Diamante negro
de Rosane Villela
"... e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros...
Paulo Mendes Campos
O que pode o chocolate?
Pode lembranças, um pote cheio delas. Doces, amargas, inteiras ou recortadas. Pode viajar, se teletransportar na embalagem do tempo. Ser eski-bon, chicabom, choquito, batom ou um sonho desmanchando a valsa do pêndulo.
Pode colorir confetes, dançar cantigas de roda na boca, estalar bombas de amendoim, descansar no sunday como estopim, desejo fundo em castanhas de cristal.
Pode também lembrar o garoto. Mas, deste, eu não quero falar.
Quero me lambuzar só por cima, na cobertura de endorfina. Lambuzar gostoso na paquera, no "quer um pedacinho?", no sorriso maroto, nas mãos do dou-não-dou correndo solto, os gestos se enrolando, rocambole de suor com chocolate prometido.
E suor me lembra exercício que me lembra dieta que me lembra balança que me lembra o escondido. Crime fichado no preto-e-branco proibido . Escorrendo a culpa nos centímetros.
Números..."compra, moça, compra...quanto? um por R$2,00, três por R$4,00, mas se quiser este aqui eu faço um por R$5,00 e três por R$7,00."
Confesso, nunca entendi a matemática que me engordava, mesmo porque essa matéria não era a minha preferida. E, assim, eu não discutia.
Mas eu já disse. Não é disto que eu quero falar.
Do chocolate de amor do meu avô, sim. Traz junto o seu sorriso moleque, o cabelo cheio prateado sempre penteado, o porte vigoroso, as mãos enormes que me estendiam o doce abençoado na Ave-Maria das seis da tarde que minha avó, sentada e recolhida, sempre ouvia. Traz os meus passos do trabalho e o prazer com que me olhavam quando na casa deles eu ia.
Uma casa de postal, impregnada de aromas, que artimanhas de crianças escondia. No último quarto, na salinha de costura, um crucifixo e...
"Pelo amor de Deus, moça, compra." E eu comprava. Sem discutir a matemática. Embevecida pelos seus olhos-recheios-de-diamante negro que eu adorava.
Não sabia que, um dia, no lugar da caixa haveria uma arma apontada.
Outros olhos. Outra história. Desta vez, em embalagem amarga.

Escrito por Belvedere às 21h26
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"Ai Meu Deus"
Raymundo Silveira No tempo em que se pagava para trepar, no centro desta cidade de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção havia mais prostíbulos do que vontade de ser doutor na cabeça dos nossos jovens de hoje em dia. No perímetro limitado pelas ruas Duque de Caxias, Castro e Silva, Tristão Gonçalves e Sena Madureira situava-se, sem nenhum exagero, o lugar do planeta onde se concentrava a maior quantidade de lupanares por metro quadrado. A fim de disfarçar o caráter comercial do sexo no coração de uma das mais belas capitais do Nordeste, havia um eufemismo denominado "Pensão" para designar cada putada. Um pouco mais para leste, porém, a densidade "meritricial" era ainda mais intensa e onde se localizava o verdadeiro "bas fond", ou seja, o que havia de mais sórdido em termos de mercantilismo, aviltação, humilhação, servidão, escravidão e indignidade humana. Este "lixeiro humano" era conhecido nos bares freqüentados pelos bêbados, que possuíam um pouco mais de compostura, por "Cinza". Mas para aquelas pessoas para quem o corpo de uma mulher valia pouco mais do que o de um animal sem dono, aquele mesmo ambiente atendia pela graça de "Curral das Éguas". As "pensões" recebiam os clientes da classe média para cima. Já os estudantes, marreteiros, maconheiros, pilantras, vagabundos e outros marginais menos bafejados pela Casa da Moeda, eram atendidos no dito "Curral das Éguas". José Ribeiro era um estudante pobre, oriundo do interior do Estado e se preparava para ser doutor num dos cursos pré-vestibulares mais baratos da capital e morava, com mais meia dúzia de colegas, numa "república" (ainda hoje não entendi o porquê deste nome), contendo um só compartimento de mais ou menos quarenta metros quadrados e um banheiro. Uma densidade humana ainda maior do que a do "curral", mas com uma diferença crucial. Enquanto na "Cinza" circulavam alguns trocados a cada noitada, na "república" do Zé, dinheiro era uma palavra praticamente ignorada. Ele se alimentava duas vezes ao dia, mas o seu cardápio era variado. Pelo almoço, comia um ovo com arroz e ao jantar, arroz com um ovo. A antiga Praça do Ferreira era o ponto de convergência de vários estudantes, não apenas da aldeia natal do Ribeiro, como de muitas outras. Certa noite ele deparou ali com um amigo de sua família, funcionário público e um dos "hóspedes" mais freqüentes das "pensões". "Ribeiro, vamos comigo dar uma volta na casa das primas". (Prima, não carecia de dizer, mas era mais um eufemismo; este para puta). O barnabé "amigo" do Ribeiro já estava muito acima daquele estado que Humphrey Bogart sonhava para a humanidade inteira, isto é, com três doses de uísque na cachola. "Ah, amigo, quem me dera. Não possuo um puto com que pagar a puta mais barata do curral". "Não seja por isso, amigo, eu subsidio tua trepada e depois tu me pagas". Ribeiro ainda cogitou consigo: só se for com rezas, terços e novenas. Todavia, jamais poderia descartar sem mais nem menos aquela chance de ouro, logo ele, cuja "mulher", havia mais de uma ano, era ninguém menos do que a sua mão esquerda. Ribeiro era canhoto. "Bom, sendo assim vamos lá". Seguiram para o "Bar da Alegria", a "pensão" ou "hotel" cinco estrelas da época. Ribeiro nunca havia sequer entrado lá. Cada mulher que via comparava com as lindas atrizes italianas e roliudianas dos filmes aos quais tanto assistira no precário cinema da sua aldeia. Nas suas retinas só se projetavam Avas Gardners, Ginalolobrígidas, Sofias Lorens, Niñons Sevillas, Suzanas Manganos, Elizabeths Taylors" e, por aí. O futuro doutor estava embasbacado. O financiador de Ribeiro aproximou-se da "Silvana Mangano" e murmurou algo em seu ouvido. Esta riu-se, olhou para o Zé, fez um sinal afirmativo com a cabeça e se dirigiu a ele. "Vou ficar com o teu amigo neste quarto. Toma a chave daquele outro vizinho, te despe e te deita. Logo mais irá uma mulher deitar-se contigo". Ribeiro achava que estaria sonhando, mas fez precisamente como lhe fora orientado pela "Silvana". Despiu-se, deitou-se e esperou. Meia hora, nada. Enquanto isto no compartimento vizinho ressoavam gemidos femininos prolongados que só faziam aumentar-lhe a excitação que ele, a muito custo, controlava. Uma hora, nada. Os gemidos agora eram mais intensos e mais prolongados. Duas horas. Os suspiros, os gemidos, os "ai meu deus" não cessavam um só instante. Ribeiro chegou a cogitar, "isto não é um homem, é um maçarico!" A essas alturas Ribeiro não suportando mais, convocou a sua "canhotinha" a fim de satisfazê-lo. Fez isto nada menos do que três vezes porque a outra "estrela" deveria ser cadente e a estas alturas talvez já estivesse no fundo do oceano. De repente ouviu três batidas fortes na porta. Correu com o coração aos pulos e a abriu. Era o amigo barnabé. "Zé Ribeiro, se quiseres podes ficar aí; vou-me embora. Aquela égua me enganou. Ficou desde aquela hora até agora gemendo sem parar com dor de dentes. Tem um bruta piorréia, a sacana".
Escrito por Belvedere às 21h12
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Escrito por Belvedere às 21h12
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Buscas
Rosa Pena
Não tente entender a fala do poeta. Ele não fala de coisas, mas de inventos, de insanas buscas no esquisito, das cores e matizes do grito, dos cheiros e sabores do vento.
Não aprecia jogos óbvios ou claros nada que for comparado ou medido, prefere sempre os ilógicos, porém raros.
Daí viver eternamente em divergência. Nunca conseguir ser comedido, enfatizar a improcedência, viver com o coração partido.
*2003*
"Eu ando meio com medo que um dia ache a tristeza normal.." RenatoTeixeira
Escrito por Belvedere às 12h24
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OS NAVIOS QUE ELE DESENHAVA
para o José António Gonçalves
Cissa de Oliveira
As cartas.
Era quando chegavam, misturadas, as notícias sobre
flores que cresciam de uma hora para outra,
dos entardeceres que se davam quando bem entendiam,
da impaciência das pessoas que o esperavam
enquanto ele ainda tentava selar à saliva alguma missiva,
de como eram as caixas dos serviços de correio na sua cidade,
dos cinco ou seis livros lidos
concomitantemente, e de outros, muito interessantes,
distribuídos pelas mesas, estantes e até ao lado da cama,
e quase sempre repetia sobre as suas pestanas
que pouco se encontravam, nas madrugadas.
E ele desfiava tantas cores, tantas letras, que
mesmo agora seria impossível não sentir a sua respiração,
o tato, os pensamentos, e mais se encantar,
quando lá pelas tantas ele ainda estampava na carta
uma figura qualquer: um coração alado,
uma flor num laço, um gato trajando fraldas,
um castelo, uma praia, uma boca rindo como se risse alto,
um pássaro no azul claro, coisas que eu fui colecionando
dentro das cartas e da memória perfumada
com a maresia das palavras.
"- A vida é breve. Numa hora dessas eu me vou.
A verdade, não te esqueças, aparece mais
no que não é falado".
Escrevia tudo isso como se fosse a crônica do dia
para o jornal local, vez por outra deixando claro
que possuía uma pobre vida:
era ele o próprio Charles Chaplin, num filme.
Era então que eu exagerava pedindo fotografias
onde ele aparecesse com cartolas, bengalas,
alguma flor na boca, mas bem poderia ser um cachimbo,
um olhar de mil palavras, um bigode mesquinho,
um andar típico.
Comigo eu me ria, séria, entre as metáforas,
imaginando-o noutros mundos, na leitura de Pessoa,
Leopardi, Oscar Wilde, Vinícius, Allan Poe, Rimbaud,
Baudelaire e até Ezra Pound. Fazem bem pra alma.
Só temia que voltasse a Hermann Hesse, nunca se sabe.
E se ele resolvesse incorporar O Lobo da Estepe
e, proposital, partisse para outras esferas
deixando os leitores a contar
os navios que ele desenhava nas cartas?
Mas quase nada dessas coisas eu lhe falava
que também eu tenho as minhas verdades.
Em vão. Ele as intuía e intuía mais pois prometia
sem mesmo que eu lhe pedisse,
usando letras frescas a tinteiros coloridos:
não ia se esfumaçar como pássaro no ar,
não ia.
Cissa de Oliveira
19/07/05
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Escrito por Belvedere às 21h46
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