Sarau da Belvedere


Réquiem

 

Artur da Távola

Descanse em paz, Jean Charles, brasileirinho honrado, 27 anos, de nome francês, sendo natural do Córrego dos Ratos, zona rural pequenina, ao lado de Gonzaga. Seu crime foi sonhar com a idealização da superioridade humana (aparente) do Primeiro Mundo. Descanse em paz, Jean Charles, vítima do lado louco deste planeta de provação.

Descanse em paz, Jean Charles, mártir da estupidez e da indústria armamentista por trás, sórdida, de tudo isso.

Descanse em paz por sua vontade férrea de trabalhar e estudar, ser e crescer, humana e profissionalmente, como é próprio do povo pobre do Brasil.

Descanse em paz, Jean Charles, com a alma a pairar sobre a cidade de Gonzaga e ver o carinho e a lágrima de quem o conheceu. Beije sua mãe, tão gente, e seu pai símbolo e síntese do honrado e esquecido agricultor.

Descanse em paz pelo martírio que o iguala a milhões de vítimas da barbárie, as vítimas dos Bush, dos Blair, dos terroristas de qualquer matiz, dos violentos, dos assaltantes, dos assassinos, dos ladrões, da coisa pública ou privada, dos exploradores do povo.

Seu martírio, Jean Charles, sintetiza a dor de mães que choram a perda dos filhos arrancados da vida, ceifados como árvores da Amazônia, sacrificadas pela sanha das motosserras.

Seu martírio está entre os exemplos que ajudarão a humanidade a pensar nas causas da violência, filha maldita da ambição sem medida e da perda dos valores de vida na sociedade globalizada, armada, atéia, intoxicada, fascista e cheia de “ista”, materialista, individualista, economicista.

Seu martírio, Jean Charles, o iguala aos santos inocentes vítimas de tragédias comuns a cada momento da História, hoje agudizada pelo terror atômico, a destruição do ambiente e a banalização da morte.

Deus o abençoe.




Escrito por Belvedere às 17h07
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De nada sei

 

Para o José Félix

 

 

Cissa de Oliveira

 

 

Penso que são pedacinhos do todo exibindo a alma

da rocha, o mar no embalo das falésias à noite, o calhau,

o carvão, talvez, no adivinhar da tela. Renoir.

Felicidade.

 

Teriam a calma que precede a ensurdecedora

loucura da lava, a corrida das sombras e a força

das luas no movimento das águas, teriam.

 

Mas guardariam consigo os tesouros dos rumos

perdidos na dobradura dos mapas antigos,

a dor de algum amor, os pudores reservados

aos conventos de outros olhos?

 

De nada sei dos teus olhos.

Nem do que fazer da escuridão para sempre verde

dos espelhos que eu nunca inferi.

 

 

Cissa de Oliveira

16.07.05

 

 



Escrito por Belvedere às 16h53
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Rendilhado

 

   Ao José Gil

 

é de mármore a liquidez da palavra

se adormecida no céu da boca

como um beijo de Rodin

 

e de brisa é o peso do poema

construído com as flores brancas

 

acosteia o teu barco

o sal e todas as linhas tecidas

com o pulsar dos horizontes

 

a minha renda emerge

rente à tua onda

 

 

 

Cissa de Oliveira

08.07.05

 

          



Escrito por Belvedere às 16h53
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SERIAM AZUIS ESSES CAVALOS

Cissa de Oliveira

Nos dias de São Paulo há um céu
que tem por hábito exibir azuis acinzentados
por entre os vidros dos prédios, das casas, dos carros,
e também por entre os galhos das paineiras e dos ipês,
quando é tempo, enfileirados nas ruas largas.
São tons voláteis como os perfumes das crinas
dos cavalos recém surgidos
do sol da tarde.

Nas noitinhas os bairros aspiram
as tochas de fogo plissadas
do bairro da Liberdade,
e eu fujo da indiferença dos semáforos
suspirando antes de retomar a contagem
das apressadas luas de mercúrio dos postes,
pela janela do carro.

Não há batalhas cósmicas,
nem dragões ou cavalos alados,
e nem mesmo o Caetano para consolar
pelas ondas do rádio.

O trânsito pára e os versos reclamam
ainda embaralhados nas anotações
distribuídas em papeizinhos avulsos,
nas páginas das agendas e até no papel do pão
de hoje de manhã.

Imagino os outros,
os dos livros prediletos da estante da sala,
e o que eles dizem sobre as luzes das cidades.

Depois vôo mais alto,
(penso nas bromélias nascidas
nas sombras das serras,
nas dunas de areia branca do litoral
e nas paredes de espumas
das casas do mar),
é quando volto aos cavalos:

seriam azuis esses cavalos,
e alados,
como o coração das chamas
quando palpitam feito sangue em São Paulo,
no oceano das noitinhas iluminadas.
 
Cissa de Oliveira
12.07.05
 
 
 


Escrito por Belvedere às 16h51
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SOBRE EMPRÉSTIMOS E SOBRE IDOSOS

Luiz Carlos Amorim



 




 

Ainda aproveitando o gancho que ficou do concurso literário do qual fui jurado, falei, na crônica "A Produção Literária", que dentro os vários gêneros que participaram, havia uma obra sobre um ancianato, de Joinville. O autor entrevistou as pessoas que estão lá, para saber porque estão lá, como são tratados naquela casa e porque não estão fora de lá, na própria casa ou na de um filho, um parente. Um bom livro, diga-se de passagem. Chama a atenção da gente, mais uma vez, sobre como tratamos nossos idosos. Mostra que, mesmo aqueles que estão lá, amparados, sofrem terrivelmente de solidão, a maioria deles. Então a gente fica pensando como estarão aqueles idosos sem recursos, que estão à mercê de uma aposentadoria irrisória e um sistema de saúde brasileiro falido.

E falando em aposentadoria, me vem logo à mente os inúmeros "bancos" que oferecem empréstimos facilitados, sem nenhuma exigência, por telefone, aos aposentados. Fico indignado com a desfaçatez dessa nova modalidade de empréstimos, que tantos "bancos" - e cada vez aparecem mais, até os tradicionais estão aderindo - esfregam na cara de nossos idosos, porque o pagamento é garantido: é descontado diretamente da aposentadoria, com o aval do INSS. Não interessa, para quem dá o empréstimo, se vai sobrar pouco ou quase nada do já minguado dinheiro que eles recebem, o importante é que o lucro é certo. Onde estão nossos governantes, que não vêem o engodo que é esse empréstimo?

Já existem até aposentados que tiverem desconto na sua folha de pagamento, mesmo não tendo pedido o empréstimo e sem ter recebido nenhum dinheiro. E não sou eu que estou dizendo. Isso foi amplamente divulgado por todas as mídias.

E fico ainda mais indignado ainda quando vejo pessoas importantes, atores e atrizes, apresentadores de TV consagrados, fazendo propaganda, induzindo as pessoas a fazerem esses empréstimos.

Ouvi alguma coisa no noticiário acerca de movimentos populares reivindicando uma revisão nesse estado de coisas e que o INSS iria estudar a situação, já que muitos aposentados foram lesados por esse Brasil de Deus.

Esperamos que alguma coisa seja feita para que esse abuso para com o aposentado não continue, para que ele não seja mais explorado do que já era até então.



(
Luiz Carlos Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do
Grupo Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa, Poesia & Cia.
lc.amorim@ig.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-037.htm
Florianópolis, SC



 



Escrito por Belvedere às 16h00
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INVENTÁRIO DA CIDADE QUE ME HABITA
 

Cidade portátil. Dois ou três quarteirões entrincheirados no útero da memória. Um ramalhete de amigos partilhando tombos e projetos. Trinta e três parentes povoando o subconsciente da geografia citadina. Esquinas atapetadas com promessas que contemplam de soslaio a vida que galopa na garupa de si mesma. Avenidas semeadas com perguntas instigantes que desprezam quase todas as respostas. Um ar límpido ocupando militarmente os pulmões da urbe. A felicidade ejaculando instantes nas entrelinhas do tempo. Noites de lua cheia num céu sem culpa no cartório. Silêncios amestrados em todos os idiomas. Esperanças florescendo e murchando em suas veias. Dias plenos de desdita e recompensas. Poetas recitando praças abertas e jardins floridos e passarinhos rindo e crianças gorjeando.

Cidade-gente. Cidade humana, eu.

 

Bruno Kampel  é analista político, poeta e escritor.
Reside atualmente na Suécia.
bruno.kampel@gmail.com  
Antologia cibernética: http://bruno.kampel.com
Revista Poetika: http://poetika.kampel.com
Blog de Bruno Kampel: http://brunokampel.blogger.com.br
Blog sobre Israel/Palestina: http://shalomshalom.blogger.com.br

 



Escrito por Belvedere às 15h57
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Por que escrevo?

Inspirado em "Por que Você Faz Cinema?", de Joaquim Pedro de Andrade

Escrevo por prazer: meu e das letras deleitosas. E porque não restou mais nada, pois o cineasta que eu seria foi impedido pela geografia e o músico foi impedido pela falta de coordenação motora.
Escrevo para que o sangue voe os abismos como se fosse águia e pela águia, pois ela faz poemas melhores que os meus quando voa. E pelo desejo de dizer-redizer-desdizer. Para rezar os verões que tanto gosto. Entender o tempo incógnito que permanece em mim, me envelhecendo. Escrevo para que a alma retorne ao corpo. A dor também é motivo. É preciso confessar. Psicólogos cobram caro. Padres cobram caro. O papel me dá seus ouvidos e demais buracos gratuitamente. O papel é uma prostituta apaixonada. Escrevo para gozar e porque tenho bom vocabulário. E pelo poder de ser escritor. Apesar de fajuto, é um poder. É bom ver nos olhos dos alheios uma admiração embasada nas velhas certezas que quase todos têm, quando o assunto é esta raça que escreve: somos românticos, sofremos, sabemos rimar, somos chiques e inteligentes e sensíveis. Donos da verdade também somos. Escrevo por estas máscaras que nos colocam. Escrevo porque mesmo sabendo que viveria sem escrever, agrada-me desobedecer o famoso conselho de Rilke e para ser algo que não é reconhecido profissionalmente neste País de baixo trópico. É minha pequena revolta. Meu pequeno embargo à Pátria.
Escrevo para que o caçador em mim tenha mais cabeças de rinocerontes pregadas na parede. Por maldade. Por instinto. Por aquilo que não explico quando olham para meu texto e dizem que eu escrevo difícil. Escrevo porque é fácil ser difícil. A simplicidade é para os gênios. Eu não sou gênio. Sou mais um cego teimoso.
Escrevo para que outros poetas possam me ler. Aprendi alguns sonhos com Fernando Karl. Apreendi algumas métricas com Bilac. Escrevo porque li em voz alta a "Invenção de Orfeu" para uma amiga. Foram noites álmicas aquelas. É preciso gastar as memórias, lapidar a imaginação. É necessário inventar a vida. Por isso escrevo: eis meu lance de dados.
Escrevo porque ainda não pediram para eu parar. E é a melhor forma que eu conheço de mandar mensagens subliminares. Por covardia. Por alegria. Porque não me chamo Raimundo nem José. A vida segue e minha alma Quixote escondeu-se nas mãos. Posso ser surrealista, barroco, parnasiano, pós-moderno, simbolista. Estou num tempo em que tudo posso. Escrevo por estar preso neste cárcere e porque aprendi a mentir desde cedo.

Rubens da Cunha



Escrito por Belvedere às 15h45
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PANGARÉ DOS TEMPOS

 

Viegas Fernandes da Costa

 

Não me perguntem por que fui cursar História. Não saberei responder. Bem como não saberei dizer por que, certo dia, pus na cabeça idéia fixa de escrever, publicar livro. Já lecionar, lembro-me, veio naquele sonho sonhado no sótão em que morava meu quarto, na casa dos meus avós, agora dilapidada pela cobiça familiar. Sonhei-me lecionando, coisa inconcebível na minha puberdade, aluno medíocre que era, e por isso não prestei muita atenção. Mas aconteceu sem programação: certo dia uma feira de profissões, a oferta do curso de magistério e um adolescente convencendo a família de que seria professor. Estamos aí. Quanto à História, não sei; literatura então, muito menos. Simplesmente aconteceu, como acontecem as coisas realmente importantes: uma lufada de vento, o pólen no infinito e a pedra no rio, petardo certeiro moldando um destino. Tchibum! E assim foi! Não cometerei o erro do dom.

O erro do dom... Sim, recordo-me de um artigo do filósofo francês Pierre Bourdieu onde este questionava o mito da predestinação. Aquela história de que “desde criança fulano já demonstrava suas inclinações para ser isto ou aquilo”. Nem isto, muito menos aquilo: em criança desejava apenas brincar e olhar o que se escondia sob as saias das vizinhas – tão bonitas! Nada mais. Mas conta a Dona Anneli - minha mãe - que eu era uma criança chorona e que, para aplacar lágrimas e berros, entregava-me exemplares da sua revista Pais & Filhos. Não os rasgava, como precipitadamente o amigo leitor, a amiga leitora, já deve estar supondo. Os dedinhos gordinhos da criança de então pegavam exemplar por exemplar e folheavam as páginas de trás para frente, com cuidado, os olhos se demorando nas ilustrações e nas fotos de outros bebês. Dona Anneli pendurando roupa no varal, olhar de soslaio, meu sorriso e meus olhos espantados, os dedinhos gordinhos tocando o papel. É certo, assim começou o desejo pelo impresso, este poder erótico que livros e revistas sempre exerceram sobre mim, tanto que os namoro na estante, nas pilhas sobre a mesa, nas vitrines das livrarias. Mas daí a dizer que estive destinado, desde zigoto, a plantar palavras, vai uma grande distância; que o digam meus professores de português, verdadeiros heróis.

Hoje, escrevo porque a vida dói, parafraseando o artista plástico Iberê Camargo, e é tudo! Quanto ao resto, construí-me leitor, palavra a palavra, livro a livro, como a máxima da galinha que enche seu papo comendo de grão a grão o milho. A vida dói, pois é! Talvez também isto tenha me empurrado à historiografia, da literatura a outra face da moeda, pois como escrevia, em crônica de 1877, Machado de Assis, “um contador de histórias é justamente o contrário de historiador, não sendo um historiador, afinal de contas, mais do que um contador de histórias”, e explica: “o historiador foi inventado por ti, homem culto, letrado humanista; o contador de histórias foi inventado pelo povo, que nunca leu Tito Lívio, e entende que contar o que se passou é só fantasiar”. Entender a cartografia da dor, talvez, e dialogar com o mundo, quem sabe? Novamente a lembrança do velho sótão onde morava meu quarto; a casa, uma mansarda que abrigava nos cantos do telhado pequenos depósitos de coisas velhas dos tempos de juventude dos meus avós e tios. Quartinhos quentes e escuros, teto baixo e inclinado, onde investia horas e horas das minhas adolescentes tardes de ócio fuçando naquelas malas...

Sim, aquelas malas de madeira, enormes, empilhadas no fundo do quartinho. Afastava as telhas para que o dia pudesse clarear os seus segredos: antigas cartilhas e cadernos escolares, as revistas Cruzeiro, as primeiras edições das Seleções e o número um da Manchete, traças, muitas traças, e os enormes negativos das fotos tiradas na antiga “América Box” – quem seriam os personagens nas imagens desbotadas e nunca mais reveladas? Então... também as cartas, de amor, de paixão, escritas em alemão e péssima caligrafia de homem do campo  - meu avô -  semi-alfabetizado , empilhadas a um canto, ao lado dos postais, das revistas em quadrinhos e dos almanaques de farmácia com suas propagandas de xaropes e laxantes. Ah... os almanaques! Neles descobri: como sofriam de sífilis os castos homens de antanho! Sífilis e prisão de ventre, que o digam os tantos anúncios! Mas como a casa, também este tesouro particular que escavavam meus olhos e mãos em segredo – proibida que era esta arqueologia pelo zelo de um passado desejado morto que cultivava minha avó – foi perdido na rapinagem familiar. Muito acabou no lixo reciclável, o que sobrou, sumiu. Ficaram mesmo foram estas lembranças de um arqueólogo mirim escavando o passado da família e o sentimento de sacrilégio: o devassar dos segredos esquecidos, das vergonhas escondidas. Naqueles quartinhos descobri o fascínio que o antigo exercia sobre mim, e me deixei seguir atrás dos ácaros, traças e manchas de mofo. E também nisto aqui estamos. Quixotescamente, sim, também nisto aqui estamos!

Afinal, eis onde me encontro, sobre o pangaré dos tempos que trota além das suas patas, os cascos soltos e perdidos em alguma curva lá atrás. Lecionar, historiar ou escrevinhar, todas faces deste mesmo Quixote montado nas utopias brotadas das sementes que o vento nos trouxe.

Pangaré sem viseiras, sem cascos, por isso aprender a pisar diferente. Não me arrependo.




Escrito por Belvedere às 15h43
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Bonito D+
 
Rosa Pena
 
 
O telefone tocou. Ela atendeu, mas ninguém falou. Não ventava, mas a penugem de sua perna anunciou mudança de tempo, não externo, interno. Arrepios de calor.
Ela desligou depois de segundos de total silêncio, e quase imediatamente tocou novamente. A voz apenas perguntou da onde era, e ela quase disse que era da casa da mulher que o amava.
Ele, com pouca naturalidade, perguntou como ela estava. Como se responde a um grande amor que o rio não tem mais ponte, que o perfume das flores está vencido, que o pássaro emudeceu, que o mar não tem mais sal, que São Jorge fugiu da lua? Apenas disse tudo bem comigo, e contigo?
Falaram do trivial, de som, de gravação, de chuva, de frio, de gripe.
A ligação caiu subitamente, assim como a intimidade deles havia caído.
O telefone tocou novamente. Desta vez ela atendeu com vontade de gritar versos e nomes feios. Meias de nylon, batom vermelho vieram a sua cabeça. Quase sussurrando perguntou baixinho seu nível de importância na vida dele. Ele respondeu que era muito. Amigos apenas, ela concluiu por ele. Mais, bem mais, respondeu o dono da voz. A anti-supermulher percebeu pela primeira vez a intensidade do sentimento dele, o inaudível canto do guerreiro que não pode se entregar por inteiro. Despiu as meias, e manchou o telefone com o vermelho do seu batom. Nada mais conseguiu ouvir, exceto um eu te amo dito baixinho por ele no final da conversa.Eu também, disse ela.Foi a primeira vez, e talvez a última que ele disse as três palavras mágicas.
Delicioso perfume de rosas espalhou-se pelo ar. O trinado do canário ecoou pela casa, e a vontade de salgar o corpo no mar à noite, foi enorme.
Naquela noite de lua cheia, ela brindou aos amores imperfeitos, cheios de defeitos, pois se perfeitos, não é amor. Apenas São Jorge de testemunha.
 
Julho de 2005
 


Escrito por Belvedere às 12h04
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A NUCA

 

Artur da Távola

 
 
 
Lívido pêssego de sabor transtornado,
jasmim secreto de Afrodite,
sonsa, poreja néctar
enquanto engendra
o ávido mistério seminal.
 
Alvo mosteiro de monjas lunares,
gatas eriçadas de arrepios
no milenar estranhamento
de desejos imemoriais:
ó placidez tormentosa dos lençóis.
 
Nuca de alvor e musgo branco
fada penugem roçada por lábios
na busca órfã do ázigo prazer,
película pétala, luz no claustro,
agro suor de lascívia e palor.
 
Íngreme e secreta nuca,
gruta sensual, oculto jardim
mio felino, excitado coleio,
tímido e lúbrico lírio germinal
pulcro reduto virgem da mulher.
 
 
 
 
 
         
 
 
 
 
 
 


Escrito por Belvedere às 09h56
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BODY AND SOUL

Bárbara Helena

"oh baby,
love me baby
love me
Just love me,
body, baby, and soul"


Saímos do teatro, os pés doendo, barro grudando nos sapatos. Tinha um bar na estrada, pertinho, dava para poupar o band-aid na sola ferida.

Marina cambaleava, navegando em martinis secos e molhados. Seu cabelo brilhante iluminava o encardido do lugar. Olhos azuis esgazeados, ela sorria para um mundo melhor, equilibrada em saltos sete e meio.

Mimi pediu uma cerveja e bolinhos de bacalhau, com sua voz de pescadora de homens. O rapaz do balcão olhou para ela com vontade. Não era pro seu bico. Billie foi na mesma, com ovinhos de codorna. Eu no refrigerante apenas. Ninguém disse nada. Cada um por si e Deus contra todos. Cigarette Blues.

Estava enjoada, pés e alma pesados. O ovo colorido me encarava de sua solidão azul na vitrine suja. Era eu. Aprisionada ali, incongruente e turquesa, num mundo de moscas e bolos velhos.

Billie comia fazendo barulho, o dente de ouro brilhava no ritmo do mastigar. Marina entornou outro Martini e cambaleou. Mimi segurou seu braço com força de camponesa e ela se aprumou, de novo diva. Alguns fregueses nas mesas de madeira reconheceram o grupo, sorriram, nos ofereceram bebida.

Sentamos. O tampo molhado me aumentou a náusea. Body and Soul. A cadeira era dura e bamba, o mundo girou mais rápido, tentei ignorar. Um homem segurou meu braço, magro e banguela, ria babando. Afastei o braço, séria. Ele ignorou e aproximou o bafo fétido do meu rosto: gostosa! Me deu uma vontade incontrolável de rir. Até o enjôo melhorou.

Billie percebeu e gritou do outro lado da mesa: tudo bem aí? O homem grunhiu: tudo bem, amigo, tudo bem. Mas se afastou de mim.

Marina desmaiou na tábua úmida. Era nossa carruagem de abóbora, hora de virar sapo. Billie se levantou, pegou a guitarra, nós ajudamos Marina a conviver com a realidade mais alguns minutos e saímos pela estrada barrenta.

O hotel era longe e havia uma lua cheia - amarela, enorme, opressiva. Mimi resolveu cantar e eu rezei para que Billie não acompanhasse. Meu coração estava pesado demais. Marina ficou menos zumbi e sorriu. O sorriso cansado dela foi mais pesado de carregar do que o céu, os calos e a cantoria de Mimi.

Chegamos inteiros na portaria silenciosa. Pegamos as chaves do porteiro entediado e subimos carregando o fardo semi-morto de nossa estrela maior. Billie colocou Marina na cama, como mãe amorosa. Tirou seus sapatos, arrumou o cabelo louro despenteado nos travesseiros, beijou de leve os lábios entreabertos e cobriu o corpo ainda vestido de prateado.

Eu olhava tudo faminta e triste. Por mim, por ela, por Billie. Pela vida atravessada. Mimi perguntou da porta.

- Querem um café?

Eu não queria, não descia nada em mim, só giletes. Billie também recusou. Mimi cantarolou pelo corredor. Grande Mimi. A vida talvez seja simples.

Saímos de mãos dadas. Na porta do meu quarto, Billie parou, me imprensou contra a parede. Eu desmaiei de dor, virei o rosto. Ele me puxou e beijou minha boca com seu hálito de cerveja e fumete. Seu hálito de paraíso.

Tentei fugir, resistir, mas era tarde. Sempre foi tarde com Billie, meu Edvaldo de Cachambi. Dente de ouro, miséria, perdido de tudo.

A única coisa preciosa que eu já tive nesta vida maldita. Billie, meu ovo de botequim. Turquesa.




Escrito por Belvedere às 09h39
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Pudim de Cachaça


Maria Angélica Monnerat Alves

 

Baixo, negro, bigodes ralos. Os olhos, duas bolas avermelhadas. Os pés, inchados, crestados.

Era o Pudim. O Pudim de cachaça. Amigo das crianças, dos velhos e dos cães sem dono. Sua casa era a praça São Salvador. Como cama, os bancos de duras ripas de madeira.

Era o Pudim. Aliás, o Augusto. Era como queria que o chamassem. O “gusto” soava “guchhto”.

Sexta-feira era festa. Era feira. A praça se enchia de barracas coloridas, de feirantes sacrificados. As hortaliças, as frutas, os peixes, tudo era alegria para o Pudim. Nesse dia, ele esperava a hora da “xepa” e, infalivelmente, levava para minha mãe ora uma tangerina, ora um ramo de flores murchas. Chamava-a “madrinha”, porque ela era a única que o tratava pelo nome.

Os moleques da rua, ao fim de certo tempo, já não o importunavam mais. E o apelido, de trocista, passou a carinhoso.

Os motoristas dos ônibus que faziam ponto na praça, adotaram-no. No final de semana, pagavam-lhe a barba. No final do mês, o cabelo. E o Pudim passou a ajudar na manutenção dos carros. Por um nada, sentia-se importante.
A casa continuava a ser a praça. A escadaria do chafariz, o local ideal para curtir a bebedeira diária. E assim levava a vida o Pudim.

Num dia de inverno brabo, encontraram-no morto. Alvoroço na praça. Os motoristas se cotizaram, pagaram o enterro (teve até coroa!). E, sete dias depois, missa. Tudo dentro do usual.

A praça, agora, abriga outros moradores: bêbados, mulheres edemaciadas, crianças sem lar. Mas nenhum deles consegue ter a dimensão sentimental do Pudim. São anônimos, fila interminável de vidas mortas, nenhum se nos destaca.

Os motoristas de ônibus já não são mais os mesmos, as crianças cresceram, a feira mudou de lugar.

Entre o passado e a nova realidade, a imagem do Pudim permanece: comovente, patética, intemporal, dando-nos a certeza de que ele morreu Augusto, como sempre quis.

 



Escrito por Belvedere às 10h36
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