A hora da oposição
O governador Geraldo Alckmin, ao declarar que se afastará do cargo para se dedicar à postulação da legenda tucana para disputar a presidência da República, demonstrou uma gana até então insuspeitada por seus correligionários que não pareciam crer que ele pudesse ser tão incisivo.
Assim, o prefeito José Serra vê perigar parte de sua aparente estratégia: ficar placidamente em seu gabinete, até ser incensado à disputa – o que lhe daria ares de salvador da pátria e o pouparia do desgaste de ter que quebrar a promessa de cumprir seu mandato até o fim. Segundo ainda a tal tática, Serra seria “obrigado” a se afastar da prefeitura, e ainda afirmaria que aceitava “constrangido” a missão, como um soldado que se “sacrifica” em nome de seu partido que, por sua vez, unido e agradecido a ele, iria à vitória. Meses atrás, aparentemente, assim era. Hoje, não mais.
São cada vez maiores as especulações quanto a possível desistência de Lula vir a disputar a reeleição. O presidente sabe que suas chances se reduziram e podem minguar ainda mais caso não consiga mesmo se coligar com o PMDB, o que aumentaria o risco de ele ser humilhado nas urnas. A lhe confortar e dar esperança, a confiança no resultado de suas ações assistencialista-eleitoreiras que costumam render votos, graças às carências de uma enorme parcela de eleitores a quem tais medidas beneficiam, ainda que paliativamente.
Mas o PMDB, como sempre, está dividido: uns sonham com Garotinho, para tentar alçar vôo e encantar o eleitorado que naturalmente estaria aberto a aventuras, já que a desilusão deverá impregnar as urnas; outros sonham com um candidato que devolva ao partido a importância histórica que já teve e vem perdendo graças à disposição de se entregar aos donos do poder em troca de benesses passageiras. Mas isso é problema de Lula e do PMDB.
Tanto Serra como Alckmin sabem da importância de se coligarem com o PFL, de preferência já no primeiro turno. Mas, como o PMDB, o PFL também parece viver atrás de quem lhe dê garantias de que uma fatia considerável do poder lhe será assegurada. Esse comportamento, entretanto, faz com que o partido se prive do que deveria ser o sonho principal de uma agremiação política: a conquista dos postos mais altos da República. Mesmo tendo César Maia, um nome forte, o PFL se contenta em usá-lo apenas para barganhas. O atual prefeito do Rio tem a seu favor, e nisso ele se iguala a Serra e a Alckmin, o fato de ser um administrador competente. Ele, diferentemente de José Serra, há tempos anunciou que poderia se afastar do cargo para concorrer à presidência, atitude que, não sem razão, aos olhos daqueles que o elegeram, causou reações negativas, mas serviu para tornar claras suas intenções, coisa que dificilmente se vê num político. (Tivesse tido atitude semelhante, Serra não estaria hoje emparedado pelo ímpeto de Alckmin. Mas isso é problema de José Serra.)
Há indícios de que no PFL existe quem considere maiores as chances de Alckmin, já que a possibilidade de crescimento deste, ao contrário do que se pode supor de Serra, seria considerável. Por isso, há negociações em curso para apoiá-lo. Mas foi a José Serra que os pefelistas explicitaram seu apoio, inclusive com César Maia declarando que desistiria da própria candidatura para favorecê-lo. Puro pragmatismo de quem lê os números das pesquisas que mostram que hoje Serra venceria Lula no primeiro turno e de quem, além disso, claro, herdaria, quase de mão beijada, a prefeitura de São Paulo, já que o vice-prefeito é o pefelista Gilberto Kassab. Assim, sem que fosse preciso fazer um só discurso, cairia em seu colo, por mais de dois anos, o quarto maior orçamento da União. Mas tudo indica que, avesso a riscos, o PFL prefere mesmo é (des) conversar com os dois tucanos e ver no que vai dar a pendenga entre eles. E o Planalto ficaria para outra hora. Mas isso é problema do PFL.
Mas, no final, será que tudo isso não é problema nosso, caro leitor?
Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4 e autor de O gogó de Aquiles, ed. A Girafa.