar adestrado na busca de pequenos absurdos humanos, concentro-me em três dessas figuras, que não são tão carismáticas, nem tão públicas, talvez nem loucas sejam, mas que, quando as vejo, me causam uma espécie de suspensão, um vôo de alma que não posso evitar.
O primeiro é um homem sem nenhuma característica marcante, não parece deficiente mental, nem tampouco um embriagado. O que me chama atenção é que ele resolveu viver sentado, ou deitado, numa esquina na principal rua do meu bairro. Dia após dia, lá está ele na sua função de estátua, de senhor do ócio. Enquanto a avenida fervilha na pressa, ele digere as horas vagamente. Às vezes, o vejo andando pela rua como um transeunte normal sem causar qualquer espécie de susto nos outros. Em mim causa muita desordem essa visão. Percebê-lo mimetizado ao colorido disforme da cidade é como se fosse uma traição à revolta que ele inconscientemente defende ao passar dias inteiros fixado numa esquina.
O outro dos meus personagens, perambula pelo centro da cidade, é um deficiente físico, tem uma das mãos paralisadas. Esse chamou minha atenção no início porque o vi sentado na frente de um banco, vestido com roupa social, de óculos escuros e pedindo esmola. Era uma provocação ao clichê do pedinte sujo, mal arrumado. Sua fala também era diferenciada, alta, imperativa, o pedido vinha meio ordenado. Causou-me um riso nervoso aquele sujeito.
Atualmente ele não é mais assim, parece mais magro, das últimas vezes que o vi, estava mal vestido, e pedia ajuda no ônibus com um discurso muito próximo do "eu podia tá roubando, eu podia tá matando...". Perdeu seu impacto, sua força poética, provavelmente para ganhar mais dinheiro. Não o culpo, mas sempre que o vejo lembro-me do dia em que ele me fez rir e me sentir culpado por não ter obedecido a ordem de lhe ajudar com um trocado.
Por fim, minha personagem predileta: sempre a vejo no mesmo lugar, talvez esperando alguém. É uma senhora negra, pesadamente vestida com roupas escuras, de lenço na cabeça. Parece a imagem viva de Nossa Senhora Aparecida. Internamente rememoro as orações aprendidas na infância quando a vejo. Não sou apegado às coisas sobrenaturais, mas esta mulher é um anjo. Não há outra explicação plausível para a intensidade que cobre a sua presença. É como se toda a rua fosse um altar para sua santidade explícita. De todos, é ela a que menos vejo e a que me faz mais falta aos olhos.

Rubens da Cunha, escritor



Escrito por Belvedere às 22h32
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E depois...

Lucilene Machado

 

E depois ela  com olhos úmidos tentando soterrar  o amor que viveu, porque o destino é cheio de bifurcações e alguém encantou-se com outras possibilidades, com outro horizonte, com outras palavras e a deixou embrulhada na pele nua, no frio de um inverno dolorido que parece nunca  terminar. E ela com medo de que um outro homem se aproxime, valha-se de sua fragilidade e também queira o seu amor envolto pelo corpo nu, quando a nudez de sua carne ressequida deseja apenas uma proteção. Como livrar-se da frustração, da dor de ser rejeitada, da vergonha de ter confessado a alguém seus desejos mais profundos, suas fantasias mais pungentes? e pensar que aquele homem tão íntimo, tão próximo da sua alma é um estranho que não se ocupa mais dela. Agora o vazio sem ética e sem estética,  a desocupação de um sujeito já desocupado que ela chamou de amor. A dor perdurará nas letras de uma oração sem sujeito que ela tenta amenizar com o corte de um travessão - pensar com dor não é o mesmo que pensar sobre a dor, por isso ele nunca saberá o que é um pensamento doloroso. Reconhecer isso é poesia. Escrever isso é tecer um poema para agasalhar o corpo morto do amor.

 



Escrito por Belvedere às 19h48
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Quero acreditar que todos os dias seja uma experiência, que algo novo e diferente aconteça, que os dias sejam diferente um do outro, acredito nisso, mas nem sempre parece que isso acontece. E por pensar assim é que estou ainda na superfície das águas turbulentas.

27.04.05
pastorelli


Escrito por Belvedere às 11h54
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