Sarau da Belvedere


BRAZ CHEDIAK

A EDITORA RECORD lançou esta semana a antologia CRIME FEITO EM CASA, Contos policiais brasileiros, com textos de Machado de Assis, Lima Barreto, Dalton Trevisan, Caio Fernandoa Abreu, Patrícia Galvão, etc., etc. que tem, também,  um conto meu, Braz Chediak.  Peço aos amigos que divulguem a obra e que, principalmente, a leiam.
Abraços,
Braz


Escrito por Belvedere às 21h06
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TESTEMUNHOS E RECORDAÇÕES

Braz Chediak

Caminhando por Santa Teresa *, sentindo o frio do mês de agosto, aproveito o silêncio do dia que amanhece para observar nossas ruas, nossas árvores, nosso Rio Verde, que nesta época está mesmo verde e passa tranqüilo, se exibindo alegremente. Recordo Bachelard, em O Direito de Sonhar: “O mundo quer ser visto: antes que houvesse olhos para ver, o olho da água, o grande olho das águas tranqüilas olhava as flores que se abriam. E é nesse reflexo - quem dirá o contrário? - que o mundo tomou, pela primeira vez, consciência de sua beleza...” Que momento magnífico esse em que o mundo, o nosso mundo, toma consciência de sua beleza!

Continuo a caminhada. Na avenida, uma jovem, mirando-se no vidro de um carro estacionado, arruma delicadamente seus cabelos. Seus joelhos estão dobrados sobre o capô e sua perna repousa, brilhante, perfeita, em harmonia com a curva da manhã que surge no céu. Ela faz parte do dia que nasce. Ela é o dia que nasce.

Diz a lenda que “nos jardins do Oriente, para que as flores fossem mais belas, para que florescessem mais depressa, mais calmamente, com clara confiança em sua beleza, tinha-se bastante cuidado e amor para se colocar, diante de uma haste vigorosa que levasse a promessa de uma jovem flor, duas lâmpadas e um espelho. A flor podia então se mirar durante a noite. Tinha, assim, infindavelmente, o gozo de seu próprio esplendor.” É esse o gozo que aquela jovem sente, pensei, e à distância, não querendo que ela me veja, para não interromper seu gesto, fico feliz por testemunhar esse instante glorioso.

Na rua onde morei sinto uma pontada de tristeza: recordo-me de meu pai e minha mãe, sentados na varanda, me desejando um bom dia. Recordo-me de um vizinho, que já se foi, passeando com seu cão e dizendo, alegre como uma criança: - Braz, este é fila legítimo!

Mas afugento a tristeza. Sinto que eles, meu pai, minha mãe e o vizinho estão ali, presentes nas calçadas, nas árvores, no canto dos bem-te-vis que acordam, no vôo de uma corruíra que começa sua algazarra procurando insetos pelo chão, e querem ser lembrados com alegria, como vida, pois estão ligados para sempre à vida. São eternos e a “a eternidade não é outra coisa senão a libertação do tempo, a volta à inocência, o regresso ao espaço”.

Entro na padaria e peço meu desjejum. A funcionária me atende com um sorriso claro. Percebo que ela, que é naturalmente alegre e tem sempre uma palavra carinhosa para os fregueses, está mais radiante, exibindo orgulhosa um início de gravidez. Serve-me o café com leite e o calor do copo aquece minhas mãos. Sinto o cheiro e o sabor do pão e me recordo de quando ela, ainda criança, começou a trabalhar. Posso dizer que a vi crescer, que também testemunhei sua formação de mulher. E agora testemunho a vida que ela traz dentro de seu ventre.

E são estes testemunhos, estas recordações, que me ajudam a começar o dia e a escrever esta crônica. Uma crônica em homenagem à jovem e a seu filho que ainda não nasceu. Em homenagem a meus pais e ao vizinho que, com sua eternidade, fazem parte de minha memória. Ah, como são sábias as palavras de Norberto Bobbio, quando nos aconselha: “Concentremo-nos. Não desperdicemos o pouco tempo que nos resta. Percorramos de novo nosso caminho. As recordações virão em nosso auxílio.”

* Santa Teresa: bairro tricordiano onde moro.



Braz Chediak,
cineasta e escritor
Três Corações, MG
brazchediak@bol.com.br 



Escrito por Belvedere às 13h30
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Inspirada nas visitas a: http://blonicas.zip.net e www.cronopios.com.br

ABAIXO OS CLUBES DO BOLINHA

Thaty Marcondes

 

Outro dia, após visitar um site para o qual eu recebera o convite via e-mail, comentei com o emissor do convite que aquele site parecia o Clube do Bolinha: Menina não entra. Saco! Até virtualmente vão se fechar em copas, formar confrarias machistas e se isolar? Menina não entra por que? Por acaso vocês, meninos bolinha, acham que escrevem muito e as mulheres nada? Ta certo, reconheço que existem as pseudo escritoras, desabando em linhas sua falta de conhecimento da língua materna e suas lágrimas de jacaré. Poetisa então, nem me fale! Há uma verdadeira enxurrada. Mas estas, meus amigos, nem lêem os textos de melhor qualidade: não entendem e mal se lembram do que é um dicionário. Ta certo, encaro também que a maioria está na net, fazendo versinhos bonitinhos e rimadinhos com o único intuito de caçar homens, vampiros, machos virtuais, ou algo que o valha. Mas todas pregam o “não sou disso”. Porém, na calada da madrugada, atiçam a homarada (os Bolinhas de plantão), recebem um nick inspirado por alguma entidade da gang de uma Pomba Gira (isso elas conhecem) e atacam o vocabulário extenso de putarias (com o perdão da palavra) que acumularam durante anos de tentativas em vão de serem mais ousadas. Pegam no pé dos incautos, juram amor eterno, dizem que não são disso e nem daquilo (muito menos aquilo lá), depois que levam um pé na bunda virtual, saem chorando em versos “pé com chulé” suas mágoas, dizendo-se santas (do pau oco, claro).

Além disso, se existem essas poetas da madrugada pela net, também existem os seus pares, ou elas não teriam platéia pra justificar seu sitezinho pessoal, repleto de estrelinhas e flores dançantes, com um bolero de bordel como fundo musical.

Oras, vocês estão nivelando por baixo, pois o buraco, meninos, é bem mais em cima.

O que é que há? Inveja da nossa sensibilidade? Da nossa verdade rasgada em linhas? Da nossa paixão pelas letrinhas?

Vamos, tenham coragem e abram as portas: daqui pra frente menina entra!

 

26/08/05

 



Escrito por Belvedere às 13h27
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E-Books

BELVEDERE'S - POESIA
O e-book reúne uma coletânea dos melhores momentos poéticos de Belvedere Bruno.
Dedicado a pessoas que têm valor inestimável em sua vida: mãe, irmã, marido e uma amiga especial, assim se revela Belvedere: "Fiz uma seleção dos poemas que mais aprecio. Mostro, sem nenhum pudor, as minhas emoções, ora de forma suave, quase tímida, ora de uma forma sarcástica, contundente, ácida, É a minha tônica, e dela não abro mão."



Escrito por Belvedere às 12h58
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A festa de Araquari

A Festa do Senhor Bom Jesus de Araquari, que ocorre no dia 6 de agosto, é um desses eventos tradicionais, feitos nas comunidades católicas espalhadas no Brasil. Une praticamente toda a cidade. E quanto menor a comunidade maior o envolvimento.
A festa de Araquari teve na minha infância um papel bem mais importante do que as outras datas religiosas. Natal e Páscoa não mobilizavam metade das minhas expectativas. A festa era o acontecimento do ano.
Íamos de manhã, almoçávamos por lá, andávamos rua por rua, fazíamos o mesmo percurso várias vezes. Era uma espécie de passeio circular, pois Araquari é uma cidade pequena, feita de poucas vias ao redor da igreja matriz. No final do dia, seguíamos a procissão e voltávamos para casa plenos de alegrias.
Ainda corre na memória a primeira vez em que me perdi na festa: desatei da mãe e eis mais um infante aos berros no meio do formigueiro humano. Alguns anos mais tarde, já crescido, como se acha todo garoto de 10 anos, a independência total: andar o dia todo sem o medo de se perder. A maravilha da liberdade comichava nas veias.
Um dos fascínios das festas do meu tempo (sim! Já estou dizendo 'do meu tempo') era a proximidade entre o sagrado e o profano. Pessoas que pagavam promessas deixando oferendas na poética sala de ex-votos também jogavam dados, roletas, argolas sobre caixas de fósforo, para conseguir a nota de dinheiro que estava embaixo da caixa. O comércio imperava com centenas de barracas, vendendo quinquilharias, brinquedos, correntes, maçãs-do-amor, inutilidades que só podiam ser compradas naquele dia. Havia um equilíbrio real. A cidade fervia nas ruas pelo contato quase erótico das milhares de pessoas e na igreja pela comunhão intensa da fé. A hora da procissão era o momento em que os dois mundos se misturavam.
Depois de muitos anos afastado, estive em Araquari no último dia 6. O padre disse que agora, sim, trata-se de uma festa religiosa, deixou de ser pagã. Acompanhando as novas diretrizes da Igreja Católica, não se serve mais bebida, não tem mais baile, o comércio ambulante foi limitado, e os jogos reduziram-se a meia dúzia de pessoas visivelmente culpadas por estarem ali.
Para combater os excessos de liberdade, a Igreja se tornou conservadora. Cortou tudo o que não se refere à religião. A festa agora pode ser realmente cristã, como gaba-se o padre, mas perdeu seu poder, digamos, ecumênico. A cidade esvaziou, o que era uma celebração total, permeada de fé e paganismo, tornou-se uma celebração séria, devota, distanciada da inocência, pois passou a acreditar que os jogos, os bailes, as bebidas eram representações da perdição dos homens, quando na verdade eram conseqüência ingênua da alegria advinda de finalmente ter chegado o dia da Festa do Senhor Bom Jesus de Araquari.

Rubens da Cunha, escritor


 



Escrito por Belvedere às 18h47
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Se Eu Fosse...


   Lara Cardoso

Se pintor eu fosse,
desenharia na tela
a beleza do teu sorriso
usaria todas as cores da aquarela,
faria mais perto o paraíso...

Se tivesse nas mãos
a sensibilidade de uma bordadeira,
preencheria em vermelho o coração
faria como uma cerzideira...
tiraria dele, qualquer vão!

Se bombeiro,
apagaria o fogo
para que não ficasse a consumir-me
pela dor desse malogro
de não tê-lo por inteiro

Astronauta... Ah! se eu fosse
até a lua eu traria
que, toda nua
a ti, se apresentasse,
e, jamais de ti, sairia;

Como cantora,
faria mais lindo o meu canto
secaria todo o pranto
tudo isso eu faria...
mas, sou apenas sonhadora
e, só posso fazer... poesia!



 
http://www.laracardoso.ebooknet.com.br




Escrito por Belvedere às 21h22
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