Poema perto do fim
Thiago de Mello
A morte é indolor. O que dói nela é o nada que a vida faz do amor. Sopro a flauta encantada e não dá nenhum som. Levo uma pena leve de não ter sido bom. E no coração, neve.
Escrito por Belvedere às 13h32
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Adeus escrevi silêncio com sabor a maresia mais a nostalgia daquele último adeus sem beijo de despedida joaquim evónio 19 AGO 05 Seja bem-vindo ao meu site - Varanda das Estrelícias www.joaquimevonio.com
Escrito por Belvedere às 20h07
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Portas abertas
Belvedere
Portas abertas... A bem da verdade, nunca uso trancas.
Quantas vezes me abaixo, catando mil e tantos cacos.
Não me despedaço!
Apenas proíbo que tons ocres decorem meus dias.
Escrito por Belvedere às 13h37
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A CASA D’ ÁGUA
Cláudia Villela de Andrade
Uma casa d’água cheirando a gato preto e arco-íris misturado em burro quando foge.
Coração desaguado é assim mesmo, bate no passado. Fica sem referência de presente. Memória engana. Lembrança, não. Nunca conta uma glória! Depois, mesmo se quisesse, não poderia. Jamais a tivera.
Em casa, sempre ausente. Distraindo-se na demência, andando de lá pra cá. Sem se fixar. Sem função. Fumando sem parar, arrastando chinelo, dando pum e mijando no batente da porta. Jorrando sua própria água amarela escura. Fedida feito mijo de gato. Bebendo café para mais manchar os poucos dentes.
Toda hora lavava a mão na parede. Casa d’água. Fartura de líquido acumulado. Mãos tremendo de artrose e Parkinson. Enxugava depois, nas calças pingadas de urina. Camisa babada de cuspe e catarro. Braguilha aberta e os pés voltando a arrastar-se, fazendo poças de imagens pelo chão.
Pisava devagar, agora, na infância, estalando água para os lados. Mãe batia com cabo de vassoura todo dia. A cabeça ficava moída de tanto cocuruto. À noite, os homens chegavam. Cada dia, um. Teve um marinheiro que lhe deu um anel de mar. Pingou no chão salgado deixando a tinta azul do oceano... Por muitos anos. Anel de mar, cor de marinheiro. Esse nunca mais voltou. Se voltou, não lhe deu mais nada. Não lembrava. Só deve ter servido para encher mais a casa de água.
Sentou num caixote velho que tinha na sala. Ao pisar, olhou para baixo. Outra poça. Mais água. Essa, da juventude. Homem bonito, mas estragado. Bêbado. Mulherada toda apanhava do jeitinho que a mãe batia nele. A cada lembrança de uma surra de menino, passava-a adiante, numas boas lambadas. Vingança? Quem se importava? Seus filhos corriam medrosos ao entardecer. Lá vinha ele pela rua, cambaleante, se escorando nos muros, trocando os pés, vomitando. Depois, chutava o portão e caía no chão. Mais água: era molhado, até levantar, começar a xingar o mundo e ir para cama se deitar. No chão, ficava uma poça de solidão. Não adiantava esfregar nem secar. Ela voltava.
Escrito por Belvedere às 18h36
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No dia seguinte, levantava-se e ia até a varanda suja da casa onde plantas esturricadas em latões de manteiga, cercadas por tocos de cigarros apagados escorriam em mijo. Já não sabia mais se era dele ou do cão magro, deitado com os olhos sempre virados de fome. Mas embaixo do cão, tinha sempre uma poça. De lealdade. Ali, podia sentir o calor. Porém, o sol batia de frente e a luz espantava. Então, incomodado chutava o cachorro para fora quando não resolvia pisar nele.
Mais cigarro. Mais cuspe à distância. Caía perto. Já não tinha força, nem fôlego, mas fazia o que queria: outra poça. Uma a mais. Outra mais. Bem na frente da entrada. Poça doente. Rançosa. De saliva de quem tem convulsão. Grossa. Voltava para dentro e deitava na cama. Por cima, havia uma goteira, por conta de umas telhas quebradas. A chuva caía exatamente na cabeceira. Encharcava tudo e, mesmo assim, ele deitava por cima. Mais água e mofo, que ele nem ligava.
Um dia, a enchente chegou. Sentado no caixote da sala, viu só liquidez escorrer pelos poucos vidros da única janela. Por baixo da porta, um rio parecia se esgotar, fazendo os raros móveis boiarem. Das torneiras, saía água vermelha. Do inferno. Agora, já não havia mais poças. Era uma enxurrada que fazia pressão e corria de um lado para o outro. Inclusive a sua paixão que pingava, brotando do nada, seca. Sem água. Parada.
Coração desaguado é assim mesmo, bate no passado. Fica sem referência, faz mergulhar num mar que não conhece o amor. Do mar, amor, do mar. Da cor do anel. Dos virados olhos do cão. Da misturada cor-arco-íris. Do burro que fugiu sem beber sua água...
Dizem que tudo aconteceu porque, de poça em poça, a casa d’água flutuou e levou seu dono para o meio de um mundo que conhecia apenas um tipo de pensamento. O pensamento seco, curto, único. Certo somente onde a vastidão do mundo se mostrasse oca. Mas em uma casa d’água, uma casa apenas sua. Mais nada.
Escrito por Belvedere às 18h33
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CAFÉ COM POESIA
Tania Melo
Caminhando distraída pela rua dos Andradas, mais conhecida como Rua da Praia, não reparei, imediatamente, na figura que, de uma forma extremamente carinhosa, olhava para mim.
Aquele rosto alegre era quase um ímã. Não pude ignorá-lo.
-Meu Deus! Não é possível!-falei, quase num grito, tamanho foi meu espanto.
Seu olhar tornou-se duro. O rosto crispado. Furioso por minha desconfiança
- Como, não é possível? Estás pondo em dúvida minha identidade?
-Não, imagine! balbuciei, entre nervosa e encantada. É que...
-...morri? É isto?
Sorriu novamente ao sentir o quanto eu arregalava os olhos e tremia o queixo, sem controle.
-Acalma-te, moça.Vamos sentar um pouquinho. Precisas de um copo d'água.
-...com açúcar, de preferência - completei.
-Eu prefiro que seja em um lugar muito conhecido e aconchegante para mim.
Dizendo isso, ofereceu-me o braço e eu, como uma autômata, o segui.
Chegando ao Cataventos, no térreo da Casa de Cultura, lançou-me um olhar inquiridor e, ao mesmo tempo, triste.
-Me acompanhas? perguntou, parecendo temer uma resposta negativa.
Não articulei palavra. Somente acenei com a cabeça, de maneira afirmativa e consegui sorrir, muito sem graça.
Incrível o poder daquela criaturinha magra e miúda. Em poucos instantes eu me sentia completamente à vontade em sua companhia, como se fôssemos íntimos amigos que se reencontravam após uma longa e saudosa ausência.
O mais incrível foi a naturalidade com que ele entrou no bar, cumprimentou a todos e dirigiu-se a uma das mesas, onde, muito gentilmente, puxou a cadeira para que eu sentasse e tomou o seu lugar.
Assombrada, não conseguia entender como aquelas pessoas todas, ali, não demonstravam a menor surpresa diante de sua aparição. Sua presença, apesar de ser muito festejada, era tida como normal.Cliente costumeiro. Gente da casa.
Será que estava louca? Ou isto tudo era apenas um sonho?
Mas, não. Tudo era muito real.
Não precisou sequer fazer o pedido. O garçom, após nos receber, dirigiu-se ao balcão e providenciou o costumeiro cafezinho, acompanhado por deliciosos quindins e, obviamente, um cinzeiro.
-Estou de regime, disse-lhe, sorrindo. -Hoje não estás, não.Recomeças amanhã. -Por favor, explica-me, de verdade (continua)
Escrito por Belvedere às 17h58
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Com um gesto, interrompeu-me, dizendo: "Venho do fundo das Eras. Quando o mundo mal nascia... Sou tão amigo e tão novo, como a luz de cada dia!" Não havia mais espaço para dúvidas. Eu estava sentada, tomando o famoso café com quindins, e conversando animadamente com o meu adorado Quintana. -Meu Deus! Quanta falta nos fazes, meu amigo. -Não. Cumpri a minha etapa, falava, enquanto acendia um cigarro. Perguntei-me, íntima e silenciosamente, o que teria feito para merecer tal privilégio, tamanha alegria? Adivinhou meus pensamentos. -Não te questiones quanto a isso. Eu, simplesmente, não gosto de tomar café sozinho. Já tive muitos momentos de solidão, em vida. Agora, desfruto sempre de alguma boa companhia, quando venho até aqui.
Um gole de café, um pedaço de quindim... e mais um cigarro. Aproveitei, então, para agradecer-lhe por tudo o quanto deixara de bom para esse mundo. -Tuas poesias encantam a milhares de pessoas.São sementes que brotam e dão frutos sem parar.És amado e cons... Novamente o gesto com a mão, fazendo -me calar. -Teu café vai esfriar. E, se não gostas de quindim, não faças cerimônia. Pede o que mais te agradar. Além disso, meu tempo é curto. Hoje é quarta-feira, não? Tenho apenas mais uns dez minutos.
Entre quindins, cafés e cigarros, os instantes voaram e, com tristeza vi que levantava e achegava-se a mim, beijando, carinhosamente o meu rosto, em sua despedida.
Não pude conter as lágrimas.
Foi se retirando, sorrindo, acenando e, apesar da distância, ainda pude ouvi-lo: “As mãos que dizem adeus, são pássaros que vão morrendo lentamente..."
Escrito por Belvedere às 17h58
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Um dos melhores poetas que já li nos últimos tempos, Xavier Zarco
E as folhas caem, afagadas pela brisa insistente.
Belvedere
toca as arestas do poente a brisa
as suas mãos tecem o silêncio ou as palavras que se gritam e só as pedras percebem
como se o orvalho esculpisse a dor de um rio que cedo feneceu sob um sol impiedoso
enquanto as folhas caem adormecem sobre a face da terra
Xavier Zarco
Escrito por Belvedere às 10h56
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O Homem Que Não Acreditava No Tempo
Raymundo Silveira
"Le passé c’est la seule réalité humaine. Tout ce qui est est passé." (Anatole France: Le lys rouge)
Sim, ele existiu! Minto. Pretendo contar essa história da perspectiva dele. Então, não posso dizer que existiu, que existe, nem que existirá. Simplesmente porque não acreditava em nada disso. Como é impossível contar algo sobre alguém sem um referencial ligado ao "tempo", só me resta uma saída: narrar os acontecimentos aleatoriamente. Por outras palavras: Ora relatarei no presente, coisas do passado. Ora, no passado, fatos do presente. Ora no futuro, o passado e o presente. Reconheço que a missão é espinhosa. Todavia, aceitei o desafio por dois motivos — e aqui já estaria encaminhando a minha heterodoxa técnica narrativa -: prometerei a ele que faria e nunca sou um desertor.
Passeio pelos anos que para ele não houve. Senti-me um objeto. Para a maioria das pessoas, o tempo, enquanto valor mensurável, é tão lógico quanto o princípio de Arquimedes. Mas, de fato, só existe em função do observador humano. Neste ponto, não só concordo com o meu personagem, como sou capaz de demonstrar a racionalidade do seu pensamento. Com efeito, não existem Futuro, Passado, e Presente. O Futuro, porque ainda não aconteceu.
O que chamamos Presente, mesmo estando ocorrendo nesse exato instante, também não existe, porque é mais fugaz do que o pensamento. Isto é, nenhum episódio chega, de fato, a acontecer no Presente. Uma vez que, logo a seguir, já é Passado. Quando dizemos, por exemplo, a palavra mãe, a imagem que se forma na consciência já não é igual àquela que se formou quando foi pronunciada. E sim uma outra, que deveria estar no Presente. Mas já passou. Portanto, só existiria o Passado. Como este já passou também, não existe. Donde se conclui que o tempo não existe.
Assim sendo, nem a epígrafe de Anatole France fará sentido. Parece uma sandice. Portanto, numa perspectiva lógica, o tempo não passa (nem passou, nem passará) de uma abstração criada pelos homens a fim de medir o tamanho das suas esperanças passadas, ou a extensão das suas saudades futuras.
Direi que me senti um objeto. Foi uma incoerência. Como objeto, não terei como formular este raciocínio. Mesmo assim, continuo me sentindo o próprio. Na verdade, rigorosamente, apenas coisas são incapazes de observar a passagem do que as outras pessoas chamam de tempo. Um cão e um gato sabem muito bem quando devem comer ou urinar. Logo, até eles tiveram essa noção. Uma pedra, não. Com isso esperei ter provado, logicamente, a mera intuição do meu amigo por falecer.
Morreu num futuro ainda remoto. É um homem bastante sensível. Nele, a emoção sempre predominará sobre a razão. É também nostálgico durante toda a vida. Mas saberá aproveitá-la, ainda que sentindo uma profunda saudade do amanhã. Muito saudável, não comerá carne. Será vegetariano por convicção. Pratica uma espécie de dieta que foi mais uma filosofia de viver: a macrobiótica. Paradoxalmente, isso não impediu a sua micro-existência: morrerá jovem.
Sei muito bem o que você está pensando, leitor: "este sujeito é um imbecil, um embusteiro, ou quer me gozar". Não o condenei por isso. Soube reconhecer que o seu raciocínio está sintonizado com a noção anódina de tempo. Inclusive porque estarei escrevendo isto sem nenhuma veia poética. Se tudo o que já foi dito acima, terá sido sob a emoção da Poesia, ninguém me censurou. Garanto, porém, que jamais estarei a caçoar dos leitores. Tampouco sou idiota.
Um poeta pode e deve dizer: "Eu, passarinho. Eles passarão". Misturar e comparar, abusivamente, verbos e substantivos. O escritor não poeta, jamais. Porque outra característica dos humanos foi gostar de Poesia. Com efeito, ai de nós se não será ela. Contudo, a Poesia é para ser sentida e contemplada, pela emoção. E não pode ser diferente. Ela existiu exatamente para mitigar a dor da condição humana. E esse texto, apesar de ser a história de um homem emocional, contém um critério racional. O meu parceiro morrerá mais certo do que ninguém. Mas nunca conheceu as bases científicas e filosóficas da sua extraordinária capacidade intuitiva. Ele passará. Eu passarão.
Escrito por Belvedere às 22h46
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Melancolia
Uma árvore foi podada Sem vida, tombou No campo fértil da Vida O vazio fez guarida A melancolia se alojou.
Neyde Noronha
Escrito por Belvedere às 20h45
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Miúda
Estávamos no trem.
A miúda, sentada à minha frente, já devia estar me olhando há um bom tempo, provavelmente desde que entrei no vagão. Em dado momento, uma desconhecida inquietação me anunciou sua presença. Passei então a procurar. Numa das fendas que se abriam na muralha de corpos que nos separava, flagrei seus olhos. Entre um braço e outro, um quadril e outro, lá estavam eles: negros, imensos e luminosos.
A fenda se dilatou e me deixou ver todo o seu rosto. A semelhança era incrível! Nele cabiam as feições que pensei serem minhas, somente minhas.
Tentei um sorriso. Sua insistência me incomodava. Eu queria encerrar logo aquele assunto. Ela não. Não esboçava reação alguma. Séria, pálida. Olhos brilhantes demais para serem reais. Não piscava, não se movia.
Tentei fugir, empurrando meu olhar para qualquer lugar onde não pudesse encontrar o seu. Cogitei forçar seu pouso sobre a bolsa em meu colo. Simplesmente não pude. Então a vertigem. A cada vez que a olhava, seus olhos pareciam ainda maiores e ofuscantes. Eram agora duas enormes bolas negras, aquosas, vertendo luminosidade, feito gotas graúdas de nanquim. “O que você quer?” – perguntei a ela sem o sorriso, só com o pensamento. Nenhuma resposta.
Como se já não coubessem no espaço a que foram destinadas, as gotas transbordaram em si mesmas e vazaram negras, borrando o pequenino rosto. Aquele que também era o meu.
Sobre minha bolsa pousaram gotas negras, redondas e luminosas, feito nanquim. Feito os olhos dela que – só depois entenderia – tentavam apenas me dizer: “Não se esqueça de mim”.
Criança minha. Eu criança. De frente pra mim, num vagão de trem.
Simone Maia
LINKS:
http://www.jornaldesaocaetano.com.br/lermateria.asp?canal=Artes&id=93
http://www.estadao.com.br/artigodoleitor/cronica/htm/2003/ago/12/276.htm
http://www.protexto.com.br/autor.php?cod_autor=51
http://www.estadao.com.br/artigodoleitor/cronica/htm/2003/nov/14/47.htm
http://residuos.zip.net
http://cultura.dgabc.com.br/materia.asp?materia=464158
Escrito por Belvedere às 12h20
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APROXIMA A CHAMA DO ROSTO José António Gonçalves
aproxima a chama do rosto e sente a luz atravessando a noite escondida nas escarpas estonteantes do teu olhar incolor espraia pela tua pele num manto de penas macias as distâncias da voz separando-nos do silêncio em braseiro que nos imola dentro de nós conta-me como os antigos seguiam nos inesperados dias de chuva por caminhos íngremes e decidiam jamais retornar ao cais de partida procura encantar-me com o vento soprando no velame dessas viagens como se construíssemos um altar sagrado para ensaiarmos velhos rituais essa é a aventura imorredoira desenhada nas fogueiras nos incêndios para dar corpo a um grande amor capaz de sobreviver aos cismos ao mar por isso ilumina-te toda com a chama que se aproxima do teu rosto como um segredo um relapso de brisa varrendo a alma e tão secreto que foi eliminado de todos os compêndios assim se te digo amo-te é principalmente para sentir-te viva no turbilhão confuso do medo e ter-te para sempre por perto
José António Gonçalves (inédito.5.08.04)
ACARICIA AS PALAVRAS
Cissa de Oliveira
"... ilumina-te toda com a chama que se aproxima do teu rosto como um segredo um relapso de brisa varrendo a alma e tão secreto que foi eliminado de todos os compêndios..."
in: Aproxima a chama do rosto : José António Gonçalves
acaricia com um sopro de certezas as raízes das palavras adormecidas nas páginas brancas do livro que sabes guardado em meu peito
olha como desabrocham as letras ao teu toque como se ele fosse o pólen ao vento morno e perfumado da tarde atiçando a paz dos beija-flores
lembra-te da inocência das águas misturando-se sob a superfície lânguida dos mares que a vista não alcança mas sabe
convence-me sem gesto ou dizer - mas com um sentir profundo que os encantos murmuram em teus ouvidos enquanto eu escrevo o teu nome
acompanha a música das asas atravessando os portais dos calendários para dar corpo a um grande amor sem tempo ou espaço delimitado
então acaricia com o sopro dos teus lábios as sementes verdes das páginas que germinarão em meu peito sem segredos
... e se no livro eu escrevo e reescrevo amo-te não é para alimentar o poema já pronto mas apenas para ter-te marcado aqui dentro, sempre e sempre.
CISSA DE OLIVEIRA
Poema no. 25 da série "JAG" (7.08.04)
Escrito por Belvedere às 12h16
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.PRIMAVERA EM TEMPOS DIFÍCEIS.
Crônica de Tenini.
Olho para o jardim e vejo as glicínias esparramando seus ramos lilases embaixo da sacada. Cobre a acácia, nascida entre as pedras e que nunca vicejou para valer por estar espremida ali, quase soterrada e na primavera, cobre-se, timidamente, de flores amarelas , desnuda de folhas. Talvez me sinta como ela, tais as dificuldades para libertar as artes com que Deus me dotou.
Ainda assim, como a Arte e a artista, a glicínia e a acácia ficam enleadas como num afetuoso abraço a espera do calor de um sol brilhante da descoberta.
Mais além o canteiro de singelos beijos brancos e vermelhos, em nova versão sofisticada por obra dos japoneses, rodeiam um pé de dálias que foi podado e as folhas começam a brotar em profusão.
Lá do outro lado, o pé de estrelícias está repleto de flores e bem próximo, uma muda de buquê de noivas floresce. E, para completar, como antigamente, meu jardim mistura-se com pomar composto de laranjeira, bergamoteiras, limoeiro, um coqueiro, ameixeira, todas em florescência.
A primavera está chegando e os passarinhos trinam sinfonias convidando suas parceiras para o enlevo amoroso.
Gosto da primavera como gosto do outono. Estas duas estações são as minhas preferidas , fico mais sensível e a beleza da natureza cala fundo nos meus olhos e no meu coração.
Quem não lembra primaveras da infância e da juventude?
Hoje, em tempos modernos, felizmente, até na maturidade pode-se florescer , conforme atestam dona Lily Marinho, Sophia Loren e tantas outras e acredito piamente nisto porque descobri esta fase maravilhosa que sequer eu supunha que pudesse existir , até bem pouco tempo.
Passeando pelas ruas do bairro Tristeza, medito como os moradores daqui conservam aquele gosto antigo, interiorano e bucólico de cultivar pomares.
Sinto-me como se estivesse em décadas anteriores e ouço, ao longe, músicas de serestas no interior dessas moradias. Era um outro tempo em que a felicidade era possível , mesmo ganhando menos.
As famílias eram mais unidas, não havia violência nem drogas e as frutas eram divididas entre os da casa e a vizinhança.
Foi com alegria que divisei nesses quintais do meu bairro, as laranjeiras cobertas de frutas apetitosas, prontas para serem colhidas e uma dúvida me assaltou :As frutas ainda serão partilhadas com os vizinhos? Hoje as pessoas estão tão egoístas!
Nosso bairro conserva casas antigas com muitas árvores e flores. As pessoas aqui, na sua maioria, são da classe média e vivem felizes nos cantinhos que escolheram para viver. A maioria não goza de grandes salários, mas possuem a alegria de poder curtir a natureza à sua volta com a família , os cães e gatos que adotaram, para fazer-lhes companhia.
A maioria dos moradores antigos vê o desenvolvimento do bairro em que espigões estão sendo construídos , com reservas. E, quando têm oportunidade não vacilam em lembrar às autoridades municipais que neste bairro eles devem respeitar o ar puro e a liberdade de espaços para casas, em vez dos espigões.
Quando vou para outros bairros, na volta, ao entrar pela orla do Guaiba uma onda de ar puro invade meus pulmões e respiro aliviada!
Tempos difíceis os de hoje, mesmo na primavera. Acabo de vir de um aniversário lá no outro lado da cidade, na Padre Chagas, onde se comentava o deserto de lojas em que alguns shoppings estão se transformando. Os compradores sumiram e o comércio ressentiu, afinal, o clima está bem ao gosto de alguns políticos que sempre desejaram ver as classes A e B por baixo, implantando a cubanização do nosso país. Estão conseguindo, mas também estão fechando todos estabelecimentos comerciais que eram sustentados pelas classes sociais A e B.
Quem pagará os impostos e tributos que essas lojas deixaram de recolher ao município , ao Estado à Previdência Social? Quem dará emprego aos despedidos?
E ainda há certos políticos que mentem descaradamente sobre a realidade, afirmando que já estamos em vias de recuperação econômica, que o desemprego caiu e que tudo vai às mil maravilhas , para eles, certamente.
Os escândalos estão aí escancarados e os responsáveis buscam tapar o sol com peneira, falando grosso... Ridículos todos eles e nós que os elegemos.
Felizmente, voltam às ruas os "caras-pintadas". É a herança que podemos deixar aos nossos filhos e netos: a Honra, a Honestidade!
Você acredita em gastos eleitorais em vez do mensalão e outras aplicações nebulosas?
Outra traição que nos aprontam é a do desarmamento. Não seria para implantar a ditadura de inspiração cubana e encontrar o povo desarmado para reagir?
Você acredita que o desarmamento diminuirá a violência?
Nem eu...
Escrito por Belvedere às 12h14
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