Sarau da Belvedere


MULHERES DE PASSADO

E

HOMENS DE FUTURO

 

 

 

Andréa era recepcionista, mas não gostava de pessoas. Ana Carolina era corretora, mas não gostava de vendas. André era médico, mas não gostava de doenças. Eduardo era jornalista, mas não gostava de notícias.

Moravam em Belo Horizonte. Andréa e Ana Carolina no mesmo bairro, e André e Eduardo em bairros diferentes. Conheceram-se na Casa dos Contos, numa sexta-feira de noite. Andréa comendo batata frita com ketchup, Ana Carolina, frango à passarinho, André, peixe ao molho branco, e Eduardo, salaminho e azeitonas. Sentaram na mesma mesa por acaso. Andréa vinda do hotel, Ana Carolina, da companhia de seguros, André, do hospital, e Eduardo, sem destino.

O restaurante estava cheio. Andréa chegou primeiro e Ana Carolina não tinha onde sentar. André jurou que já as conhecia e Eduardo esbarrou na mesa, sem querer. Andréa sorriu e disse que era a força do destino, e arrumou mais um lugar.

Gostaram de se encontrar e fizeram confidências. Andréa, nascida em junho, em Santa Lúcia, queria ser cantora. Ana Carolina, nascida em setembro, na Savassi, queria ser atriz. André, nascido em maio, em Itabira, queria ser violonista. Eduardo, nascido em novembro, em Portugal, não sabia.

Falaram do passado e do futuro, e resolveram prolongar aquele encontro. Andréa leu as mãos e fez horóscopos, e Ana Carolina quis saber onde moravam. André falou da fazenda, em Itabira, e Eduardo escutou, silencioso. Andréa gostava de cavalos e de matas, e Ana Carolina morava só e não tinha namorado. André sorriu e achou ótimo, e Eduardo ficou triste e pediu vinho.

Andréa brindou a Câncer e a Gêmeos, e ao seu perfeito entendimento, e lamentou o medo que Libra sempre tem do imperioso e angustiado Escorpião. Ana Carolina brindou aos homens de futuro e afirmou, seriamente, que os opostos sempre acabando atraídos. André sorriu e achou ótimo, e Eduardo tentou adivinhar a cor dos sutiãs.

Terminaram a noite com duas garrafas de vinho português. Andréa cantou Travessia e André fez do tampo da mesa um violão. Ana Carolina lamentou a miséria dos sem-terra e a violência dos pivetes, e foi ao banheiro vomitar. Eduardo rebateu o vinho com conhaque e pensou nos seios de Andréa nus, caídos num lençol.

Festejaram o fim do ano em Cabo Frio e passaram um fim de semana na fazenda de André, em Itabira. Voltaram a Belo Horizonte bem queimados e Andréa casou com André no mês de maio. Eduardo embebedou-se na Casa dos Contos e não foi ao casamento e morreu atropelado na Avenida Afonso Pena nessa noite, e Ana Carolina desenvolveu dons mediúnicos e apaixonou-se por um colega de trabalho, aquariano e malcasado.

Naquele ano, o Brasil foi campeão de Fórmula 1, sem disputar a última das corridas, e Mikhail Gorbachev publicou Perestroika, sem prever a derrocada.

 

Cunha de Leiradella

 

leiradella@clix.pt

 

 

 

 

 

 



Escrito por Belvedere às 13h52
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TODA NUDEZ SERÁ PREMIADA

 

Affonso Romano de Sant’Anna

 

 

Nelson Rodrigues errou. Errou ou estaria desatualizado hoje. Não é mais  verdade o que diz o título de uma de suas peças: “Toda nudez será castigada”. Isto foi na Idade Média, ou seja, antes dos anos 60 do século passado, quando a nudez era algo estranho, ameaçador e pecaminoso.

Nudez hoje é tudo.

Vejam a Karina, ex-secretária do Marcos Valério.

Vou lhes revelar como estou afinado com a sensibilidade de meu tempo: na segunda vez em que ela apareceu na televisão, eu disse alto: escreve aí, ela vai aparecer nua na “Playboy”.

O que teria me levado  a profetizar isto? Esta evidência: de uns tempos para cá a nudez deixou de ser castigo e vergonha com o foi no Éden. Lembram-se? Flagrados em falta, Adão e Eva envergonharam-se de sua nudez. Hoje, quando qualquer holofote ou refletor nos apanha vamos logo tirando a roupa e recolhendo a grana.

Desnudar-se hoje é ser condecorado. Ao invés da medalha na lapela, a luz da câmara sobre a nudez da pele. Não tem escapatória: atriz começa a ficar famosa, tem que se despir. Atriz ou moça que solta foguete no Maracanã, funkeira, secretária, etc. Daqui a pouco, candidata a deputada ou senadora que não se despir, perde a eleição. A ordem é o strip tease. E já começou o strip tease coletivo.

Nos anos 60 começou aquele tipo de happening: uma pessoa, várias pessoas, tiravam a roupa num campus americano, e saiam correndo para protestar contra a guerra no  Vietnam. Isto se generalizou, invadiu a arte contemporânea, aqui e ali pessoas se consideraram artistas só porque apareciam nus na própria exposição.  (continua)



Escrito por Belvedere às 12h31
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Hoje ficou célebre esse fotógrafo que registra multidões nuas deitadas em parques e avenidas. E outro dia este evento de nudez coletiva ocorreu até na China. Nada a ver   com a “ grande marcha” do camarada Mao pelas montanhas do país, agora  era uma multidão nua,  em  marcha, com outra revolução inscrita  à flor da pele.

Portanto, não é só Nelson Rodrigues que foi ultrapassado. Fernando  Sabino com “ O homem nu”, também. Aquela estória do homem que estando nu, vai apanhar o jornal na porta e fica trancado do lado de for a e inicia uma série de peripécias para esconder-se de todos, hoje virou filme para freira.

E  os jornais agora desnudaram mais um  capítulo na História da nudez humana( belo título de um  best-seller!). Está nos jornais. Um museu lá na Austria- o reputado Museu Leopold ( esse “reputado” ficou meio  esquisito aqui, reconheço), abriu uma exposição de arte com figuras nuas, mas estipulou que os visitantes poderiam ir nus ou com roupas de banho. E, na foto da notícia, lá estava, nuinha, uma mulher diante de vários quadros, bonitinha, seio empinadinho, bundinha durinha, de perfil olhando as telas nas quais havia outras mulheres, de outras épocas, igualmente nuas.

Faz sentido. Por que as pessoas têm que se vestir para ir ver uma exposição de figuras nuas? Acresce que lá é verão. Isto é o que se chama de arte total. A arte imita a vida, a vida imita a arte.

No Brasil, Gilberto Amado, Augusto Frederico Schmidt e Juscelino Kubstchek às vezes recebiam nus seus visitantes. Foram pioneiros. Luz del Fuego e Elvira Pagã foram também  pioneiras.

Se a moda pega , as butiques vão entrar em crise. E a revista “Playboy” e similares  não terão  mais compradores.

E-mail para esta coluna: santanna@novane



Escrito por Belvedere às 12h29
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O "MEU" REGIMENTO
 
Romeu Prisco
 
Trago permanentemente comigo um crachá que confeccionei, com os seguintes dizeres: "respeite o idoso e os seus direitos". Quando me defronto com situações embaraçosas à  terceira idade, além das simples filas bancárias, não hesito em usá-lo. Se for o caso, coloco-me à frente de todos, ou faço-me atender em primeiro lugar, desde que os demais sejam jovens, claro é.
 
Por isso,  há quem me considere ridículo, inconveniente  e, até mesmo, abusado. Ora, nem uma coisa e nem a outra. Apenas sou alguém que, depois de ter pagado a conta a vida inteira, faz valer seus direitos de idoso, ainda poucos, por sinal. Sempre que posso, incentivo e estimulo outros idosos, menos esclarecidos ou mais tímidos, para que procedam da mesma forma.
 
Ademais, querem saber ? Já cansei de circular por lugares que me impõem suas próprias regras, estabelecidas em "regimentos". É um tal de "é proibido subir", "é proibido descer", "é proibido  falar", "é proibido entrar", "é proibido sair", "é proibido sentar", "feche a porta", "aguarde a sua vez", "pague com dinheiro  trocado", "sorria que você está sendo filmado", "para ser atendido apresente RG, CPF, título eleitoral atualizado, certificado de reservista", "prova de regime matrimonial de bens", "atestado de antecedentes" etc. etc. etc.
 
Nessas condições, resolvi estabelecer o "meu"  regimento. Eis  o seu  primeiro artigo:
 
"É expressamente proibido locupletar as minhas medidas com "telemarketings" de qualquer natureza, pesquisas domiciliares, remessa de impressos, ofertas de salvação da minh'alma, abordagens por vendedores de lojas diante das vitrinas, ocupação irregular de passeios públicos, que me obrigue a andar pelo leito carroçável, esperas intermináveis nas ligações telefônicas com música de fundo, ou sob a alegação de que "todos os nossos atendentes estão ocupados no momento", promessas de "pronta entrega" não cumpridas, liquidações com preços imperdíveis, das quais "só restam" peças de uso pessoal com números e tamanhos para anões ou para gigantes, orçamentos que sofrem o milagre da multiplicação, ruído irritante de helicóptero pairado durante longo tempo sobre a minha residência para diversas finalidades, obrigação de chegar "rigorosamente" na hora marcada pelo médico e pelo dentista, para ser atendido horas depois, eis que os profissionais tiveram uma "emergência", ou se encalacraram no trânsito, tudo sem prejuízo de outros fatos desconfortantes, que serão oportunamente acrescentados."
 
E você, caro leitor, já  decidiu estabelecer o "seu" regimento ?

 
 


Escrito por Belvedere às 12h25
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As Ladeiras da Aclimação

                                       ( Quelquepart Island )                                          

 

 

Márcia  Denser

 

 

 

Novamente me fisgo pensando na Aclimação, esse bairro tão próximo e ao mesmo tempo distante de tudo: Quelquepart Island, ilha fora do tempo da Cidade, em meio a ladeiras intransponíveis. Na Aclimação ou no que restou dela para além dos conjuntos habitacionais revestidos de pastilhas azuis, lembrando monstruosos banheiros virados do avesso onde as pessoas não habitam, se debatem. Surdamente.

Para além da Japantown com suas lanternas e cortiços, a viscosa feira vermelha, sua promiscuidade por detrás de cortinas de bambu, tanto saquê e sorrisos untuosos e pequenos assassinatos, sua máfia de olhos de arroz (os tentáculos globalizados da Irakuza?); em todo caso,  para além da poluição que não se sabe exatamente a que atribuir, se aos automóveis, à proliferação de tinturarias, às frituras dos restaurantes ou aos coreanos clandestinos desembarcados em Santos, para além de quinze, vinte anos atrás quando a Aclimação era absurdamente (no sentido borgiano, se é que me entendem) uma ilha inviolada no interior da cidade.

Penso nas mansões decadentes cobertas de hera seguindo por ruas chamadas Esmeralda ou Safira ou Topázio ou Turmalina desembocando inesperadamente em secretas pracinhas improváveis (Brás Cubas? Polidoro?) com um tanque de pedra com seu jovem semideus adormecido coberto de limo emergindo por entre gerações de folhas mortas esmagadas por bicicletas fantasmagóricas jamais vistas, mas intuídas em seu sinuoso serpentear através de alamedas sombreadas por velhas árvores silenciosas e sempre às cinco da tarde ou da manhã, porque o lusco-fusco é a atmosfera permanente desse bairro labiríntico fora do tempo, que parece recolher-se mais e mais para dentro do Parque providencialmente gradeado pela municipalidade para consternação dos traficantes e respectivos clientes e gáudio de tantas babás e bebês e hordas de histéricos executivos fazendo jogging já a partir das seis da manhã.

Mas isso talvez fosse literatura. (continua)



Escrito por Belvedere às 14h07
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Porque se minha juventude existiu nalgum momento entre quinze e vinte anos, foi lá, só pode ter ocorrido lá e digo pode porque não sei, daí procuro no Aurélio aclimação: adaptação, ajustamento, aclimatação. Estranho nome para um bairro (ou esse estado de espírito que chamo juventude, essa passagem) que foi se isolando mais e mais da Cidade.

Mas naquela época eu me obstinava, QUERIA as minhas ladeiras, o antigo sobrado em cujo terraço traseiro tomava-se sol o ano inteiro, os quartos que se abriam para a extensa varanda gradeada onde me debruçava a ouvir o seco crepitar das copas das árvores, um automóvel a cada dez minutos, o mundo turbulando nalguma parte, mas bem longe, Debussy vazando o Aprés midi d’un faune pela sacada aberta para o silêncio perfeito das eternas cinco horas do entardecer ou amanhecer da Aclimação, onde o semideus crepuscular cuja face de Janus/Mercúrio simultaneamente espreita passado e futuro nesse entrelugar Trimegisto chamado juventude, que é só desejo, que é só promessa perpetuamente a ocultar o instante que passa pisoteando gerações de folhas mortas naquelas ruas, naquelas alamedas estáticas sob um meio-dia de dezembro ou janeiro, a menos que alguma bicicleta, um rolar de patins, uma buzina ao longe, fosse a nota falsa raspando o perfeito azul, uma derradeira primavera de barquinhos, a falsa paz.

Mas não será preciso fazer literatura.

Se minha juventude existiu deve ter ocorrido em algum momento na Aclimação. Há um vácuo de dez anos imprecisos de dor que obstinadamente tento esquecer ou não dar importância ou querendo dizer: se a juventude foi só isso então não valeu a pena, mas algo ainda enrijece na treva e obstinadamente ( sim, obstinadamente) se recusa a dizer que sim, que talvez fosse possível,  que todos aqueles anos que vivi, que vivemos, porque então era o plural, quando éramos quatro os que vivemos com aquilo que podíamos chamar uma família, claro que podíamos, porque foi lá que começou a se esmigalhar, miudamente, inevitavelmente carunchado por dentro o edifício do tempo começou a ruir, os pilares do altar onde eles juraram atar sagrados laços eternos se afrouxaram naquele sobrado da Aclimação, assombrado já  por outras vozes, outros pavimentos (may I, Truman Capote?),na mão que já não se completa em carícia, no abraço que se esquece pendente do corpo, no passo que se afasta e se aproxima, que se afasta e se reaproxima, que se afasta e desce as escadas e sai batendo a porta; no soluço enrodilhado no patamar, no tango em diagonal, em Aníbal Troillo amordaçado na vitrola, no verde que te quis Corrientes, num gato que porcelana, e no telefone tocando, ainda e inutilmente, num sobrado da Aclimação.

                         Como se todos estivessem mortos.

 



Escrito por Belvedere às 14h06
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Amigos queridos

 

Hoje quase detonei meu blog, tendo apagado muitos textos sem querer. Puro erro. Consegui consertar. não estranhem vendo a ordem dos textos, pois tive que trocar mesmo.

Mil bjs assustados demais,

Belvedere



Escrito por Belvedere às 13h43
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ENTREVISTA NA SAIDA DO NOVO LIVRO  -Editora Rocco

 

 

 

Affonso Romano de Santa’Anna lança seu livro de poesia “Vestígios”, quarenta anos depois de sua estréia, desfilando rastros e lembranças, amadurecimento e frustrações, prazeres e dores, numa relação vital com a palavra, que ele compara à mão do violinista, como parte inseparável do seu corpo.




Escrito por Belvedere às 13h39
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continuação

Há 40 anos, foi lançado seu primeiro livro de poesia. Você considera que o poeta da estréia tenha sobrevivido no poeta de “Vestígios”?    

 

Diria que meu meu primeiro livro “Canto e Palavra” é  meio profético senÃO emblemático sobre a minha trajetória. Ele, na verdade, profetizou o meu caminho de poeta que busca a elaboração a partir da intuição e da dedução. Canto significa emoção, o primeiro jorro, a tentativa de localizar o subsolo de alguma coisa, de você, de um fenômeno. Palavra é a maneira de configurar, organizar, dar plasticidade a este magma que surge e vai crescendo. Esta tem sido uma constante na minha história: fazer a forma falar. Descobrir dentro dessa força que vem de dentro, qual é a forma que está sendo exigida. Em “Vestígios” eu continuei pelejando para que o resultado fosse uma obra que não represente apenas um ajuntamento, mas um conjunto que caminha sistemicamente. Levei um tempo enorme para entender o que aqueles poemas tinham entre si, como eles estavam se aglutinando  e, finalmente, reafirmei o encadeamento deles como uma configuração do próprio sentido. Assim como o pintor que coloca uma última pincelada num canto do quadro e ele fica pronto.

 

Você considera que “Vestígios” é, então, uma obra que junta suas experiências e as pincela com a maturidade da existência e da forma? 

 

Diria que “Vestígios” é um livro polifônico, com grande abertura formal. Sem monotonia temática e verbal, trato de assuntos que são uma constante no meu trabalho e reafirmam um caminho que venho perseguindo desde o início de minha vida literária. O leitor vai perceber que, nele, estão reunidos  poemas de formas e dicções muito variadas, com os quais ele vai ter que dialogar. O livro tem alguns núcleos, como o que vê a história do Brasil tratada de maneira irônica. Outro traz poemas resultantes de minhas viagens, sobretudo à África e ao Oriente Médio, incrustados no grande problema político, social, ideológico e religioso de hoje, que é o conflito entre o islamismo e a civilização chamada ocidental. Este núcleo dá seqüência a uma preocupação com a história e o homem, que atravessa a minha obra. Tem uma volta à infância, uma série erótica e amorosa, uma avaliação do ambiente artístico e literário, poemas voltados para meu amor à pintura  e a preocupação  constante com a arte poética..

 

Este conjunto de poemas, que você intitulou “Vestígios”, respeita uma cronologia ou foi escrito de uma só vez?

 

“Vestígios” contém poemas feitos em várias épocas, poemas que não faziam parte de um projeto de linguagem que estava sendo desenvolvido naquele momento. Tem até alguns poemas escritos  nos anos 60, o que é muito curioso. Eu não os impedi que surgissem. Deixei-os à margem e esperei que fizessem sentido, em algum momento, na minha trajetória. De repente, você percebe um rastro, um vestígio entre aquele poema e o que se está produzindo agora. É como um diálogo no tempo. Um entrelaçar de palavras.

 



Escrito por Belvedere às 13h38
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continuação

Um poema nasce pronto?

 

Não. Os poemas são muito mexidos. Os que parecem mais simples, como uma simples anotação quase no nível da prosa poética, foram tomados, desprezados por um certo tempo, retomados e sempre olhados com o terceiro olhar. A sua obra, assim como a vida, tem que ser olhada com um olhar novo e despido. Parece complicado, mais é isso.  Escrevo com aplicação. O escritor tem uma relação com a palavra como se ela fosse um ser vivo. É uma relação vital. Tem um poema, no livro “Canto e Palavra”, que compara a palavra à arma. O guerreiro, a flecha e o alvo são a mesma coisa. A palavra é o corpo onde eu faço o meu trajeto. Essa relação com a palavra é epifânica, porque traz revelações. E é organizativa, porque através dela você se organiza, se entende melhor e entende os outros. Como um facão, a palavra vai desbastando, clareando, gozando. Jorge Amado, quando escrevia Dona Flor, começou a falar sozinho e a Zélia, intrigada, perguntou o que estava havendo e ele disse: “Estou discutindo com ela, porque eu programei um caminho e ela está indo em outra direção”.

 

O  livro “Que país é este?” foi um marco na sua preocupação em produzir uma poesia que provocasse a conscientização das pessoas na vida política do país? 

 

“Que pais é este?” , publicado em 1980, foi uma experiência emocionante e perturbadora, porque eu vinha de uma batalha muito grande pela inserção da poesia no cotidiano, seja através das lutas no tempo da UNE ou dos movimentos do Violão de Rua, quando se acreditava que a poesia poderia ajudar na conscientização e na discussão de temas sociais. Ainda hoje eu acredito que, se o poeta produz um texto com rigor formal, que seja transparente e que fale de uma coisa que toca o público final, ao invés de apenas fazer puras elocubrações narcísicas e neuróticas, e se esse texto é publicado em um veículo apropriado, é grande a probabilidade de que tenha o seu fluxo e a sua receptividade. Em geral, o que se produz é uma poesia opaca em que o leitor não percebe sobre o que o poeta está falando. As sociedades de poesia funcionam quase que secretamente. Esta situação se agravou com a chamada Poesia Moderna, que tende a falar dela mesma, numa metalinguagem. Quando se consegue uma transparência, uma eficiência de linguagem maior, o público aceita bem a poesia.

 

Em “Vestígios” você se refere ao nosso país em um poema dramático de apenas seis linhas. Isto significa que você desistiu do Brasil?

 

O que me ficou está dito no poema, “uma ferida aberta / no meu peito. Não sei se ele é um epigrama ou um epitáfio. A minha geração cresceu guiada por duas crenças. Uma, antiga na cultura brasileira, de que o Brasil era o país do futuro, que daria certo de qualquer maneira, e que deixaria o mundo estarrecido por sua inteligência, sua grandeza e sua magnitude. Outra, própria da geração de Juscelino Kubtschek, confirmava que o Brasil teria um futuro, no qual não só devíamos acreditar, como colaborar. Era uma visão utópica dos jovens e a realidade  nos mostrou   outra  coisa. De repente, percebe-se que as pessoas que estão hoje no poder, jovens dos anos 60 e 70, estão experimentando no nível político - o que eu experimento, em nível pessoal e poético -, que o poder “não pode”. A ilusão do jovem guerreiro e revolucionário é de que, se detivesse o poder, ele poderia. O primeiro gesto de sabedoria de quem chega ao poder é perceber que o poder não pode. O mundo se tornou mais complexo com a globalização.

 



Escrito por Belvedere às 18h40
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Escrito por Belvedere às 13h24
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Parte 3

E como você lida com essa constatação?

 

Nos meus ensaios e crônicas, eu tento de tratar da questão da pós-modernidade, pois sem entender essa ideologia, não se pode entender o caos em que nos encontramos. Não se entenderá Bush, nem o Iraque, muito menos o que, no mundo dos negócios, se chama de gestão do luxo, em contrapoposição à miséria que está  em nossa volta. A História se parece muito com um jogo que existia no colégio americano onde eu estudei, onde uma bola enorme era jogada no campo e os jogadores tinham que empurrar aquela bola em direção ao gol. Eram tantos jogadores a empurrá-la que ela não andava em linha reta. A vida não caminha em linha reta, como gostaria a utopia. A elipse, a curva e a sinuosidade são a menor distância entre dois pontos. Nesta linha de indagação, gravei um CD onde há um poema chamado “Remorso Histórico”, que fala de situações que aconteceram na história e que despertam em nós um grande sentimento de culpa. O poema termina com o poeta chegando a uma delegacia e pedindo  que o prendam, porque ele é culpado por tudo o que aconteceu na história. E termino o poema, perguntando: por que será que eu sempre volto ao local do crime, deixando vestígios e poemas?

 

O seu contato com o público leitor tem mostrado que sua obra atingiu o cotidiano das pessoas?

 

Essa é uma das vantagens da internet. Diariamente eu recebo, e isso não é exclusividade minha, notícias de leitores que comentam meus textos. Uma leitora disse que minha crônica “A Mulher Madura” mudou a vida dela. Outra, usou um poema onde trato da mentira, para uma causa jurídica. A poesia e o texto literário, quando tem uma certa eficiência, começa a exercer uma espécie influência no cotidiano. O bom é quando o texto  passa a fazer parte da vida das pessoas e não é apenas um obelisco ininteligível em praça pública ou dentro um livro na estante. É uma peça viva que faz parte da vida das pessoas. Comecei a anotar histórias de leitores e esta é uma maneira de entender o que se chama, em teoria literária, de Estética da Recepção. O leitor sabe os texto de cor porque eles foram incorporados à sua vida e isso faz do autor uma peça viva. Você passa a ser  também o leitor e não só o autor dos seus textos.

 

Existe algum projeto de parcerias no sentido de dar continuidade às experiências que você tem feito com músicos?

 

Menos do que eu gostaria. Uma parceria exige uma disponibilidade muito grande. Se aparecerem oportunidades, não vou desprezá-las. Fiz letra para uma música do Rildo Hora que Martinho da Vila gravou e Fagner musicou um poema meu. O Rildo Hora pôs música em poemas meus. Isso é muito  bom, porque o poeta e o escritor têm uma noção de propriedade sobre seu texto “genial” e  “intocável”. Na parceria de música, no jornalismo ou na publicidade, se aprende que o texto pode ser mexido, adaptável, cortado. Eu até diria que, se alguém decidir prestar atenção, meus poemas têm uma estrutura musical, sobretudo os mais longos. Assim como uma sinfonia, os poemas têm um ritmo, uma melodia, uma organização musical.



Escrito por Belvedere às 13h23
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- Só Deus!!!...
Carvalho Branco

Olá, meu Brasil irmão!...
Perdão...
mas não fica chateado
por eu me sentir teu mano,
todo mundo diz
que você é Pátria-Mãe,
a que é mais bem amada...
que todo bom brasileiro
deve sentir-se feliz
por ter nascido neste torrão...
Dizem que no teu céu de anil,
ó meu querido Brasil,
tem um cruzeiro,
onde Cristo acende uma luz
quando alguém daqui
vai baixar em seu terreiro...
e o Menino Jesus
faz logo o sinal da cruz...
Não pense que eu de ti
não gosto, não me ufano...
até concordo que teu solo é sagrado!...
És terra bendita e idolatrada
desde o tempo da tua origem gentio...
depois, meu Brasil,
veio o negro africano,
trazido escravizado
pelo português ousado...
Uma tal de uma princesa
decretou a abolição...
parecia que tudo ia ficar beleza,
que nunca mais ia haver escravidão!
É, meu irmão,
o povo teve essa ilusão...
Vê agora?!... Quem diria!
Tem criança escrava no sertão......
Tem gente trocando trabalho por pão...
Tudo no sol e na chuva,
sem a menor proteção...
sem capacete, sem luva,
arriscando a sua vida
pelas esquinas da lida,
só tendo obrigação
e direito não tem não...
E quem agora alivia
a gente dessa aflição?
Diz que com essa tal de República
era pra coisa ficar mais pública,
pra ter mais educação,
todo mundo ia aprender a lição...
Trabalho, saúde e cultura...
todos iam ter profissão...
pra que na vida futura,
criança, mulher e homem
já não passassem mais fome....
Acho que acabaram com a realeza
pro povo não ter mais princesa,
não ter esperança de salvação...
porém dizem, mas não provam,
que Papai do Céu é brasileiro...
Que a sua Divina Figura
transmute, do Planalto ao terreiro,
todo malandro matreiro
num perfeito brasileiro!...



Escrito por Belvedere às 12h16
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Sombras


odeteronchibaltazar


Entre as sombras e a neblina,
pude ler teu nome
escrito desde há muito
em meus versos,
e pude ver teu rosto desenhado
em véus e purpurina.
Mas o tempo voou,
marcando seu compasso
em cada linha da minha fronte,
em cada traço
desta minha eterna solidão.
Agora já não há como
capturar os dias
que fogem céleres
entre os frágeis dedos
das minhas mãos...

odeteronchibaltazar


Escrito por Belvedere às 12h14
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 Páginas que não se apagam

Delasnieve Daspet

Há coisas que não se apagam.
Petrifiquei-me ante o imaginado.
Todas as minhas esperanças pareciam vãs.
Faltou-me a coragem para recuar!

Tinha de seguir.
Passarinha no alçapão.
Tinha de saber.
Tinha de calar minha ansiedade.
Parar o tremor que me consome.
Estancar o pânico!

Quase fugi.
Mas a emoção, a curiosidade
Me fez ficar.
Precisava encarar a situação!
Senti-me viva!
O coração ainda batia
Em meu recôndito,
Insensível a toda angústia!

Com passos incertos
Segui até a laranjeira,
Nem percebi a chuva.

O sol no horizonte,
Em meio a densas nuvens,
Se entregava à mata!

Na rua as luzes,
- como pálidas luas -
Convidavam a descansar!

Na silhueta formada
Pela luz difusa,
E pela luz da rua
Revi - calada,
Somando os dias,
As primaveras,
Que felicidade - eu já tivera!

E das lembranças
Renasci sem ter morrido,
Vesti minha máscara,
Sorri de mim mesma,
Lembrei-me que há na vida
Páginas que não se apagam!
___________________________
Delasnieve Daspet
11-09-2001
Campo Grande MS


 



Escrito por Belvedere às 13h18
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.s o M o s

Paula Valéria Andrade
 
O importante
não é como você
se apresenta
(como
fala
ouve
anda
come
boceja
senta)
é como você pensa
Um universo rico de personagens
com suas imagens
cenas santas e obscenas
cada um no seu
microsistema
trama equivalente
a rede
teia
cadeia
controle qualquer
ou o que seja
do que somos
ou fomos
cada um tem seu lugar
tem seu bit
no DNA
um fruto
na ponta
de cada galho
da grande árvore
genética da humanidade
que é a reação em cadeia
do amor
que temos
quando
somamos
o que somos
e comemos o que amamos
e engolimos os sonhos
(e ainda permanecemos)
e morremos
             e transformamos memória.
 
 
 
             Do livro IriS digiTaL – ed. Escrituras - 2005
 
 www.wmulher.com.br entrevista -  fala do novo livro.



Escrito por Belvedere às 10h11
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Poeta,

as notícias daqui, Brasil, não têm sido boas.

A aliviar barra tão sinistra, esta pequena viagem à Arte: o quadro Hanna,

de Allan R. Banks, nascido em 1948.

 

 

Basta clicar, sem vírus:

www.jornaldepoesia.jor.br/francisco207.html

Com o abraço

e o convite ao Jornal de Poesia.

Soares Feitosa

 

 

Agulha - Revista de Cultura

www.revista.agulha.nom.br

 





Escrito por Belvedere às 13h15
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CIGARETTE BLUES
Bárbara Helena

" Cry me a river... I cried a river over you"

Nem lembro mais o porque do nome da banda. Acho que foi a sonoridade. Ao nosso inglês precário parecia bonito - cigarros e azuis, tristezas e blues, como os que cantávamos imitando Billie.

Então ficou Cigarettes Blues mesmo depois que aprendemos alguma coisa das letras que cantávamos pelos bares da vida. Nas estradas perdemos a ilusão e o blues. Ficaram os cigarros, as tosses noturnas, pastilhas meladas nos bolsos e a guitarra desconjuntada do Billie.

Billie se chamava Edvaldo, morava em Cachambi e tinha um dente de ouro lateral que aparecia quando cantava. O cabelo continuou comprido, sobrevivendo à moda e ao desencanto.

Ninguém se interessava pela música que amávamos, os marginais dos bares sórdidos queriam lamentos caipiras e mais recentemente, sambas abolerados, ou pior sambas rurais, um pastiche absurdo de ritmos, transformados em sopa cáustica que descia pelos nosso ouvidos como lâmina. Fazer o que? beber e fumar que era a sobra após a divisão dos ganhos.

Mimi desistiu primeiro. Arrumou um fazendeiro rico, na versão sonhadora dela, um sitiante remediado segundo as más línguas das banguelas.

Ficamos os três sobreviventes: Marina, Billie e eu.

Marina era bonita, podia ter escolhido vida melhor, mas foi atrás dos Cigarettes bues e das luzes da ribalta. Ficou arrastando perdidas ilusões pelas sórdidos palcos das cidadezinhas minúsculas, em periferias empoeiradas. Seu cabelo brilhante permaneceu com a ajuda da química, mas uma auréola grisalha justificava os traços gastos, as olheiras escuras e a voz rouca.

Tudo isto eu podia suportar. Suportei sempre, mesmo quando o sonho virou pesadelo, pior, virou tédio, vazio, vozes na madrugada, vaias, conversas paralelas enquanto cantávamos, só de pirraça, nossos antigos blues na guitarra desafinada.

Mas quando o cara começou a nos descompor, quando levantou da mesa com sua garrafa de uísque, sua arrogância de freguês rico, quando nos chamou Cigamerdas blues, eu não agüentei.

Lembro de tudo como num filme - eu andando em câmera lenta até a nossa mesa, abrindo a bolsa, pegando o velho revólver companheiro da estrada.. e atirando ...atirando, atirando e atirando... uma bala para a dor... para a humilhação, pelos sonhos desfeitos, outra ainda pelas roupas rasgadas, os cabelos compridos, o dente de ouro, os cigarettes das madrugadas, os blues esfarrapados.. até descarregar o tambor, até me esvair em lágrimas quentes que carregaram embora a visão do sangue, da noite, da vida.

Não atirei no cara, entende?.. não, não foi nele. Foi em nós.

Nos cigarette blues.

 





Escrito por Belvedere às 13h14
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CAMELOS TAMBÉM CHORAM   
 
 
Affonso Romano de Sant’Anna
 
 
Eu tinha lido que, lá  na India,  elefantes olhando o crepúsculo, às vezes, choram. Mas agora está aí esse filme “Camelos também choram” . A gente sabe que porcos e cabritos quando estão sendo mortos soltam gemidos e berros dilacerantes. Mas quem mata galinha no interior   nunca relatou ter visto  lágrimas nos olhos delas. Contudo,  esse filme feito sobre uma comunidade de pastores de ovelhas e camelos, lá na Mongólia, mostra que os camelos choram, mas  choram não diante da morte, mas em certa circunstância que faria chorar qualquer ser humano. E na platéia, eu vi, os não  camelos também choravam.
Para nós, tão afastados da natureza, olhando a dureza do asfalto  e a indiferença dos muros e vitrinas; para nós que perdemos o diálogo com plantas e animais, e, por consequência, conosco mesmos, testemunhar com  aquela bela família de mongóis o nascimento de um filhote de camelo e sua relação com a mãe é uma forma de reencontrar a nossa própria e destroçada humanidade.
É isto: eles vivem num  deserto.Terra árida, pedregosa. Eles, dentro daquelas casas redondas de lona e madeira, que podem ser montadas e desmontadas. Lá for a um vento permanente ou o assombro do silêncio e da escuridão.  E as ovelhas e carneiros ali em  torno, pontuando a paisagem e sendo a fonte de vida dos humanos.
Sucede, então, que a rotina é quebrada  com o  parto difícil de um camelinho. Por isto, a mãe camela o rejeita. O filho ali, branquinho, mal se sustentando sobre as pernas, querendo mamar e ela fugindo, dando patadas e indo acariciar outro filhote, enquanto o rejeitado geme  e segue inutilmente a mãe na seca paisagem.
A família mongol e vizinhos tentam forçar a mãe camela a alimentar o filho. Em vão. Só há uma solução, diz alguém da família, mandar chamar o músico. Ao ouvir isto estremeci como se me preparasse para testemunhar um milagre. E o milagre começou musicalmente a acontecer.
Dois meninos montam agilmente seus camelos e vão a uma vila próxima chamar o músico. É uma vila pobre, mas já com coisas da modernidade, motos, televisão, e, na escola de música, dentro daquele deserto, jovens tocam instrumentos e dançam, como se a arte brotasse lindamente das pedras.
O professor de música, como se fosse um médico de aldeia chamado para uma emergência,  viaja com seu instrumento de   arco e cordas para tentar resolver a questão da rejeição materna. Chega.E ali no descampado, primeiro coloca o instrumento com uma bela fita azul sobre o dorso da mãe camela. A família mongol assiste à cena. Um vento suave começa a tanger as cordas do instrumento. A natureza por si mesma harpeja sua harmônica  sabedoria. A camela percebe. Todos os camelos percebem uma música reordenando suavemente os sentidos. Erguem a cabeça, aguçam os ouvidos, e esperam.
A seguir, o músico retoma  seu instrumento e começa a tocá-lo, enquanto a dona da camela afaga o animal e canta. E enquanto cordas e voz soam, a mãe camela começa a acolher o filhote, empurrando-o docemente para suas tetas. E o filhote antes rejeitado e infeliz, vem e  mama, mama, mama desesperadamente feliz. E enquanto ele mama e a música continua, a câmara mostra em primeiro plano que  lágrimas desbordam umas após outras dos olhos da mãe camela, dando sinais de que a natureza se reencontrou a si mesma, a rejeição foi superada, o afeto reuniu num  todo amoroso os apartados elementos.
Nós, humanos, na platéia, olhamos aquilo estarrecidos. Maravilhados. Os mongóis na cena constatam apenas mais um exercício de sua milenar sabedoria. E nós que perdemos o contato com o micro e o macrocosmos ficamos bestificados com nossa ignorância de coisas tão simples e essenciais.
 Bem que os antigos falavam da terapêutica musical. Casos de instrumentos que abrandavam a fúria, curavam a surdez, a hipocondria e saravam até a mania de perseguição.
Bem que o pensamento místico hindu dizia que a vida se consubstancia no universo com o primeiro som audível -um Ré bemol e que a palavra só surgiria mais tarde.
Bem que os pitagóricos, na Grécia, sustentavam  que o universo era  uma partitura musical, que o intervalo musical entre a Terra e a Lua era de um tom  e que o cosmos era regido pela harmonia das esferas.
Os primitivos na Mongólia sabem disto. Os camelos também. Mas nós, os pós-modernos cultivamos a rejeição, a ruptura e o ruído.
Haja professor de música para consertar isto.

E-mail: santanna@novanet.com.br


Escrito por Belvedere às 13h13
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QUEM TEM OUVIDOS OUÇA

 

 

         Está na praça um novo CD de poesias  “ Affonso Romano de Sant’Anna  por Affonso Romano de Sant’Anna”  Quem já ouviu garante que é das mais bem sucedidas gravações de poesia, uma vez que o poeta tem prática de dizer seus poemas, seja em festivais de poesia na Irlanda, no México ou em Israel.

Aí estão 56 poemas  extraídos dos nove livros que ele vem publicando desde 1965 quando estreiou com “Canto e palavra”.  Neste CD a novidade também é o fato de sete atrizes e escritoras terem sido convidadas para falar alguns poemas de Affonso. Tônia Carrero, Elisa Lucinda, Edla van Steen, Marina Colasanti( esposa do poeta), Alessandra Colasanti( filha do poeta e atriz), Neide Archanjo e Odete Lara são as vozes femininas contraponteando com a voz do antigo cantor do Madrigal Renascentista.

Quem não se lembra  dos discos de poesia que Irineu Garcia lançou nos anos 50 do século passado registrando não só os fabulosos “ Jograis de São Paulo”, mas as vozes de Drummond, Cabral, Murilo, Vinícius, Paulo Mendes Campos e outros? Pois a editora Luzdacidade criada por Paulinho Lima, já produziu uns 60 CDs onde estão Clarice, Marina Colasanti, Drummond, Rachel de Queirós, Simões Lopes, Manuel Bandeira e outros nas vozes dos mais variados atores como Paulo César Pereio, Othon Bastos e Juca de Oliveira.

Esta coleção recupera a oralidade da poesia brasileira tão perdida quando alguns grupos de vanguarda decretaram há tempos que o verso havia acabado e só valia poesia visual. São discos, além do mais, úteis para as salas de aula, ajudando os professores no estudo da literatura; são discos que você pode ir ouvindo no carro e ótimos presentes para o Dia dos Namorados. Se você não encontrar numa ou outra livraria, a Luzdacidade lhe envia diretamente. Basta ligar para (21) 2245-2849 ou pelo email. luz@luzdacidae.com.br

Como disse o exigentíssimo Paulo Francis: “ Affonso tem uma facilidade admirável para versificar e sabe fazer frases no bom sentido, a la Eliot, como tempos poucos.Affonso está falando conosco. Muito poucos autores falam a nossa língua, a língua da gente, do concreto de nossas vidas”. E Odete Lara, que participa falando um dos poemas, anota na contracapa do CD: “ Despertei tardiamante para a beleza da linguagem poética. Se isso foi uma perda no passado, hoje é uma dádiva que enriquece e amplia ilimitadamente meu universo interior. A leitur a da obra completa de Affonso Romano de Sant’Anna, não só consagrou esse meu novo amor pela poesia como também fez ressurgir meu velho  amor pela arte interpretativa das palavras- “ que intimidade tenho com as estrelas/ quanto mais habito a noite!”- Além de apresentar a força, beleza e abrangência poética de Affonso, esse CD o revela como admirável intérprette de sua própria palavra. Ave palavra!Ave poesia!”.



Escrito por Belvedere às 09h49
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Escrito por Belvedere às 13h09
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AO AMOR E A COMPREENSÃO

NALDOVELHO

 

Existe um conflito lá fora que esconde um outro que rola dentro de cada um de nós. E os sinais são bem evidentes no mais simples dos movimentos de raiva ou de constrangimento, no trânsito engarrafado, nas filas dos supermercados, no vai e vem das pessoas, anestesiadas, inconscientes, aglomeradas pelas ruas dessas cidades nubladas e no campo, lugares ermos, inóspitos, onde o instinto precede o bom senso e a razão.

 

Existe um conflito lá fora que esconde um outro que rola dentro de cada um de nós. E os sinais são bem evidentes na agressividade enrustida, na bofetada incontida, nas palavras impensadas, farpas afiadas lançadas, na rejeição ao divergente, na discriminação ao diferente, no descaso às crianças, aos velhos, aos doentes e a toda a população carente das periferias das cidades, favelas, guetos, cortiços, ou ainda no campo, miseráveis escravizados, excluídos de tudo aquilo que julgamos civilizado.

]

Existe um conflito lá fora que esconde um outro que rola dentro de cada um de nós. E os sinais são bem evidentes na pedofilia nojenta, tão comum nestes dias, na mulher ultrajada e diariamente violentada, no fundamentalismo excrescente dos religiosos que vivem a perseguir sem descanso, a toda e qualquer outra escolha que não seja aquela que eles dizem sagrada ao Santo Nome de Deus.

 

Existe um conflito lá fora que esconde um outro que rola dentro de cada um de nós. E os sinais são bem evidentes nos políticos que sugam e espoliam o povo, na justiça promiscua que chafurda no lodo e em cada um de nós, que omissos nos acomodamos, permitimos e se houver a oportunidade, até participamos, pois é sempre mais importante levar vantagem, mesmo que seja ao custo da dor de um irmão.

 

Existe um conflito lá fora que esconde um outro que rola dentro de cada um de nós.  E os sinais são bem evidentes no AR-15 do traficante, nas bombas que explodem inclementes, na superioridade de um povo a massacrar um outro povo, no desrespeito constante ao direito do próximo, ou de quem esteja distante, afinal somos sempre dominantes pelos nossos motivos e razão.

 

Existe uma guerra lá fora que por nós será sempre permitida e que só será resolvida, quando a guerra que existe aqui dentro de cada um de nós, der lugar ao amor e a compreensão.



Escrito por Belvedere às 13h06
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