Corrupção – Paixão inevitável da alma humana?
(IsarMariaSilveira)*
Falar em corrupção é nos afastarmos das boas qualidades do homem e fazer uma viagem pelo lado obscuro da personalidade humana, uma vez que associadas a ela estão a inveja, a ambição desmedida, o ciúme, o mau caráter, a falta de ética e de valores.
A corrupção no Brasil, esteve presente em todos os governos, do mais democrático ao autoritarismo dos governos militares. Ela foi assimilada pela população como atitude normal entre os políticos
Recebemos informações quase diariamente a esse respeito, via televisão, jornais e revistas. Sem precisar procurar muito somos informados do que acontece a nível nacional com pessoas de expressão em nosso panorama político e social.
É preciso salientar que a corrupção não é uma característica unicamente brasileira. Ela acontece tanto em países do chamado mundo desenvolvido como em países do terceiro mundo. Na Itália, há bem poucos anos, estourou um escândalo que derrubou o governo. Vou mais além, os pensadores e filósofos desde Platão falam em corrupção. Para os gregos, corrupção era uma das paixões e as paixões não eram virtudes pois, estavam associadas ao descontrole das atitudes e da personalidade. A paixão ultrapassa os limites lógicos da razão, sua intensidade embaça a lucidez tornando-se obsessiva quanto mais difícil for alcançar o objeto desejado. Hobbes, Locke, La Bruyère e Rousseau célebres pensadores também falaram em corrupção. O nosso Luiz Fernando Veríssimo – que não é tão célebre quanto os citados - também deu sua contribuição:
Corrupção, você talvez se interesse em saber, vem do latim. "Corrumpere" quer dizer quebrar completamente, inclusive moralmente, o que significa que quem foi corrompido não tem mais conserto não importa o que diga sua assessoria de imprensa. O mais inquietante, no entanto, é que da mesma origem latina vem a palavra "rota", através de "ruptura, que virou "rupta no latim vulgar, um caminho aberto ou batido e que está na origem do francês "route", de "rota" e de "rotina". Quer dizer, há poucas esperanças da corrupção deixar de ser rotina no Brasil: até a etimologia está contra nós."
Eu ainda prefiro Rousseau. Em "Contrato Social" o autor nos fala de um homem bom por natureza. Ao elaborar sua tese, em que contesta Hobbes, Rousseau identifica o homem em estado de natureza como um ser amoral, com amor-de-si, piedoso buscando a conservação. Esse homem que vive em isolamento, tem uma visão única de si e que não se identifica com nenhum outro, é individual. Essa visão, no entanto, não é egoísta, ela simplesmente é, não compara.
O homem de Rousseau, começa a vida usando os sentidos; o racional ocorre posteriormente com o pacto para a construção do estado social. É no estado social que o homem começa a se perceber através do olhar do outro, perdendo a visão do individual e formando uma identidade a partir da aprovação ou reprovação alheia. Nasce, então, o amor-próprio e, com ele, as paixões: inveja, ódio, ganância, competição social. O ‘outro’ passa a ser relevante pois é através dele que adquire o conhecimento de si mesmo, forma idéias, compreende e entende o seu próprio mundo.
É nesse contexto que surge a corrupção. O amor-próprio é egoísta e ‘quer para si’.
A dependência da aprovação e aceitação do outro move os sentidos fazendo com que a paixão domine as ações.
O projeto de construção do ‘eu’ não é mais domínio privado e sim coletivo e, nesse intento, são considerados todos os valores que a sociedade ou comunidade impõe ao individual. O ‘ter’ e não o ‘ser’ toma posse dos sentidos nesse novo modelo que é o estado social. Para Rousseau, não está no homem a origem do problema e sim na deformação social que este novo estado criou.
Para mim também...
*Cientista Política
Escrito por Belvedere às 14h05
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