Sarau da Belvedere


SÚPLICA
(Carvalho Branco)
 
Raínhas não podem se afastar!...
É cedo ainda para respirar...
À plebe, precisas comandar...
Não vás agora, o sol ainda não se pôs...
Retorna, pois tem aurora para antes e depois...
Saudade é o pranto que choramos pois!...
 
Em cena aberta, tudo é sempre ação...
Trocar cenário, vestir poema, fluir imaginação...
Não te escondas,não fujas nessa tua
                                                           TRANSIÇÃO!...


Escrito por Belvedere às 12h51
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Transição
 
Belvedere
 
 
E-book, antologias,
dois sites pessoais.
Páginas no google,
em caso de  súbita saudade.
 
Não digo   adeus,
 não vou embora.
 
Uma parada,
um respirar poético,
um vestir fantasias...
 
 
   Voltarei , quem sabe, 
numa tarde azul,
 com o sol salpicando raios...
 
Só não posso dizer
 exatamente a hora.
 
 
 
 
 



Escrito por Belvedere às 20h38
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Os dois lados de Davi

Davi sente o peso do mundo. Lembra da história que ouviu sobre aquele outro com seu nome. Rei, escolhido por Deus, guerreiro, matador de gigantes. Davi não é nada disso. Nasceu entre ausências. Não foi à escola para poder trabalhar. Hoje, quase adulto, aprendeu que este mundo não dá trabalho a quem não vai à escola. Viveu sempre pelas beiradas. Na família, o pai bêbado, a mãe espancada, quatro irmãos como se nunca tivesse tido nenhum. Cresceu pulando esgotos e diarréias. Não sabe como viveu até aqui. Muita sorte. Muito esquivo. Aos 12, levou um tiro na perna. Bala perdida. Atravessou a parede do barraco, Atravessou o osso de Davi. Aos dezesseis, mais uma bala. Desta vez, direcionada para sua cabeça. Erraram. A bala e a dor continuam alojadas no seu ombro. Ontem, chegou aos 18. Isso não é nada. Só um pouco mais de cuidado. Acabou-se o escudo "de menor". Tudo bem. Homem suficiente para agüentar. Hoje, com vontade de vingança. A mãe morreu. Descansou, coitada, marido não prestava, filho tudo bandido, foi o que ouviu da vizinhança. Isso caiu feito pedra nos ouvidos de Davi. Ele sabe que amava a mãe acima de tudo. Só ela tinha perdão. Agora nada mais resta. Apagou-se aquele ponto de luz que ainda o fazia tremer diante dos assaltos, roubos, mortes que praticou. Agonia estranha no peito. Precisa de cocaína. Vê o playboy parado no sinal. Vidro do carro aberto. Avisa que é assalto. Ouve um "tudo bem". Não quer saber. Dá três tiros no outro. Pega a carteira. R$ 400,00. A noite será longa.
***
Davi sente o peso do mundo. Lembra da professora, uma freira que falava do guerreiro que assassinou Golias. Era um rei olhado de perto por Deus. Ele queria ser assim também. Não consegue. Nasceu entre riquezas. As melhores escolas. O sempre estudar, o nunca trabalhar. Hoje, quase adulto, percebeu que a escola mascarou o mundo tanto quanto ele mascarou a escola. O pai, em viagens de negócios. A mãe, afundada em Lexotans e jóias. Filho único como se nunca tivesse sido um. Cresceu manejando videogames e desatenções. Não sabe porque viveu até aqui. Rico demais. Sozinho demais. Aos 12, pôs fogo no cachorro do primo. Foi bonito ver o fogo correr e ganir. Aos 16, conheceu uns amigos iguais em vontades. Estupraram uma menina de 13. Ontem, chegou aos 18. Ganhou um carro do pai. Não mais dirigir o da mãe, mesmo que isso não faça diferença alguma. Homem suficiente para esfregar dinheiro na cara de qualquer policial. Hoje, com vontade de fazer uma coisa maior, mais inusitada. Soube pela empregada que a mãe tentou se matar. Riu. Sentiu-se quase culpado. Chorou. Talvez ela tivesse feito isso por ele. Depois, soube que não. Acabou-se o pouco que restava. Oficializou a liberdade. Está tudo monótono. Precisa de cocaína. Alegre como deve ser, sai em alta velocidade pelas ruas. O sinal fechado. Um garoto magro atravessando a faixa. Acelera e arranca. Ouve o som oco do corpo jogado sobre o pára-brisa. Os pneus cantam. Sente o vento no rosto. Bom isso. A noite continuará sendo longa.

Rubens da Cunha, escritor




Escrito por Belvedere às 20h36
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de cantos

 
Já sonhei com um canto que me fosse mais que sol;
 que me fosse seu nascente e poente.
 Um canto que me trouxesse calor e luz.
 Um canto para pisar descalça
 e amanhecer embriagada pelo hálito doce do beija-flor.
 Um canto onde convivessem, e harmoniosamente, tantos outros cantos !
 E onde o chegar ou o sair fosse tão natural
 quanto o nascer e o morrer, como o rir e o chorar.
 Um canto espaçoso, inda que minúsculo;
 imenso e  infinito, inda que me coubesse na palma da mão.

 Pena que alguns sonhos simplesmente não podem ser!
 
Linda Maria



Escrito por Belvedere às 12h44
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Deus
Luiz Maia

    É sempre muito interessante começar o dia refletindo sobre o nosso cotidiano. Podemos perceber, por exemplo, quantas coisas boas deixamos de receber da vida quando nos afastamos da natureza, absorvidos que estamos - quase sempre - com a correria da vida moderna.

    Após a luta de mais um dia pela sobrevivência, o homem sente falta da felicidade e tenta buscá-la muito distante, esquecendo-se que ela está ao nosso lado e que poucos se apercebem disso. Aprendemos com o passar do tempo que aquilo que nos causa prazer e alegria neste mundo certamente só iremos encontrar nas coisas simples da vida.

    Faça da sua rotina o caminho que o levará mais próximo a Deus. Felicidade mesmo é você poder acordar cedinho e logo agradecer a Deus pela ventura da vida. É poder ficar olhando a lua cheia nascendo - como se estivesse saindo de dentro do mar - e, emocionado, com os olhos cheios d'água, ter o prazer de reconhecer a mão do nosso Pai, segurando nossas vidas e nos brindando com esses fenômenos maravilhosos.

    Quando a brisa mansa tocar o rosto seu, entenda como sendo o abraço de Deus por estar feliz por você existir. Ao ouvir a passarada, anunciando mais um amanhecer, reconheça no canto de cada pássaro a sinfonia d'Ele para encantar o seu viver. Quando você olhar os campos de trigais, observe, na sutileza de sua beleza, espécie de renda sedosa jamais vista em nenhum lugar. A natureza quando vista com os olhos do coração tem efeito benéfico e curador de inúmeros males.

    Não perca mais tempo buscando no conforto material a alegria que você só poderá ter quando abraçada estiver à natureza, de forma inteira, plena e responsável. Curta as estrelas embelezando as nossas noites sem nada pedir em troca. Contemple o sol que nos aquece e nos dá a luz para que possamos enxergar a beleza do mundo ao nosso redor. Observe mais vezes a chuva que cai, as águas que deslizam da cachoeira, os pores-de-sol, a noite mansa trazendo-nos consigo o silêncio que nos inspira a entender que Deus é a fonte da vida.

Fraternalmente,
Luiz Maia
http://geocities.yahoo.com.br/maialuiz/    
msn: luizmaia1@hotmail.com    
Autor dos livros "Veredas de uma vida", "Sem limites para amar" e "Cânticos".

"Não entendo a vida sem os gestos de carinho entre pessoas
que se querem bem, muito menos sem as necessárias atitudes e ações
solidárias vindas até mesmo de pessoas que nunca se viram antes."
(Luiz Maia)



Escrito por Belvedere às 19h05
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  Vazio

 

O papel estava branco quando o pus à minha frente. A noite era tempestuosa e a natureza vibrava, libertando raivas acumuladas contra a vaidade dos homens.

Era o cenário perfeito para criar, inspiração para arrancar do pensamento o húmus da terra espiritual que lavrei ao longo de decénios de experiência e emoções.

No mais recôndito da memória o caleidoscópio da minha infância ditava recordações, histórias suaves ou assustadoras que me tinham alimentado o imaginário até perceber, com grande desilusão, que havia ficção e realidade.

Só mais tarde compreenderia que a ficção também pode assumir a forma do real e funcionar como sucedâneo de fenómenos objectivos ou subjectivos.

Sobre o papel meu confidente continuei a verter lágrimas amargas, alinhei os pesadelos e saudei com calor as fugazes alegrias que se me foram deparando, caminhante impenitente, ao longo do trilho complexo da vida.

Valores, aqueles que me inspiraram a educação no seio da família extensa em que tive a sorte de nascer, também os deixei cair e assisti, observador participante, ao conflito com o seu negativo fotográfico, a todas as agressões éticas que me foi dado presenciar.

Lembrei-me de que já era adulto, grande salto constituíra essa constatação no momento em que adquirira espírito crítico e me apercebera de que tudo quanto se pensa, faz ou diz não só é apreciável mas até classificável numa escala que, infelizmente, não é comum a todos os seres humanos.

Envolvi-me na música e Mozart, o perfeccionista, ainda mais veio ajudar a fluência das ideias e a autenticidade das confidências.

Falei verdade com elevado padrão de exigência, gastei tempo, passei horas na imaginação desta peça literária que bem poderia vir a ser o melhor dos auto-retratos, a introdução ou o epitáfio do meu livro de memórias. Quando um dia passasse o limiar da vida, ao menos deixaria isto.

As lágrimas continuam a correr mas são apenas de comoção, nem de alegria nem de tristeza. Tenho os óculos embaciados e a tempestade amainou um pouco, a imortalidade da sinfonia já se sobrepõe ao prosaico bater da chuva nas janelas do meu quarto.

Sobrevém o cansaço, sinto-me prostrado, o lápis tombou para o chão e a música calou a sua melodia envolvente. Mas ali está o melhor da minha vida. Limpo os óculos: ainda estava todo branco o papel à minha frente.

 

joaquim evónio

(in “Sombra em Clave de Sol”, Contos, Esgotado, Univ. Ed., Lisboa, 1999)

 

Seja bem-vindo ao meu site - Varanda das Estrelícias


Escrito por Belvedere às 07h16
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