Sarau da Belvedere


 

GATO GATO, LEBRE LEBRE OU APENAS FAZ-DE-CONTA?

 

Especial para o Jornal Castelo de Lanhoso, publicado em 28.01.2005

 

O Velho do Restelo estava certo. Ó glória de mandar, ó vã cobiça / Desta vaidade a quem chamamos fama! Não tinha telemóvel, não tinha computador, não tinha nenhum mercedes topo da gama, não usava sequer um mísero relógio no pulso descarnado, mas sabia das coisas. Entendia mais de humanos defeitos do que os padres confessores entendiam de virtudes. E também não tinha medo da verdade.

O projeto de texto de ortografia unificada de língua portuguesa foi aprovado em Lisboa pela Academia das Ciências de Lisboa, pela Academia Brasileira de Letras e pelas delegações de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe no dia 12 de outubro de 1990. E, embora o português seja língua oficial apenas a partir da margem esquerda do rio Minho, a delegação de observadores da Galiza também aderiu à caldeirada. No artigo lº aprovou-se o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, no artigo 2º avisaram-se os navegantes que os Estados signatários tinham prazo até 1º de janeiro de 1993 para tomarem as providências necessárias à elaboração de um vocabulário ortográfico comum da língua, e, no artigo 3º badalou-se aos duzentos milhões redondos de falantes que o acordo entraria em vigor no dia 1º de janeiro de 1994. Faz hoje, portanto, onze anos e vinte e oito dias. Tempo mais do que suficiente para se considerar que o que merece ser feito merece ser bem feito.

As razões apresentadas pelos defensores do novo corte de cabelo, eu estava no Brasil naquela altura, foram todas, pelo menos lá, de uma lógica à prova de arrotos aristotélicos ou semelhanças sovacais. Ora se dizia que não havendo uma ortografia unificada nos países de língua portuguesa os governos não poderiam entender-se, e isso, o mais que fez foi provocar retumbantes gargalhadas no salão, ora se dizia que sem a santificada unificação o português, embora falado nas sete partidas do mundo, jamais poderia ser uma das línguas oficiais da Organização das Nações Unidas (ONU).

Só que as gargalhadas eram o de menos. O de mais foi o professor Antônio Houaiss, um dos mais ferrenhos defensores do acordo, logo sair a campo com o rascunho do seu Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Que, dizia-se, já seria editado nos conformes do novo corte capilar. Verdade ou não, o fato é que a Editora Nova Fronteira entrou na dança e botou a boca no trombone. Nada de mexer no Novo Dicionário da Língua Portuguesa do professor Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, o famoso Dicionário do Aurélio, editado por ela em 1975 e até então o seu carro-chefe de vendas. Com a ONU pudicamente recatada e sem a menor vontade de meter a mão na cumbuca, a pergunta rolava pelo asfalto que nem minhoca em dia de trovoada: quem ganharia a guerra das estrelas dicionarais? Ganhou o Aurélio. O professor Antônio Houaiss morreu em 1999 e quem completou as atuais 3008 páginas do dicionário, foram os seus colaboradores. E sem nenhum mexe-mexe no couro cabeludo.

Mas, na verdade, o que é que pretende mudar na língua portuguesa este tão cantado e decantado acordo? Aliás, para bem da verdade, diga-se que de acordo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa não tem nada. Poderá fazer tudo menos unificar ortografias. Como nenhum dos prazos de 1990 se cumpriu, em julho de 1998 os mesmos signatários tiraram as violas do saco e deram uma de fado em tom maior. A data de 1º de janeiro de 1993 que constava no artigo 2º virou andorinha migratória no campanário das urtigas e o mesmo aconteceu com a data de 1º de janeiro de 1994 do artigo 3º. Mas não foi apenas esta cafungada que embotou o fio das tesouras. No encontro de São Tomé e Príncipe, em julho de 2004, ficou assente que, em vez dos oito, uma vez que Timor Leste também entrou na balaiada, bastaria apenas a concordância de três dos signatários para o acordo bater asas e voar que nem corvo em manhã de nevoeiro. Forte, fiel, façanhudo, fazendo feitos famosos. E é justamente na conjunção de todos estes efes que cabe a mais politicamente correta das perguntas: será que a ONU vai aceitar o português como uma das suas línguas oficiais, se só Portugal, Brasil e Cabo Verde concordam em (ou têm condições de) assinar a mexedura? Gente, cuidado com a esmola que, das duas, de certeza que é nenhuma. Ou para a ONU tanto vale concordância total como nenhuma concordância, ou a ONU não sabe nem o que (e quais) são as suas próprias línguas oficiais. Afinal, se são oito os países que têm que assinar o acordo, como é que a ONU aceita a unificação da língua portuguesa apenas com a assinatura de três deles? E se os outros cinco (ou só um) nunca quiserem assinar, que unificação vai ser essa? Fica quem nem Os Três Mosqueteiros, que eram quatro e valiam por um cento? Em termos lógicos e sérios, não há como a ONU considerar unificada a língua portuguesa e considerá-la uma das suas línguas oficiais se só três dos países participarem do acordo. Ou, então, para os burocratas do outro lado do Atlântico os outros cinco países nada valem e a ONU apenas faz de conta que valem. A ver pelos pneus, valer ou não valer é que nem mulher de vizinho. Tem vizinho que tem, tem vizinho que não tem, e estamos conversados.



Escrito por Belvedere às 10h41
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continuação

 

Mas com ou sem vizinhanças, beneplácitos e bênçãos da burocracia onululesca, o que é que muda realmente na língua que nós aqui falamos e escrevemos e que os outros países lusófonos, oficialmente, não entendem? Mais chinchafol, menos chinchafol. 1) Neste verdadeiro ora agora viro eu, ora agora viras tu, Portugal mantém o acento agudo no e e no o tónicos que antecedem m ou n e o Brasil mantém o acento circunflexo: fenómeno/fenômeno, tónico/tônico. O que vale uma honestíssima pergunta: será que com estes ó e ô e é e ê, o prometido projeto da grafia unificada não foi pimbar pimbinhas no campanário das urtigas e tudo que a Filomeninha ganhou entre o centeio não passou de um imenso faz-de-conta à la me engana que eu gosto? 2) Portugal elimina as consoantes não pronunciadas já eliminadas no Brasil: ação em vez de acção, ótimo em vez de óptimo. 3) Portugal mantém as consoantes pronunciadas, mas também já eliminadas no Brasil: amnistia em vez de anistia, subtil em vez de sutil. 4) O trema, que ainda se usa no Brasil, lingüiça, freqüência, some nas pororocas do Amazonas e só tremerá nas palavras derivados de nomes estrangeiros. 5) Acaba-se o acento agudo nos ditongos abertos éi e ói das palavras paroxítonas: ideia em vez de idéia, joia em vez de jóia. O acento é mantido quando o ditongo está na sílaba final das palavras oxítonas e vem seguido, ou não, de s: fiéis, corrói. Agora, vejam só o mais perfeito fuzuê de quantos pênaltis não foram marcados na última Copa do Mundo: herói continua sendo herói, mas heróico é obrigado a acobardar-se num coitado de um heroico. 6) O acento diferencial, esse pula mais do que pipoca. É um entra-sai que nem grilo em toca de grila. Mantém-se no verbo pôr para o distinguir da preposição por, mas tira-se da flexão pára (do verbo parar), que não precisa ser distinguida da preposição para. Aí, D. Gonçalo Rodrigues de Palmeira, primeiro mordomo-mor da Infanta D. Tareja, abre o berro e manda ver: e ele há umas preposições mais fidalgas do que as outras? E o pélo (verbo) e pêlo (cabelo)? Esses, coitados, serão só um pelo (amor de Deus!). 7) Do hífen, bastará dizer que o escritor António Lobo Antunes não amará mais nenhuma pedra. O hei-de virará hei de, e lá se foram os amores. 8) O caso do apóstrofo é específico: nem sim nem não, muito antes pelo contrário. 9) A divisão silábica, como só uma mulher assinou o projeto em 1990 (a ministra da Educação e Cultura de São Tomé e Príncipe), essa, ficou por conta dos fanhos. Quem gaguejar, já viu.



Escrito por Belvedere às 10h40
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continuação


Só que, na realidade, e a realidade, neste caso, é a mais triste de quantas e quantas ao mundo vieram, o que mais afasta os países lusófonos não são os sinais ortográficos ou este ou aquele espirro de algum lingüista (leia-se burocrata) mais enfezado ou já a caminho do cemitério. O que mais afasta os países de língua portuguesa, e muitíssimo mais do que todos os governos admitiram, admitem e hão-de admitir, são as enormérrimas diferenças culturais. Por mais que os burocratas teimem em fazer de conta que unificam grafias (não esqueçam o fenómeno/fenômeno, tónico/tônico), ou nos queiram impingir que a assinatura de três vale pela assinatura de oito, coisa que nem o antigo Estado Novo se lembrou de inventar no seu todo-poderoso quero, posso e mando, se os governos não praticarem aproximações culturais em vez de promoverem apenas portos de honra, nada feito. Afinal, quanta cultura os oito países lusófonos intercambiaram até hoje? Em sã consciência, o que conhecem os povos desses países (não apenas alguns ditos intelectuais, mas os povos) daquilo que fazem os outros nas suas artes? Será que quando o Caetano Veloso vem a Portugal cantar em inglês nos mostra que tipo de música popular se compõe hoje no Brasil? E será que quando vai algum artista português ao Brasil, naquele sempre-cabe-mais-um dos portos de honra oficiais, o que ele por lá diz ou faz mostra aos brasileiros a arte que se cria em Portugal? Isto, Portugal e Brasil. E, vá lá, até um pouco Angola, Cabo Verde e Moçambique. Agora, peguem Timor Leste, Guiné-Bissau ou São Tomé e Príncipe e me digam se neva nas alturas de Barroso. Quem, tirando as rolhas das garrafas dos portos de honra, viu filmes do guineense Flora Gomes, um dos grandes cineastas mundiais? Nem mosca varejeira. Mas tem mais. Será sempre muito oportuno e muito bom não esquecer que, só para mudar meia dúzia de símbolos gráficos que nada vão unificar (o fenómeno/fenômeno, tónico/tônico estão aí para não me deixarem mentir), o preço a pagar pelo tão cantado e decantado Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa será altíssimo. Alguém já pensou no custo que as editoras terão para mudar a impressão dos seus livros atuais? Quem toma portos de honra não pensa em custos, já lá dizia, e muito bem, São Glutimênio de Los Pulos Olímpicos. Por isso, também é sempre muito oportuno e muito bom lembrar aos senhores dos poderes oficiais que o mais importante não são os beberetes nem os discursos. Seria, se eles dessem ouvidos ao bom-senso, multiplicar e multiplicar o intercâmbio das culturas. Que importa abolir (ou não) um trema, um acento ou um hífen, se em Portugal se continua dizendo aquela miúda é giríssima e o Brasil responde com aquela mina é muito do legal? E quem me sabe dizer como se dirá isso em Angola, em Moçambique, na Guiné-Bissau, em Cabo Verde, em São Tomé e Príncipe ou em Timor Leste? Será que o tão cantado e decantado Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa saberá ou tudo ficará como dantes no quartel de Abrantes, e apenas muda a biqueira da bota do comando?
 
Cunha de Leiradella
Escritor
leiradella@clix.pt
 
 


Escrito por Belvedere às 10h38
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Minha Mileide fez sua caminhada... solo... para o Universo!
http://www.lunaeamigos.com.br/homenagens/mileide.htm



Delasnieve Daspet
 
 Foi em novembro de 1.996 que o Werner, meu filho caçula, apareceu com a novidade;

-"Mãe, ganhei uma cocker. Nasceu no dia 8 de outubro passado, e, vou trazê-la em dezembro" .

_ "Dia oito?!" - nossa! - respondi - no dia do aniversário do teu pai...

Ficou nisso - mas antes do Natal ela chegou.

Eu já não queria mais cachorros - me envolvo muito com eles - eu os amo - e, tem vez que nem saio de casa para não deixá-los a sós.

Vocês entendem do que falo, tenho certeza. Porque os filhos trazem os animaizinhos - mas quem os cuida, somos nós, os pais.

Ela chegou. Pelagem preta e branca. Um toquinho de cachorro. Tinha apenas dois meses..

Brava que só.

E, surpresa! a cocker se revelou a mais queridas das vira-latas. Era uma cruza de cocker com fox. Herdou do cocker as patas peludas, as orelhas caídas, olhos cor de mel e o peito peludo e o porte elegante no andar. Do fox, o gênio irascível e barulhento.

Eu amo cachorros.

Me entrego, a eles, de coração. Totalmente. E, eles, a mim.

Temos, eu e os meus cachorros o mais profundo amor e respeito um pelo outro - como criaturas que habitamos este planeta e filhos de Deus - que somos.

Aquele tiquinho de cachorro chegou e tomou conta. Briguenta - rosnava e arrumava encrenca com quem chegava ou passasse pelo portão de casa.

Criava caso com todos - imaginem aquela "trainha" de nada chamou o Killer para uma briga. O Killer - é o Boxer do Marcel - hoje , com 10 anos. Meu lindo, adorável brasino, crianção, um doce babão. Quem tem Boxer sabe do que falo.

E como a chamaríamos?

Veio uma lista de nomes... Werner optou por Mileide.

Mileide era a própria "ladie" - reinava absoluta e serena. Era comilona, suave, doce, uma amiga amorosa. Acima de tudo era uma companheira inseparável. Enquanto eu estivesse de pé - ela estaria ao meu lado - com beijinhos (lambidinhas) e seu não ligasse uma pequena mordida na perna, como que me dizendo: "eii! tou aqui!" .

Se eu estivesse escrevendo ou no pc ela estaria deitada ao meu lado.

E quando achava que já bastava de escrever, ler ou trabalhar ela vinha me dava uma focinhada e um doce grunhido e, me mandava a bolinha de borracha para jogarmos... não importa a hora que fosse... vez ou outra me pegava jogando bola 01 hora da manhã...

Aí eu parava tudo e olhava dentro do seu olhar cor de mel e me entregava a um convívio de amor gentil.

Falar de amigo é complicado. Muito difícil.

Ainda mais quando o amigo em questão é aquele que sempre esteve ao teu lado em todos os momentos da vida.... Chovendo ou fazendo sol - lá estava ela!

Pois - de novo - chegou dezembro. 2005. Nove anos da chegada de Mileide... e, eis que de repente percebo que ela esta quieta, sem brincar num canto - com leve tremor pelo corpo... não achei que fosse nada sério...

Só na semana do Natal é que me dei conta que minha amiga estava enferma.

Veterinários. Remédios. Comidinha especial... nada ajudou.

Os chamegos e os carinhos já não eram retribuídos com a alegria de sempre.

Somente seu olhar continuou intenso - docemente dolorido!

Ela está internada agora. Passamos a noite em claro - ela nos meus braços, eu a ninando - como ela me ninou tantas vezes com sua companhia, à sua maneira.

Falei com ela. Li trechos de A Última Grande Lição - O Sentido da Vida - de Mitvh Albom.

Sei que ela entendeu minhas ponderações. Pedi a ela que se desapegasse da vida.

Que eu nunca a tiraria da cabeça pois ela vive em meu coração. Que viveria em mim nas saudades do que não fizemos.

Cochichei em seu ouvido - para que ninguém me ouvisse e me chamasse de louca: "Vá, querida"!

Abra tuas asas e alce seu vôo. Solo. Lá no infinito te espera um céu de bolinhas azuis, nuvens brancas, água limpa e tigelinha verde de ração...

Deve existir um céu de cachorros... Lá um dia eu irei te abraçar e beijar e agradecer estes 9 anos de puro e verdadeiro amor que partilhamos".

Olhei-a mais uma vez nos olhos. Dei-lhe um beijo e a ajeitei nos braços, encorajando-a com suavidade:

- "Vá, querida! Deixe-nos. Somos teus e és nossa.  Assim será sempre".

- "Vá! ".

- "Vá na frente e nos espere - um dia chegaremos - para o nosso reencontro, tão logo o Livro da Vida se feche".

Escrevo este tributo triste e o dedico a mais doce das "vira-latas" do planeta: MILEIDE!

... A frase da veterinária rebimboa em minha mente: "Está difícil a recuperação"...

Em Campo Grande MS - 21:56 hs do dia 9 de janeiro de 2006.
_______________________________________
Mileide foi a óbito no dia 10.01.2006 às 18:30 hs - não antes de se despedir com um abanar de rabo e um doce olhar.
 


Escrito por Belvedere às 19h35
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Breves anotações: o réveillon
 
Coisa tola e deliciosa os fogos de artifício. Conseguem devolver a infância até ao mais arraigado dos adultos. Talvez seja porque os vemos tão poucas vezes, ou estejam sempre ligados a datas comemorativas ou representam um rito de passagem, como são os finais de ano. Pode-se reclamar da fumaça, do barulho, do perigo. Pode-se reclamar que assustam os filhos pequenos e os animais de estimação, mas é impossível não erguer o pescoço e admirar sua beleza breve, jardinando o céu escuro numa profusão iridescente. Igual a tudo que é tolo e delicioso, passa depressa. Uma distração e se perde para sempre o florescer de uma rosa-de-fogo à meia-noite.

Madrugada. Prainha. São Francisco do Sul. Em menos de 300 metros: jovens bêbados e não-bêbados, homens e mulheres, tatuados, chorando, rindo, beijando, tentando beijar, tropeçando, dormindo, ouvindo Legião: "será que nada vai acontecer", pulando, rebolando no funk "tô ficando atoladinha, tô ficando atoladinha", água, caipirinha, cerveja, uma bebida não-identificada, braços erguidos "e vai rolar a festa, vai rolar", sentados, andando, desviando dos policiais, "alô galera, bate o pé e bate a mão", machucados, cansados, alegres, feios, fortes, musculosos, gordos, música eletrônica, "tututututun", sozinhos, juntos. No meio de tudo isso e mais tudo o que eu não vi, estava ela, em silêncio, cigarro entre os dedos, vestida como uma diva hippie, boina, saia comprida, ar blasé calculado. Nada destas plasticidades em série. Parecia um corpo artesanal, único. Nos olhos, a evidente pergunta: "o que eu estou fazendo aqui? Ausente, enfeitando a paisagem caótica. Acompanhei seus movimentos durante dez minutos. Voyeur que sou, a primeira noite do ano foi salva por uma mulher que nunca mais verei. Alguns dizem que eu deveria ter tentado um contato. Para quê? Para estragar a poesia?

Nada como uma novela das oito para uniformizar as mulheres. Nunca vi tanta Claudia Abreu junta.
Domingo. 1º de janeiro.Não faz sol. Chove às vezes. Diversas pessoas vieram à praia somente neste dia. Um misto de tristeza e comicidade invade-me quando vejo as crianças brincando dentro d'água e tremendo muito. Como toda criança é meio peixe, elas não estavam muito preocupadas com a falta de sol ou o frio. Percebo que triste e cômico sou eu mesmo.

Jogar canastra. Perder todas as partidas e em todas ouvir "azar no jogo, sorte no amor". Querer muito acreditar nisso, mesmo sabendo que azar e sorte vêm em pacotes fechados. Não se subdividem em categorias conforme a necessidade do consumidor.

O mar ainda é a grande surpresa. Nunca morei perto do mar, não sei se ele cai na rotina e passa a não ser mais visto. Acho que não é possível deslembrar tanto azul.
Rubens da Cunha
 
 
 
 



Escrito por Belvedere às 13h43
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OFICINA DE ROTEIRO E PROJETOS DE CINEMA PARA O MINC

A oportunidade de ganhar uma bolsa do Minc e escrever um filme.

Com a escritora e roteirista Sonia Rodrigues e o jogo Autoria de criar historias.

De 12 de janeiro a 24 de fevereiro de 2006

O participante sai do curso com seu argumento pronto, seguindo os moldes do Edital para Roteiro de Longa Metragem do Minc, que selecionará 10 projetos para receber uma bolsa no valor de R$ 50 mil cada. Os projetos deverão ser enviados para o Minc até o dia 4 de março de 2006.

Local: No Rio, Rua São Clemente, Botafogo.

Em Niterói, Rua Mariz e Barros, Icaraí.

Grupos pequenos ou atendimento individual

Informações: 81287239 e 27105295 (Livraria Veredicto)

srodriguesautoria@hotmail.com



Escrito por Belvedere às 13h41
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DEIXA COMO ESTÁ PARA VER COMO É QUE FICA

 

Especial para o Jornal Castelo de Lanhoso

 

         Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

         muda-se o ser, muda-se a confiança;

         todo o mundo é composto de mudança,

         tomando sempre novas qualidades.

 

         Continuamente vemos novidades,

         diferentes em tudo da esperança;

         do mal ficam as mágoas na lembrança,

         e do bem (se algum houve), as saudades.

 

         O tempo cobre o chão de verde manto,

         que já coberto foi de neve fria,

         e enfim converte em choro o doce canto.

 

         E, afora este mudar-se cada dia,

         outra mudança faz de mor espanto:

         que não se muda já como soía.

 



Escrito por Belvedere às 11h42
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continuação

 

         Este é o primeiro exemplar do Castelo de Lanhoso que se publica em 2006. Não será de estranhar, portanto, que se comece o ano publicando um poema do nosso grande Luís de Camões. E dentre os muitos que lhe saíram da pena, nenhum mais a calhar do que este soneto mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. É certo que mais de quatro séculos separam o Portugal que mandou o poeta prover defuntos e ausentes em terras orientais, do Portugal que nos manda fazer furos no cinto. Mas é certo também que, de tudo que mudou, o que realmente mudou, foi a velocidade. Nos idos de quinhentos o mais que se corria era a cavalo e hoje nem o vento nos consegue acompanhar. O mais que se matava era a tiro de bombarda e arcabuz e hoje as bombas atómicas e os mísseis são o pão nosso de cada dia. Mas, infelizmente, mudou apenas isso, a velocidade de fazer. Que o resto, o que realmente interessava que mudasse, tudo permaneceu. Tanto naquele tempo como hoje já nada se muda como era costume mudar-se em outros tempos: não se muda já como soía. E com um detalhe que é, nem mais nem menos, o retrato escrito e escarrado da diferença secular: Camões ainda se espantava desse não se muda já como soía; nós, se nos espantarmos, passamos mas é por parolos.

 

       



Escrito por Belvedere às 11h40
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continuação

  Diz-se (e tanto se repete que, a não isso ser verdade, em Portugal só se mente) que os portugueses não gostam de se olhar no espelho, de enfrentar a realidade, de pegar o touro pelos chifres, como muito bem diz Seu Totonho do Simu, o tio brasileiro do compadre Quim dos Nabos, aquele comentarista entendido em genéricos, sejam remédios ou programas de televisão, e que, pelos vistos, também já cheira-que-cheira em matéria de eleições (presidenciais ou presidencialistas?). Mas isso é um absurdo! - indigna-se, e até ver, com justíssima razão, o meu amigo Zé das Couves. Como pode ser verdade que os portugueses não gostem de se olhar no espelho, se o que mais compram são bens e serviços (e até pecados capitais) topo da gama, não tenham a coragem de enfrentar a realidade, se o que mais querem é ter (e com todo o direito, pois os outros também têm) reformas milionárias, não possuam a ousadia de pegar o touro pelos chifres, se rasgam as camisas e xingam as mães dos inimigos (pois quem não está comigo é contra mim) nos estádios? Nã. Aqui anda intriga da oposição. Se não andasse, não seria a propósito de tudo e, se calhar a propósito até de nada, que se diria por aí: se retirarem ao povo aquele romantismo que faz da saudade um prato tipicamente português, aquela arrogância de quem come sardinha assada e arrota pão-de-ló, aquele egoísmo de se julgar o primeiro sem perceber que é o primeiro dos últimos, aquele tradicionalismo à Frei Tomás, que se bem as diz melhor as faz, o Portugal de hoje, além de entrar no buraco sem fundo de uma depressão e de um défice monumentais, também deixará de ser o mais que digno sucessor do Portugal que deu novos mundos ao mundo. Cautela, Zé, meu amigo, pensa bem e me responde sinceramente: porque é que tu nunca ouviste ninguém dizer, olha acolá, não é o rei que lá vai nu? Será que nunca ouviste porque é vergonha apontar as pessoas com o dedo ou será que nunca ouviste porque se alguém apontar alguém, também poderá ser apontado? Pensa nisso, Zé, e, depois, me telefona, está bem?

         E estamos conversados. E por estarmos conversados, a bem da verdade (a bem da verdade, eu disse, não a bem da nação) ninguém conversou pois ninguém escuta ninguém, é que devemos ter o maior orgulho do que somos. Se as mudanças ainda não chegaram (nem chegarem), paciência. Afinal, neste clima pré-eleições presidenciais (ou presidencialistas nas promessas?) vamos querer mudar o quê? E mesmo que quiséssemos e soubéssemos mudar alguma coisa, ainda assim, do outro lado da fronteira poderiam perguntar (e nós sempre demos o maior valor às perguntas do além), mas mudar para quê? Por acaso, se mudarmos, alguma coisa vai mudar? Se calhar não será muito mais simples, muito mais cómodo e até muito mais prudente, deixar como está para ver como é que fica? Se calhar é mesmo.

 

 

         Cunha de Leiradella

         Escritor

         leiradella@sapo.pt

 

 

 

 



Escrito por Belvedere às 11h36
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