Sarau da Belvedere


Ritual de Espera ...

Delasnieve Daspet

E a noite acaba .
As luzes se apagam.
A cortina baixa.
Sei este texto de cor.
Quando ninguém mais olhar
- como estrela solitária -
vou seguindo...

Imaginei que chegarias de mansinho,
no último raio de sol
com a ligeireza da luz,
com a leveza da folha,
a intimidade da paixão,
na timidez do murmúrio
nos doces sussurros de amor.

Preparei-me.
Comprei tomilhos, alecrim, cravo,canela,
folhas de rosas e um tiquinho de arruda,
pra tomar um banho de cheiro,
harmonizar-me para o amor.
Para encerrar um óleo de lavanda,
suave para estimular.

Queria limpar o corpo,
tirar energias negativas,
acalmar meus desejos,
revitalizar-me, pois esperava!

Para adornar a pele morena
cobri a nudez com suave seda
de pálido luar.

Para enfeitar os lábios, tornei-os
vermelhos, macios e ternos morangos,
ao dispor da avidez!

Uma gota de chanel número 5,
nos pulsos, nas orelhas, e
por onde imaginei e quis beijos.

Acendi incenso ao amor
que teima em não chegar
...e como a lua faço serenata
a solidão que me abraça.


**16-01-03 - 00,50 hs
Campo Grande MS
Midi:  luabranca



Escrito por Belvedere às 08h30
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Lua Em Capricórnio
 
Muller Barone – Curitiba/PRa
 
Foi bom ter estudado um pouco de astrologia, agora, sempre que posso, ou até mesmo sem perceber, ponho a culpa do que faço ou sinto nos astros, embora a Narman, minha terapeuta, tenha avisado que isto vai me fazer voltar mais “peludo” (atrasado, preso ao inferno e com karma pesado) do que já sou.
 
Não foi por acaso, desta vez, que escolhi este título. Peguei literalmente um bode (se não for isto é parente próximo), Capricórnio, para expiar os pecados genéticos, tipo o pecado original, que ainda carrego, que me deram sem que eu tivesse sido responsável por ele. Leva tempo para a gente se livrar de tanta baboseira e preconceito impostas para que cresçamos, vivamos e, por fim, voltemos ao pó de uma forma absolutamente previsível e de fácil controle pelo sistema. Não raro, pego-me sendo assaltado por pensamentos que se enquadram nesta lógica mortal e comum contra a qual insisto em lutar desde o momento em que tomei minha primeira decisão moral.
 
Pois a Lígia, com seus poucos dezoito anos, me pede uma calça (“super fashion, pai, hiper do bem”) que ela viu na Siberian, de Dia das Crianças (manjaram a chantagem do Bebezão? Só porque dá uns cheiros antes de dormir, exige presente dia 12 de outubro). Um dia antes, eu havia passado pela loja e meio que fissurei numa calça para mim, que eu chamo de pescador e ela de capri.
 
Fomos à loja. Vai a Lígia para o provador e sai vestindo o presente. Corujices à parte, ela ficou uma gata. Chegou minha vez, entro e visto a calça, algo que eu queria faz tempo. Olho para o espelho, percebo o visual e gosto. De repente, subo o olhar e pego em cheio minha barba por fazer forrada de pêlos brancos. Veio a Lua em Capricórnio, melhor, meu bode expiatório para o preconceito contra o qual sempre lutei e acabou me pegando. Senti-me velho. Não exatamente velho, mas um cara de idade tentando segurar o tempo. Tirei a calça, claro que vesti a que estava usando antes, e saí do provador, acreditem, com vontade de chorar e me sentindo o ridículo da vez.
 
O bebê ainda disse que ficou muito massa, muito do bem. Virei para ela e disse o que estava sentindo, ela me abraçou, disse que era bobagem, que tava linda a calça e que era o meu jeito. Filhos, melhor tê-los, pelo menos quando a gente vai comprar uma calça pescador.
 
Deixei o bebê no shopping, corri para casa e fiz a barba (como se adiantasse). Olhei para o meu rosto limpo e percebi com mais atenção algo que já havia notado: as duas covas que sempre tive no rosto, ao sorrir, já não são mais as “duas covinhas” que minha professora, em 1971, gostava de olhar e sempre dizia que queria ser enterrada nelas. São, agora, sulcos, marcas que não sei se são do tempo, simplesmente, ou de todas as vezes em que chorei por ser impotente diante de tanta coisa que rola pelo mundo. Agora são valas enormes, como aquelas do cemitério de Perus, de campos de concentração nazistas ou da Bósnia, dá para enterrar todas as minhas professoras nelas e ainda sobra espaço para os docentes alheios.
 
Só e triste, em casa, olhei para a calça sobre a cama e, mais uma vez, para o meu rosto. Pensei “Lua em Capricórnio, tá matando o adolescente dentro de mim”. O Cláudio diria que é uma Lua em Querida (aquela secretária fascista que trabalhou com a gente), fazendo falsete para imitá-la: “Querendo segurar o tempo, velho pederasta?”.
 
Foram meus genes, aquele preconceito todo que vem com o DNA e, entre tantas outras coisas, nos dizem que estamos envelhecendo, que não pode um homem de 44 anos usar calças que os adolescentes estão usando, que não posso achar linda uma menina de dezoito, que o desejo é pecado, que o tesão se vai com o tempo e que eu devo ser sério, adulto e sóbrio só porque passei dos trinta e, portanto, sou um hominho. Se eu fosse artista, modelo ou gay, tudo bem, daí o sistema permitiria. Como sou advogado, nunca teria a menor chance de ser modelo e ainda não apareceu homem que me fizesse dizer “ok, bofe, vamos nessa”, semelhante ousadia era intolerável.
 
Pus a culpa no bode, mas ela era minha, totalmente minha, das impurezas que trouxe com o genocida código de ética cristão. A Lua em Capricórnio (da rotação solar, esqueci de avisar. A do mapa natal é em Libra, nem daria bola para isto) serviu para que eu culpasse alguém, mas, ao mesmo tempo, devolveu a raquetada e disse que eu deveria analisar quem estava, afinal, sendo preconceituoso e conservador.
 
Mais alguns infinitos cinco minutos olhando para minhas marcas no rosto e para a calça, escuto lá fora o canto de um pássaro e lembro que já estamos na primavera, que sempre esquecemos que tudo se renova e viver é preciso, sempre lutando contra tudo isto que nos fez escravos de nossa própria escuridão e estreiteza de horizontes. O canto em algum lugar por ali me fez lembrar que foi minha rebeldia que me trouxe até aqui e fez de mim alguma coisa já distante do chato aceitável e padrão adulto, fincou as raízes dos meus ideais para tentar ser melhor e sorrir mais do que chorar, como uma forma de conter a erosão no meu rosto.
 
Olhei para o meu rosto, sorri das marcas, tomei banho e vesti minha calça nova para passear no final do domingo. Só falta, agora, um calçado adequado. Estou pensando numa alpargata Rhoda, aquelas de lona com sola de corda. O que você acha, Lua em Capricórnio?
 
Escrita em setembro de 2004



Escrito por Belvedere às 16h47
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Sempre tive muito cuidado ao responder à esta pergunta:
- Tudo bem ?
Não quis nunca ser banal e responder um "tudo bem", mesmo sem o ser.
Então, não vou dizer tudo bem porque nem tudo está bem.
Mas, quando é que tudo está bem?
Quando se tem açúcar, falta o pó.
Quando se tem o açúcar e o pó, falta água
Quando se tem açúcar, pó, água, falta o coador
Quando se tem açucar, pó, água, coador, falta gaz
Qaundo se tem açúcar, pó, água, coador, gaz, falta fósforo
Quando se tem açúcar, pó, água, coador, gaz, fósforo
A gente se dá conta que o instante do cafezinho passou!
É hora do jantar. E se começa tudo de novo.
 
 
 
Linda Maria


Escrito por Belvedere às 11h53
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Minha Criança

 ARTUR DA TÁVOLA

Peço licença para falar na minha criança, a que mora aqui dentro e não me abandonará jamais. Talvez com a morte eu até regresse a ela. Os quase setenta anos que dela me separam não a removem. Ela ali está, magra e tímida, a me olhar e ditar comportamentos e reações.

Minha criança esteve em todos os meus filhos e aparece no meus sete netos. Ela se refaz da morte da irmã e abre os olhos para o mundo, com a certeza de que veio ao mundo para alguma missão, embora sempre se considere inferior ao tamanho da mesma. Minha criança sente enorme saudade de pai e da mãe com quem o adulto já não conta salvo no exemplo, na saudade e nas orações quando me domina uma fugidia sensação de estarem, incorpóreos, a meu lado, mas sem se manifestarem.

Minha criança possui incomensuráveis solidões diante do mistério do infinito. Ainda recua diante do violento, embora não o tema, e ainda se infiltra em episódios de distração e inocência inexplicáveis num homem com minha carga de vivências. Minha criança ainda gosta de abraço caloroso, proteções misteriosas e de um modo de rezar que o adulto nunca mais conseguiu tais a entrega e a total confiança no Mistério e na proteção de Deus.

Minha criança carrega o melhor de mim, é portadora de meu modo triste de falar de coisas alegres e de algum susto misterioso sempre que se lhe impõe alguma expectativa d enfermidade. Minha criança é inteira, mansa, bondosa e linda. Eu a amo, preservo, e dou boas gargalhadas quando a vejo infiltrar-se nas graves decisões de algumas de minhas responsabilidades adultas. Ninguém a vê, salvo eu. Ninguém a acaricia, salvo eu, que a estimo, procuro e admiro mais a cada dia e com quem converso histórias infinitas, que somente a imaginação pode conceber no universo maravilhoso da fabulação interior e solitária.

Diariamente passeio com minha criança e estou muito feliz por cumprimentá-la, levar-lhe balas, nuvens, aquele cão da meninice, as canções de minha mãe e os carinhos de meu pai, levar-lhe os presentes que ganhava de meu padrinho e toda a enorme vontade de Ser que então adivinhava para a minha vida. Vida que chegou, ameaça passar, e da qual não me arrependo. Minha criança adivinhou em seus sonhos o adulto que eu queria ser. E traz alegria e esperanças à minha idade atual. Hoje sou, há muito tempo, o adulto que sonhei ser. Talvez com menos tensões, mas igualzinho em meu modo de amar a vida.

http://www.arturdatavola.com/



Escrito por Belvedere às 09h38
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Arte de amar

Thiago de Mello


Não faço poemas como quem chora,
nem faço versos como quem morre.
Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira
quando muito moço; achava que tinha
os dias contados pela tísica
e até se acanhava de namorar.
Faço poemas como quem faz amor.
É a mesma luta suave e desvairada
enquanto a rosa orvalhada
se vai entreabrindo devagar.
A gente nem se dá conta, até acha bom,
o imenso trabalho que amor dá para fazer.

Perdão, amor não se faz.
Quando muito, se desfaz.
Fazer amor é um dizer
(a metáfora é falaz)
de quem pretende vestir
com roupa austera a beleza
do corpo da primavera.
O verbo exato é foder.
A palavra fica nua
para todo mundo ver
o corpo amante cantando
a glória do seu poder.



 



Escrito por Belvedere às 12h18
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UM POETA ESPETACULAR

FLUXOS
 
sal
que me inflama
que me arde
que me palpita
      sucumbo ao ciclo
      dentro do absoluto
      deste meu fazer-se
            e líquido me esvaio
            em busca do mar redentor
                                                    Otávio Coral
 
 
LÁ & CÁ
 
enquanto ao longe
ciprestes se incendeiam
      aqui, bem dentro de mim,
      pequenas flamas inquietas
      vão se apagando, sem vento
                                                Otávio Coral
 
 
POÉTICA
 
Tão bom sentir-te,
aspirar teu suspiro,
sorver teu hálito,
tocar tua pele.
         Há uma só leveza
         pairando no ar
         e aquele grão de vida
         se restabelecendo pleno.
Os acordes da magia
vão se fazendo música,
embalando as emoções,
pontuando as sensações.
                                      Otávio Coral
 
 
SEM RASTROS
 
Na praia deserta
coberta de salsugem,
mergulho na areia
e me afundo dentro de mim.
        Uma língua de espuma
        lambe os meus restos.
                                          Otávio Coral
 
 
CLAMOR
 
Há uma espera de portas
Abrindo-se para a certeza das formas
Que jazem escondidas pelo tempo.
       As proibições se calarão
       Enquanto os poetas cantarão.
                                                    Otávio Coral
 
 
DEVORA-ME
 
Sob o clarão geométrico
das luzes acantonadas
devora-me.
 
No fundo cristalino
das águas sussurrantes
devora-me.
 
Dentro da espiral infinda
da volúpia incontida
devora-me.
 
Entre perfumadas orquídeas
de crepusculares jardins dos corpos
devora-me.
                 Otávio Coral
 
                 Otávio Coral
otaviocoral@ajato.com.br
www.otaviocoral.prosaeverso.com.br
www.vaniadiniz.pro.br/O.coral/index.htm
www.mayte.us/otaviocoral.htm
www.recantodasletras.com.br/autores/Otavio



Escrito por Belvedere às 12h12
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nem conto de fadas, nem nada
 
© Linda Maria
 
Era uma vez uma tartaruga que sabia voar. Mas, tartaruga.
Era uma vez uma gaivota que não sabia voar. Mas gaivota.
A tartaruga ensinou a gaivota a voar.
- Por que uma tartaruga ensinaria uma gaivota a voar?- perguntaram muitos animais.
- Simplesmente para que voasse! disse-lhes a tartaruga, bem devagar.
 
A felicidade não tem estada, não tem lugar.
Mas, para a tartaruga - porque tartaruga- a felicidade é o vôo da gaivota - porque gaivota- e o mais alto e leve possa ela voar!
 
 
 
© Linda Maria


Escrito por Belvedere às 08h52
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