Sarau da Belvedere



 Apenas Questão De Gosto
 
Cunha de Leiradella, Ciência Moderna, 286 págs R$  39
 
Uma sátira à mixórdia
Política dos anos 80.
 
Herói picaresco se enreda em trama policial
que serve de pretexto para abordar o Brasil de 1985
por André Seffrin
 
Cunha de Leiradella publicou cerca de duas dezenas de livros no Brasil e em Portugal, onde nasceu. Conquistou numerosos prêmios importantes e teve muitos desses livros publicados por grandes editoras, no entanto a maioria veio a reboque dos prêmios e foi publicada por editoras de pouca visibilidade e distribuição precária. Viveu mais de  40 anos no Brasil, onde chegou em 1958.
Em 2003, retornou a Portugal.
Aqui, também se dedicou ao teatro, como autor e diretor, e escreveu roteiros para cinema.
Estreou tarde na ficção: Sargaços (1984), pequena novela de recursos narrativos incomuns,recursos que  ele mais tarde tanto desenvolveria no conto quanto no romance. Com O longo tempo de Eduardo da Cunha Júnior (1987), deu início à saga de Eduardo(espécie de seu alter-ego), personagem que atravessa todos os seus livros subseqüentes, entre os quais Guerrilha urbana(1989), Cinco  dias de sagração(1993) e A solidão da verdade(1996), que sem nenhum favor podemos destacar entre o que se produziu de melhor no romance brasileiro das últimas décadas. Leiradella faz da angústia , da ânsia de liberdade e da incomunicabilidade do homem contemporâneo o núcleo de sua obra.Como alguns críticos já assinalaram, trata-se de um herdeiro de Camus e de Hemingway.
Em  Apenas questão de gosto, ele criou agora o seu herói picaresco. Não mais o Eduardo da Cunha Júnior que amargou seus amores e desamores em climas existencialistas – em A solidão da verdade e Os espelhos de Lacan(2003)-, mas um Eduardo cafajeste, na vertente picaresca que domina alguns de seus contos e principalmente Apenas questão de método, Prêmio Caminho de Literatura  Policial, 1999. Nesse sentido, Apenas questão de gosto parece dar continuidade a este último, de uma forma, ao que tudo indica, um tanto experimental do ponto de vista da linguagem.
Em linhas gerais, a nova missão do detetive particular Eduardo da Cunha Júnior é um caso de adultério a ser investigado num set de filmagem em Caxambu, cujo desenlace confirma o tom debochado e irônico que domina todo o romance. O enredo à la romance policial é, todavia, um disfarce. Por meio desse disfarce, Leiradella acelera novamente a sua veia satírica, sobretudo ao tratar com muita ironia o mundo político, social e literário de um tempo  mais ou menos recente: o malogrado Brasil de 1985. Assim, a narrativa vem permeada de pequenas “charges”, toda  a mixórdia política pós-1964 sendo triturada e deglutida pelo imprevisto Eduardo da Cunha Júnior.
Eduardo é o projeto do herói sem nenhum caráter, um brasileiro moldado pela realidade que o cerca, personagem cínico e debochado  que o romancista converte em crítico feroz de um mundo falido: “Quando me contaram que um tal de Marcel Proust, só porque lambeu um biscoito conseguiu encontrar todo o tempo que tinha perdido e mais algum que nem lembrava, eu não acreditei. Se um simples biscoito podia ser um memoriol mais perfeito do que um choque elétrico em oficina do Departamento de Operações e Informações – Centro de Operações e Defesa Interna, DOI-CODI- para turistas não fardados dos mosteiros da catedral de Brasília, imagina o destempero que não seria um bolo ou um pudim”.
De fato, Leiradella dá liberdade total ao personagem para expressar-se na sua língua arrevesada, caricata e, no limite, sedutora. Faz desse personagem um acontecimento de linguagem que exige atenção permanente do leitor no sentido de não deixar escapar nada do que se passa na cabeça do protagonista e ao seu redor. Um notável mundo de palavras, extremamente bem articulado, mantido sob um fluxo de consciência farfalhante  que joga sem cessar com lugares comuns, gírias, ditos populares, altas e baixas referências, clichês etc. Tudo amalgamado como túnica inconsútil, façanha raramente alcançada por nossos romancistas de hoje.
 
 
Cunha de Leiradella
 
Nasceu na Serra do Gerês, em Portugal, quase fronteira com a Espanha.
Publicou o romance O longo tempo de Eduardo da Cunha Júnior (1981), Inúteis como os mortos (1985), Cinco dias de sagração (1993),Os espelhos de Lacan (2004), entre outros. Escreveu também o roteiro de  longa-metragem O circo das qualidades humanas.
 


Escrito por Belvedere às 15h45
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 SARARÁ SILVA DA SILVA

 

 

Penso que quase todo o mundo ainda se lembra de Mário Lago, aquele cavalheiro que partiu faz pouco tempo, tão cavalheiro que imagino que nunca ninguém pensou em chamá-lo de velhinho, embora estivesse já quase nos noventa anos. Pois Mário Lago foi um homem de uma dignidade infinita, que jamais transigiu com os seus princípios, o que fez com que, nas ditaduras daí do passado, vivesse num entra-e-sai das cadeias brasileiras como se criminoso fosse, e não sei, mas imagino, que muitas vezes tenha sido demitido por justa causa em empregos decrépitos que se curvavam diante de poderes mais decrépitos ainda, bem como acontece hoje. A pergunta é: alguém se lembra dos antigos empregadores que um dia demitiram Mário Lago? Não me ocorre nenhum, mas jamais esquecerei Mário Lago, já bem para lá dos 80 anos, dizendo com a galhardia que lhe era peculiar: “Eu nunca fui pessoa que ficou na calçada vendo a banda passar – eu sempre estava junto com a banda!”.

Sem dúvida, Mário Lago, sem dúvida! Gente como você jamais se deixará ficar a ver a banda passar – assim como tantos outros hoje, como jovens jornalistas do meu tempo, que para serem testemunhos da História efervescente deste mundo onde a luta pelo poder anda acirradíssima e abjeta, tudo arriscam para seguirem junto com a banda e darem testemunha das barbaridades que o jogo do Capital faz contra a grande massa escrava e subordinada.

Faz poucos dias, e lá em Florianópolis o Sarará Cláudio Silva da Silva foi cobrir uma dessas batalhas que a truculência do Capital já se acostumou a fazer com o povo – e levou porrada e foi preso como se delinqüente fosse, como se não estivesse no mais legítimo exercício do seu trabalho. Que se espera de um patrão em tal hora? Apoio, compreensão, até aconchego – só que o patrão era daqueles que depois ninguém mais vai lembrar, um tal jornal chamado Diário Catarinense, e o que fez porque seu empregado queria trabalhar melhor que os outros? Em cima da porrada da polícia tacou-lhe a porrada trabalhista: justa causa e rua, quem é que manda fotografar a banda passando? Lugar de repórter de jornal vendido é no esconso mais escondido da calçada, é andar de viseira e grossa venda para só fotografar riquinhos a chegar de Miami ou poetinhas sem estrutura humana a lançar livrinhos que ninguém lê. A vida? Essa não interessa, repórter tem que fazer o jogo do poder, se esquecer que as bandas passam nas ruas, que a vida é de verdade e não apenas aquela vitrine que o patrão deseja.

Pois é, Sarará Silva da Silva: até ainda há gente amiga minha trabalhando naquele jornal tão podre que faz com um empregado o que fizeram com você, mas também tem cada escória! Até Ogro agora trabalha lá, não sei como você agüentou tanto tempo, você, rapaz que olha e enxerga quando a banda passa!

Procure seus direitos, claro, é coisa de justiça, mas caia fora daquele antro! Como já disse Elaine Tavares, eles não o merecem. Emprego nunca falta para quem é profissional de qualidade, e um dia, quando aos 80 anos você for um cavalheiro que ninguém conseguirá ver como um velhinho, como Mário Lago você poderá dizer que nunca ficou na calçada, que sempre esteve junto com a banda quando ela passou! No seu patrimônio haverá sua história de lutas, sua história de profissional da melhor qualidade, sua história de testemunha das mudanças da humanidade. Aqueles policiazinhos que lhe prenderam (inclusive os P2, quer dizer, os à paisana)? Um tal de jornal Diário Catarinense? Acho que ninguém mais vai lembrar – cada um cava a sua sepultura conforme vai caminhando.  Como os tais que prenderam e demitiram Mário Lago.

Vai fundo, Sarará! Tem gente de monte contigo!  Afinal, nos peitos onde ainda batem corações as bandas é que são o grande sucesso!

 

 

                                           Blumenau, 23 de Fevereiro de 2006.

 

Urda Alice Klueger

                                           Escritora.




Escrito por Belvedere às 11h13
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A entrega de Francisca
 
Para Francisca, entregar-se à vida era uma idéia vestida de impossível. A idéia despiu-se, veio até ela e falou: "Esqueça o que você acha que sabe sobre a vida, olhe um pouco além do seu fértil umbigo". Ao levantar o queixo, primeiro ofuscou-se com a luz do mundo, tão verde, tão máquina, tão feito de sangue e contradição. Levou a mão aos olhos, não podia enxergar tudo aquilo sem sofrer, sem desejar o retorno ao seu estado de meia-luz: não a escuridão completa, mas algo que deixa as gretas, os cantos bem escondidos. Depois, com os olhos mais acostumados, Francisca seguiu seus instintos, permitiu que os outros sentidos também aceitassem a vasteza inconclusa da vida. A idéia de entregar-se já tinha encostado no seu corpo, seduzindo-lhe, passando a mão por onde não devia. Entregou-se.
Os ossos doídos de alegria. Um pulsar por dentro que desmanchava misérias e inverdades. Tinha sobejado-se tanto em solidão. As paredes internas do corpo revestidas de indiferença. Arrependia-se do pouco viver. No entanto, o passado ainda pastoreava seus dias. Ela, cordeiro, obedecia ao fluxo do arrependimento. Tanto tempo economizado para não sofrer, tanto tempo amassado, escondido sob os pés para não perder a máscara de mulher livre. Agora sabia do seu erro, do seu obscuro caminho traçado, e mesmo em atalho novo, mesmo com horizontes mais fulvos, levava nas costas as sombras do que foi e daquilo que deixou de ser.
Contra esta verdade, contra o guindaste da memória que tudo levanta, que tudo traz à tona, pouco pôde fazer. Metade de seu tempo, observava a vida presente e futura, as possibilidades recém-nascidas, as conjecturas do destino, mas na outra metade, corroborava o peso da arrogância, do despropósito que tangenciou suas escolhas.
Antes, Francisca mimetizava-se atrás de roupas formais, o cinza de dentro transportado para as saias, as calças. Os beges e salmões dos olhos, refletidos nas blusas. Não soube muito bem o que fazer com os estampados, as cores febris, a pouca roupa que a vida passou a exigir que ela usasse.
Repartida. Bipartida, ela agarrou-se um pouco mais na idéia de entregar-se à vida. Mas a idéia é volúvel, se antes lhe pareceu sedutora, tinha uns dedos pertinentes, uma língua desmesurada, agora agia como se não a conhecesse, como se Francisca fosse apenas mais uma mulher que tardiamente cedeu aos apelos dos sonhos. A idéia já estava novamente vestida de impossível. Desistiu. Francisca entregou-se à vida sem pensar.
Rubens da Cunha




Escrito por Belvedere às 18h05
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Para a canção ser cantada
 
Os poetas passarão.
A canção, com vida própria,
estará em cada esquina,
em toda janela aberta,
Na mulher que canta e espera
a volta do seu amado.
No bêbado que assobia,
já no fim da madrugada,
no grito do jornaleiro,
que anuncia um novo dia
pelas ruas e calçadas,
a canção será cantada.
Em cada sorriso triste,
em todas as gargalhadas,
na poesia que persiste
em nascer, mesmo enjeitada,
lá vem, de novo, a canção
pronta para ser cantada.
E a chuva que tamborila
seu ritmo nos telhados
diz que os nomes dos poetas,
que ficaram no passado,
foram importantes, apenas,
para a canção ser cantada.
AlbertoCohen - 22/02/2006
 


Escrito por Belvedere às 12h06
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Jogo Limpo

Sou gata em cio em cima do muro
buscando aconchego querendo arrepio
empinando o cangote escondendo fraquezas
dando uma de forte. Sou gata com frio
assanhando a pele, escancarando o jogo,
mostrando as cartas ou brincando de
esconde-esconde com a sorte.
O desejo, nervo exposto... e o beijo,
quase-lá! E o juízo? por um fio.
Você não vai deixar de apreciar.

odeteronchibaltazar



Escrito por Belvedere às 14h04
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O CRISTAL AZUL

Falta pouco tempo para o meu aniversário. Sou ainda novo, para minha espécie. Nos padrões dos humanos, nossos antecessores na escala genética, estou na idade equivalente à uma criança entre os dez e os treze anos.
Minha mãe levou-me à algumas sendas para sentir o que eu gostaria de ganhar de presente. Para nossa raça, esta é uma idade muito importante, parecida com os treze anos que os hebreus comemoravam para seus meninos (li isto em uma edição antiga compilada nos arquivos da biblioteca virtual de meu avô).
Chegando à Senda do Mestre Ariel — uma grande loja, como diriam os antigos —, encantei-me com um cristal azul. Eu nunca havia visto nada igual: é mais bonito e brincalhão do que os outros. Nele a gente pode ver o passado, o presente e algumas coisas do futuro (para isto, preciso ler direitinho o manual de instruções).
Minha paixão é saber tudo do passado e tentar entender como nossos antecessores deixaram tudo acabar daquela forma. Ah! Também quero ver direitinho como nossa raça conseguiu fugir a tempo da hecatombe e como foi possível a adaptação aqui em Marte.
Por que será que eu gostei tanto daquele cristal azul?
Mamãe disse que isso talvez seja um fator de memória genética: saudades da Terra!

Thaty Marcondes



Escrito por Belvedere às 14h01
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Assim Como As Folhas Que Tremem...


Delasnieve Daspet


Assim, como o sol que se curva a cada manhã;
Assim, como as folhas que tremem
Com a brisa refrescante;
Assim, como um pássaro a céu aberto,
Numa ânsia que toma,
Assim, no meu silêncio, este lamento.

Escrevo no pó da estrada
A profunda dor de minha mágoa.
E na aridez de minha saudade,
Com o canto preso na garganta,
Sou a lágrima triste
Que pinga sobre tua lembrança!

Assim sou, assim sigo
Um mero reflexo na janela...
Esta mentira é tão real que dá pena,
Sem perceber, sou eu mesma, quem vaga,
Na multidão que não passa...

CAMPO GRANDE MS
31.05.04



Escrito por Belvedere às 22h07
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