ÚLTIMOS INSTANTES NESTE MAR
Que ondas são essas, tão estranhas? Empurram-me e, quando vou, algo me impede. Obriga-me a voltar. Sufoco. O som da tua voz não traz alento. Diverso de sempre, entrecortado por soluços, geme. Sinto medo. Serei eu a provocar-te tanta dor? "Oito minutos..." O que procuras, assim, tão apressada? "Sete... seis... Deus, ajude!" Meu corpo bêbado, não coordena... Cheiro forte! Entonteço. "Cinco... quatro... três minutos. Tudo ou nada". Um brilho fere meus olhos. De onde veio? Alguém me puxa, com força e um rio vermelho cerca nossos corpos nus. "Dois... um". Desfaleces junto a mim. Choro. A faca, ao lado de meu pequeno corpo reflete tua coragem de mulher e mãe. Com teu amor, trouxeste-me à luz.
Tania Melo
1º lugar no Concurso Semanal "Rapidinhas", da Oficina dos Escritores, RJ, em 25/11/05
Escrito por Belvedere às 12h31
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exercício número cinco
da sala ouço o tique-taque do relógio num som seco e duro; da geladeira o ronco cristaliza o momento, ao longe late um cachorro por qual motivo nunca saberei; um carro passa levando um incauto amor ou alguém cansado ou talvez feliz; enquanto eu, visualizo no ambiente a quietude da minha burguesa e pacata vida
pastorelli
Escrito por Belvedere às 12h19
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Iraci Nogueira Feitosa
A humanidade inteira se alegra com a data em que se comemora o nascimento de nosso querido Mestre Jesus. É Natal! Mas, em meio a tanta gente e, não muito distante, alguém está ali sentado num banco frio do jardim. Suas roupas, seus sapatos surrados... Uma existência sem rumo, sem sentido. Cansado de existir, se nega a acreditar na vida. Um desconhecido? Quem sabe... No seu mundo de solidão, adormece. Adormecido, sonha... Sonha ter um lar, uma família... Sonha que é o homem mais feliz do mundo. De repente, acorda e vê que tudo não passou de um sonho... Sonho de uma noite de Natal. Leva, então, seu pensamento a Jesus e pede que lhe realize o sonho... e que não acorde nunca mais!
Iraci Nogueira Feitosa
Escrito por Belvedere às 12h15
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O BOM DE NAMORAR
Artur da Távola
Quem não tem namorado tirou férias do melhor de si. Namorado é a mais difícil das conquistas. Necessita de adivinhação, pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil! Namorado não precisa ser o mais bonito e sim quem se quer proteger, mas quando chega, a gente treme, basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode estar sem namorado. Quem não tem namorado não é quem não tem um amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Não tem namorado quem não sabe o gosto de chuva, de sessão das duas, de medo do pai, de sanduíche de padaria ou drible no trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho ou se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa; quem ama sem alegria.
Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar. Não tem namorado quem não sabe o valor de olhar encabulado; de carinho escondido ou flor catada no alto do muro e entregue de repente; de gargalhada, quando fala ao mesmo tempo ou descobre a meia rasgada; de ânsia enorme de viajar para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico, bugre ou no foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer sesta abraçado e comprar roupa junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor e de ficar horas olhando o outro, abobalhado de lucidez. Não tem namorado quem não tem música secreta, quem não dedica livros, quem não recorta artigos e não se chateia com o fato do seu bem ser paquerado.
Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, - na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais. Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações e quem só pensa em ganhar. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e tem medo de mostrar que se emocionou.
Se você não tem namorado é porque ainda não descobriu que amar é alegre!
Enfeite-se com margaridas e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão soasse a flauta e do céu baixasse uma névoa de borboletas, cobertas de frases sutis e palavras de galanteria. Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouco necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido.
Enloucresça!
Escrito por Belvedere às 09h08
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