Sarau da Belvedere


OFICINAS LITERÁRIAS PRESENCIAIS NO ESPAÇO CULTURAL CPFL (Campinas, SP)

Coordenador Geral - João Silvério Trevisan (escritor, dramaturgo, tradutor, jornalista, roteirista e diretor de cinema)

Iniciando suas atividades do Núcleo de Criação Literária no ano de 2006, o  Espaço Cultural CPFL (ver endereço abaixo) está oferecendo  oficinas gratuitas para pessoas com interesse e vocação para criação literária, desejosas em aprimorar sua escrita na prosa ficcional e na poesia. As oficinas pretendem desenvolver as habilidades de alunos iniciantes e aprimorar o talento dos mais desenvolvidos. Para isso, contará com quatro estágios gradativos. A partir da análise dos textos enviados no ato de inscrição, os coordenadores escolherão o estágio indicado para cada inscrito/a,.

Estrutura das Oficinas – Os encontros acontecerão aos sábados, das 14:00 às 18:00 horas, para pessoas a partir de 16 anos, com 30 vagas por estágio. Serão 12 encontros no primeiro semestre. Datas dos encontros: 18 e 25 de março; 1º, 08 e 29 de abril; 06, 13 e 20 e 27 de maio; 03, 10 e 24 de junho.

- Estágio 1: Coordenadora Lizete Mercadante Machado - Oficina de redação criativa, introdutória e lúdica.

- Estágio 2: Coordenador Cid Pimentel - Oficina voltada para treinar a capacidade de expressão, com objetivo de preparar o aluno para a produção de textos.

- Estágio 3: Coordenador Nelson de Oliveira - Oficina voltada para os aspectos básicos da criação literária, levando cada participante a descobrir as características de seu texto.

- Estágio 4: Coordenador João Silvério Trevisan - Oficina voltada para escritores com técnica mais desenvolvida, que procuram aprimorar-se em relação ao seu texto.

Como se inscrever - Envie um e-mail para literatura@cpflcultura.com.br com as seguintes informações:

- nome completo

- endereço

- telefone para contato

- três textos de sua autoria em anexo, independente do gênero literário

Encerramento das inscrições – dia 12 de março

Divulgação do resultado no site - dia 16 de março

Início das oficinas - 18 de março

Local

Centro Cultural CPFL
Rod. Campinas Mogi-Mirim, Km 2,5
Rua Jorge Figueiredo Côrrea, 1632 - Portaria IV
Chácara Primavera

CAMPINAS
CEP - 13087-490
Telefone (19) 3756-8000



Escrito por Belvedere às 13h45
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REMINISCÊNCIAS
 
Este rumor de passos
Vazando pelas vidraças de minha tristeza
É o que restou da saudade.
 
Mauro Sampaio
 
Do livro: "No Silêncio do Espelho",
de Mauro Sampaio
 
 

 



Escrito por Belvedere às 09h07
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Lunar 
© Lenise Resende    

Mesmo que não desgrudes
o olhar de mim,
mudo
- sem que possas deter-me.

E inconformado dizes:
- Estás de Lua!
Sem compreeender que sou Lua
e tenho fases.

Edição de Lenise Resende para
Lendo & Relendo
http://www.lendoerelendo.com/  
 
 



Escrito por Belvedere às 09h05
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Algo de Dor


 Soni@ Pallone

"... Na eternidade
não existe o tempo.
Noite e dia são contrários
porque são o tempo
e o tempo não se divide...
Degusto assim,
cada detestável minuto
e cultivo o ermo silêncio
da eternidade da espécie...
Há algo de dor e pungência
em viver o hoje..."



Escrito por Belvedere às 09h03
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Doa a quem Doer
® Lílian Maial


Quando eu era bem pequena, mamãe me ensinou a brigar pelo que eu considerasse
correto, pelos meus valores. Ela me instruiu para argumentar, mostrar minhas
idéias de peito aberto, ser verdadeira, autêntica, doesse a quem doesse.
E me dizia isso com um orgulho atávico! Era uma questão de honra ser assim,
ter palavra, ter uma cara só, em qualquer circunstância. E essa frase ecoou
por décadas em meus ouvidos: ?doesse a quem doesse?. Só que eu nunca poderia
imaginar que doeria a vida toda em mim!

Mamãe me dizia, com um olhar de dona do mundo, que eu havia nascido mulher,
que era a maior dádiva da vida e, como tal, eu seria responsável pela preservação
da espécie, a genitora, a mãe, a vida! E que seria admirada, respeitada
e protegida, justamente por isso.

Não preciso contar o quanto mamãe era romântica e já possuía um sentimento
feminista feminino de sábia mulher, porém sem as bases de sustentação, que
só muitos anos mais tarde iriam, muito lentamente, sendo fincados na sociedade
e no mundo.

E o tempo foi passando, eu fui crescendo arvorada de mãe do mundo, de inovadora,
de justiceira, tudo isso mesclado com a vontade de cuidar, de curar (um
quê de bruxa, wicca), e com uma consciência social muito forte, um desejo
de liberdade e igualdade entre as pessoas, independente de raça, credo ou
sexo, e uma alma poética ? meu lado frágil e presa fácil.

Acontece que eu cresci mais depressa que o mundo ao meu redor. Eu e algumas
outras mulheres, em todas as partes do planeta. E, como a maioria não teve
uma mãe como a minha, e nem nasceu num país de primeiro mundo, onde esses
direitos todos são mais discutidos e conquistados, cá estou eu em Terra
Brasilis, tentando traduzir minha língua universal/tupiniquim para o português
feminino/plural.

Então, vejamos a equação: mulher + bonita + inteligente + independente =
incômodo => problemas.  E os problemas estão por todo lado. Seja no âmbito
profissional, afetivo, educacional, sócio-cultural e, até mesmo, uma competição
desleal da classe feminina, aquela por quem luto, conspirando debaixo dos
panos. Isso sem falar de homens bem minúsculos ? porque aprendi que homem
se deveria escrever com h maiúsculo ? que não honram a categoria, e morrem
de ciúme da competência, da determinação e da capacidade de persuasão de
certas mulheres, tentando, por tal motivo, subjugar e, quando não conseguem,
denegrir, ofender, agredir, calar a boca de qualquer jeito.

Ah, mamãe, o tal ?doa a quem doer? dói... 

A gente se sente um ET no meio da multidão. Como é difícil e árdua a tarefa
de levar a noção de liberdade para homens e mulheres tão presos a preconceitos,
tão limitados a sentimentos medíocres, tão algemados a dogmas, tão vinculados
a hipocrisia, a subserviência, a separatismos!
Como seria tudo mais simples, se ao menos se tentasse a convivência pacífica,
com liberdade, com desprendimento, com os mesmos direitos para homens e
mulheres, para pobres e ricos, para jovens e velhos, para qualquer raça,
porque somos universais, porque fazemos parte da mesma Mãe Natureza, que
nos dá vida, nos nutre, nos ilumina, nos aquece, nos refresca, nos hidrata,
nos acalma, nos aconchega e nos recebe de volta.

Nenhum de nós é imune ao tempo.

Então, por que a disputa, se a linha de chegada é tão negada, tão assustadora
e combatemos tanto, retardamos tanto? Por que disputar chegar na frente,
se não queremos, no fundo, chegar?

Guerras, violência, drogas, escravidão, assédio, submissão, todas essas
coisas, mesmo aquelas subentendidas, subliminares, levadas na brincadeira,
machucam a terra, ferem a Mãe, afastam o ser humano de sua humanidade. A
cada irmão atingido pela indiferença, pelo descaso, pela inveja, pela palavra,
pelo silêncio, pela dor provocada, mais e mais o humano se distancia da
verdade, do prêmio, da paz.

E, no meio disso tudo, eu incomodo.
Incomodo porque não temo a dor, sou forjada numa têmpera de aço e amor,
de fé e ceticismo, de valores e ideais muito além do individualismo.
Incomodo porque cutuco as feridas, porque mostro a que vim, porque não me
escondo por trás de falsos profetas, ou falsas comunhões, falsos santos
e falsos testemunhos.
Incomodo porque não me dobro a elogios, não me vendo por nada, não me traio.
Incomodo porque não quero nada pra mim, mas para a humanidade. E isso incomoda!

Já houve quem quisesse me pintar de sonsa, de interesseira, de vaidosa.
Gastaram a tinta toda, os refis do universo, e não conseguiram encontrar
as minhas cores.
Basta que me olhem e me vejam. Não precisam inventar. Olhem! Mas olhem com
os olhos nus, não com máscaras que embotam todas as verdades.
E, nesse momento, eu deixarei de incomodar, quando cada um perceber que
deve procurar seu destino, sua missão, seus desígnios. Quando entenderem
e encontrarem, eu deixarei de incomodar. Sim, porque eu só incomodo aos
vazios, aos sem sentido, aos que vivem para seus umbigos, trajando antolhos,
desfiando o rosário da intriga, da difamação, da incompreensão, da falta
absoluta de generosidade, camuflados por palavras vãs e gestos coreografados
para ?inglês ver?.

Aos homens e mulheres livres e de fibra, a esses eu não incomodo. Ao leitor
que se identificou, eu não incomodo. Mas certamente incomodarei, e muito,
aos que vestirem a carapuça e sentirem o desconforto da justeza das vestes.
 
A esses, ofereço a força do recomeçar, a experiência do auto-mergulho e
da faxina dos velhos mofos do coração.
A esses eu oferto o princípio das coisas, a poesia das manhãs, a beleza
do sorrir em paz e livre, a delícia do cantar junto com o irmão desconhecido,
a oportunidade de ouvir os cânticos da noite, a alegria de finalmente reconhecer
sua espécie: humana.

Ah, mamãe, o tal ?doa a quem doer? dói...  dói, mas compensa, gratifica,
faz delirar!
E mais ainda quando se consegue fazer entender para o outro, quando se identifica
pessoas livres de arrogância, de pé atrás, de armas, de escudos.

Um dia, mãe, deixará de doer, eu sei.
E aí, a Grande Mãe voltará a reinar e a nutrir a civilização, e todos trabalharão
para o bem comum, todos cuidarão dos seus, e no mundo não caberá discriminação,
racismo, distribuição desigual de afeto. E aí, mãe, finalmente seremos iguais.



Escrito por Belvedere às 07h48
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PÉROLAS DE CARANANDUBA
Canto nº 3
 
                         Enzo Carlo Barrocco
 
A MÃO E O PRECIPÍCIO


Que não seja tão difícil
alguém te esticar a mão
quando, sem solução,
estiveres no precipício.
 
AÇUCENA


A luz invade serena
o escuro onde me acho,
que seja a luz desse facho
como flores de açucena.
 
PREMÊNCIA


Por ora estou precisado
de água e oxigênio,
que no verso pressa tenho,
rimado ou não rimado.
 
PRAÇA DO RELÓGIO


Hoje o tempo está parado,
Baía do Guajará,
quilha, mulher, araçá,
relógio desconsertado.
 
O POEMA E A CHUVA


A chuva me faz o dia
muito triste, muito triste,
contudo a paisagem insiste
lembrar-me alguma poesia.
 
 
Eu fico com o religioso católico e teólogo alemão Thomas Kempis que esteve neste plano desde Kempen 1380 a Idem 1471
 
"Prefira sempre necessitar menos a possuir mais".

VISITEM MINHAS PÁGINAS:
 
http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=1590
 
http://www.enzocarlobarrocco.recantodasletras.com.br/perfil.php



Escrito por Belvedere às 17h14
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 Desconjugado


(IsarMariaSilveira)

Sem senso o tempo não cessou
a lua de primavera engravidou
- mera quimera -
e setembro foi(ce)

Outubro e seus planos
mudou o ar no mar?
- envelheci -
vida e dúvida: marejar

Meio tarde demais
 mês de abril: tempestade
- queimei, ardi, chovi -
esperei desde o carnaval...perdi



Escrito por Belvedere às 16h56
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CAIO FERNANDO ABREU –
DA CÓLERA AO SILÊNCIO
 
por Antonio Naud Júnior (*)
 
 
         A primeira vez que encontrei o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu (1948-1996) foi no inverno de 1990, em Registro, uma pequena cidade do interior de São Paulo, quando a poeta Leila Miccolis me comunicou que eu dividiria o mesmo quarto de hotel com ele. Eu era um dos inúmeros convidados e ele o homenageado em um encontro de literatura “marginal”. Passamos três dias numa correria de palestras, debates, leituras poéticas, restaurantes e bares, sem tempo para qualquer conversa profunda. Caio, ferino e resmungão, não estava feliz. O seu silêncio sombrio, magreza excessiva e grandes olhos de mágoa e desalento, davam-lhe um aspecto vampiresco. Muito jovem, tive medo, evitando intimidade com ele o máximo que podia. Só uma noite, a última, depois de grande bebedeira, conversamos sobre literatura e cinema. Ele empolgou-se ao recordar a atriz Odete Lara – um dos seus ícones – e tratou-me com aspereza ao ouvir a confissão que só lera uma única obra sua: Morangos Mofados (1982), considerado o maior sucesso do escritor. Então percebi a sua sede de reconhecimento e idolatria.
 
         No ano seguinte, em São Paulo, nos reencontramos duas vezes numa mesma semana: nas residências de Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst. Eu trabalhava na Editora Siciliano e estava sempre visitando escritores por exigência profissional. No apartamento da autora de “Horas Nuas”, um Caio gentil lembrou Registro com ironia e fez-me uma comparação inusitada: “Antonio, você parece galãs de cinema dos anos 50. Algo entre John Gavin e James Garner”.  Nunca mais me deixou de chamar Gavin ou Garner, dependia da disposição. Na Chácara do Sol de Hilda Hilst, o clima foi tempestuoso. Temperamentais, rancorosos, eles haviam cortado relações há alguns anos e Caio tentava recuperar o tempo perdido de uma antiga amizade iniciada em 1968, em plena ditadura militar, quando foi perseguido pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), tendo se refugiado no sítio da escritora. Não deu certo, Hilda Hilst, dura, abriu a boca sem piedade e Caio partiu de Campinas soltando fogo pelas ventas. A situação era tensa e mal-resolvida, aparentemente sem cura. Hilda decidiu queimar todas as cartas do ex-amigo, acreditando assim afastá-lo para sempre de sua vida. Dezenas de cartas maravilhosas, confessionais, com contos e poemas inéditos, do final dos anos 60 até a década de 80. Implorei que não o fizesse. “Quer para você? São suas. Leve-as daqui e bem rápido, antes que eu me arrependa”. “Fico com elas, Hilda, se um dia desejá-las de volta, e só pedir”. Nunca o fez.  Tenho até hoje essas missivas solitárias, desesperadas, inseguras e delicadas. Caio Fernando Abreu adorava escrever cartas, assinando muitas vezes como Caio F. - era o primo intelectual da "Christiane F. drogada e prostituída". Na verdade ele se dava várias alcunhas, dependendo do momento em que estava vivendo. Nessas cartas, numa espécie de voyeurismo literário, espiamos e tomamos parte da intimidade do escritor, passando a ser o confidente a quem ele conta suas peripécias pela vida. Demonstrando uma enorme disposição para o diálogo e a troca, escrevia tanto para velhos amigos quanto para se apresentar a pessoas que não conhecia (escritores, por exemplo) e expressar sua admiração. Assim fez amizade com Hilda, Clarice Lispector, Nélida Pinon, Cazuza e Marcelo Rubens Paiva, entre outros. Morando em diferentes cidades, escrevia loucamente, em um ritmo quase alucinante, fazendo parecer que ele se alimentava com esse hábito, em um tempo em que não existia e-mail e no qual as cartas poderiam tardar dias. No fundo, entre o fuxico e a confissão, essas cartas tinham uma função terapêutica


Escrito por Belvedere às 21h53
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.
 
         Iniciou-se assim minha estranha, intensa, amarga e comovente amizade com Caio Fernando Abreu, um ser cheio de mistérios, de segredos. Ele telefonava altas horas da noite, deprimido, bêbado, e desabafava num monólogo duro. Algumas vezes estive no seu apartamento na Haddock Lobo e, vez ou outra, saíamos pelos bares sórdidos do centro da cidade. Era uma ligação fadada ao fracasso, sem confiança ou afeto, talvez somente por minha conexão profunda com Hilda. Terrivelmente inseguro em relação a sua literatura, Caio duvidava de seu talento e maldizia os deuses por não escrever como Clarice Lispector ou a própria Hilda Hilst. Eu temia suas palavras perversas, sua tristeza absoluta, sua descrença em tudo e todos, suas críticas ácidas e fazia tudo o que podia para evitá-lo. Paranóico, emocionalmente instável, hiper-sensível, comoventemente frágil e absolutamente infeliz, Caio parecia sofrer todos os dias. Ele tinha explosões repentinas de cólera seguidas de um silêncio assustador. Via nas pessoas otimistas e cheias de sonhos seres imperfeitos e indignos de contar com sua amizade. Numa madrugada, no Sujinho, chorou muito sem qualquer motivo aparente, finalmente lamentando que não fosse levado a sério como escritor. “Como não, Caio? Todo mundo admira Morangos Mofados”, apazigüei. “Gostam porque falo de drogas e sexo sem tabus. Somente por isso”. Foi o nosso último encontro cúmplice. Voltei a vê-lo mais duas ou três vezes na redação da revista Interview e em vernissagens. Ele só dizia: “Como vai, Gavin?”, e nem ao menos esperava resposta. Sabia que era portador do vírus HIV, o seu aspecto debilitado deixava evidente tal tragédia, mas nunca conversamos a respeito da doença que o consumia. Era uma época difícil para os portadores dessa enfermidade. Tinham pouco tempo de vida, em geral às voltas com tratamentos penosos. O coquetel veio muito depois.
 
       Logo Caio F. partiu para a sua derradeira temporada européia, escrevendo de lá bonitas crônicas para o jornal O Estado de S. Paulo. Recebi quatro cartas dele, todas se queixando da solidão, das dificuldades financeiras – inclusive trabalhou como porteiro em um prédio – e pedindo notícias de Hilda Hilst. Nunca pude responder qualquer uma delas, pois não havia o endereço do remetente. Em 1992, Hilda rompeu bruscamente comigo, motivada por um pequeno ensaio que escrevi sobre sua vida e obra. De volta a Bahia, nada mais soube sobre Caio. Em 1996, quando o escritor de Santiago do Boqueirão (RS) morreu, aos 47 anos, eu já vivia longe, na Europa. Ele passou os últimos meses na casa dos pais cuidando de roseiras, fazendo canteiros com arruda, alecrim e manjericão.
        
        Debochado e louco por sexo, Caio se auto-denominava um devasso. Estava totalmente à vontade com sua condição homossexual, numa época não tão bem tolerada na sociedade. Até brincava dizendo que iria escrever um gigantesco livro chamado “Os Homens que eu Tive”, uma versão gay de “Mulheres”, de Bukowski. Ele foi um grande contista. Sua ficção se desenvolveu acima dos convencionalismos de qualquer ordem, nos deixando uma herança reflexiva sobre a solidão, a homossexualidade, a amizade e o amor. O sentimento de identidade não poderia ser maior. Um retrato de uma época, de maneira às vezes bem-humorada, outras trágica, mas sempre permeadas por um imenso afeto. Sua obra, escrita num estilo econômico e bem pessoal, fala de sexo, medo, morte e, principalmente, apresenta uma visão dramática do mundo urbano moderno. Escreveu entre outros: Ovo Apunhalado (1975), Triângulo das Águas (Prêmio Jabuti, 1984), Onde Andará Dulce Veiga ? (1990, que está sendo filmado por Guilherme de Almeida Prado, com Maitê Proença como protagonista), Bem Longe de Marienbad (1994) e Ovelhas Negras (1996). Dedicou-se também ao trabalho jornalístico, em revistas como Pop, Nova, Veja e Manchete, foi editor de Leia Livros e colaborou nos jornais Correio do Povo, Zero Hora, O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. Em 1973, querendo deixar tudo para trás, viajou para a Europa, lavando pratos, fazendo traduções e se virando como podia. Primeiro andou pela Espanha, transferiu-se para Estocolmo, depois Amsterdã, Londres e Paris. Retornou a Porto Alegre em fins de 1974, com os cabelos pintados de vermelho, usando brincos imensos nas duas orelhas e se vestindo com batas de veludo cobertas de pequenos espelhos. Em 1983 transferiu-se para o Rio de Janeiro e em 1985 passou a residir novamente em São Paulo. Uma das aflições desse escritor era a falta de dinheiro. Ganhou muitos prêmios, foi traduzido para vários idiomas, porém não conseguia resolver os problemas financeiros Ele reclamava, confessava freqüentemente que a vida estava apertada, torcia para um dia ficar rico, mas sempre viveu muito modestamente. Pensava muitas vezes em desistir da literatura. “Não desisto de teimosia meio-burra”, disse-me certa vez. Felizmente foi teimoso até o fim, deixando uma obra marcante farta de sensibilidade e simbologia da cultura pop.
 
(*) Escritor & jornalista. Autor de “Se um Viajante numa Espanha de Lorca” ( 2005).




Escrito por Belvedere às 21h53
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ONDE ESTÁ DEUS?
Carmen Imbassahy
 
    Nos meios “teográficos”, o assunto do momento é o livro de um jovem escritor médico norte-americano chamado Andrew Newberg que anda fazendo sucesso com sua obra “Why God Wont Go Away”(Por que Deus não vai embora), ainda não traduzida para nosso idioma.
    Com muita elegância e sem ferir susceptibilidades, ele mostra uma série de exames biomédicos que levaram à conclusão de que Deus é uma idéia necessária à sobrevivência de cada um. Criação do cérebro, torna-se fundamental à sua arquitetura neuroanatômica  dando consistência à idéia espiritual.
 
    Para ele, a Ciência não provou nem a existência nem a inexistência de Deus. A Neurofisiologia pode elucidar o motivo das experiências místicas e necessidade individual na crença de um Ser Supremo que vela por nós e não nos abandona nos momentos difíceis.
    Isto revitaliza nosso organismo e se torna essencial à sua constituição. Este autor apresenta argumentos técnicos de pesquisas realizadas com diversas pessoas de destaque, mostrando o resultado obtido através de uma série de tomografias computadorizadas das diversas reações apresentadas pelos seus pacientes.
    Em princípio, no que tange a religiões, ele não apresenta nenhuma como sendo fundamental, pelo contrário, de um modo geral, todas elas teriam a mesma finalidade junto a seus adeptos, sendo as mesmas correlatas com as tendências individuais de cada um, mas, funcionando da mesma forma e com as mesmas reações, daí a necessidade da existência de Deus como fundamento delas e curiosamente, no tratamento de certas doenças coronárias e pacientes que sofriam de fibromialgia, tiveram sensível melhora através da técnica de meditação voltada para Deus.
    Tudo indica, segundo resultados, que pessoas doentes, com forte fé religiosa, têm muito mais possibilidade de cura do que os cépticos, sem crença em um Ser Superior capaz de protegê-lo dos males em geral.
    Mais curiosa foi a observação de que a comprovação de experiências religiosas nesses pacientes mostra que elas são oriundas de atividades cerebrais o que levou a admitir o autor que a existência de Deus, para cada um, seja meramente uma atividade cerebral essencial à vida. Por esse motivo é que ele indaga porque Deus não sai da mente do crente. Ele está ali, arraigado como um princípio e funciona com reações cerebrais registradas pelos exames realizados.
    Curiosamente, todavia, o autor não deve ter feito nenhuma experiência com ateus, incréus e negadores da existência divina, porque não comenta nada a respeito das reações cerebrais de nenhum deles.
    Segundo o Dr. Newberb, não há uma parte específica do cérebro onde se localize a idéia de Deus, mas, segundo resultado das tomografias, ele garante que a mente humana funciona, em um todo, na reação relativa à existência de Deus, mostrando, principalmente, a imagem dos lobos parietal e frontal, bem como suas reações em tal caso, o que lhe permitiu garantir que Deus é coisa da nossa cabeça.
    Não foi à toa que Voltaire, numa de sua tiradas, tenha dito que “o homem criou Deus à sua imagem e semelhança porque sua mente é incapaz de supor um ser superior a si próprio”.
    Seja como for, o fato é que a crença em Deus, sem dúvida, dá força e condição à criatura humana, como forma de esperança num destino futuro após a morte, bem mais promissor do que a vida que possamos levar na Terra.
    Deus seria, então, uma explicação que o homem encontraria para justificar a existência de tudo, responsabilizando-O por isso.
    Desta maneira, teria encontrado a causa do mundo, porém, faltaria a explicação para o motivo da causa e o porquê da Criação. Foi quando surgiu a religião para explicar tudo; cada uma delas tem seu argumento próprio adequado á civilização que a adota.


Escrito por Belvedere às 10h26
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    O estudo do cérebro não envolve crenças religiosas e admite que todas elas se fundamentam no mesmo sistema neorofisiológico de reações para que as estruturas cerebrais criem a imagem de Deus de acordo com o que mais se aproxima da sua capacidade de pensar.
    Por esse motivo, clinicamente, o autor do livro recomenda que os médicos aceitem e adotem a crença humana como sendo uma necessidade terapêutica da maioria dos casos clínicos, embora não se dispense a medicação que, sem dúvida é a que faz o efeito, comandado ou não pela vontade cerebral relativa aos predicados de Deus.
    O mais curioso é que classifica a auto-transcendência como sendo nossa necessidade inerente de passar de um estágio de vida para outro e a religião seria a expressão máxima desse status quo de ser.
    Ele só não compreende a vida como sendo espiritual e, mais do que nunca, deve estar convencido de que seja o cérebro humano a fonte de criação de tudo, inclusive da personalidade da pessoa; falta-lhe, pois, conhecimento relativo à pesquisas que já foram feitas por diversos grupos de trabalho para explicar  a pessoa humana como sendo oriunda de algo inteiramente distinto do nosso corpo somático.
    Os cientistas ainda têm muito que estudar para chegarem à idéia do que seja esta criação universal e não seria com cérebros desta natureza de pesquisa que atingiremos tal conhecimento.


Escrito por Belvedere às 10h25
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Palhaços e palhaçadas

Aquiles Rique Reis 

 

 

A alma do palhaço é infantil. Naquela alma o faz-de-conta parece tão real como a dor que cobre o mundo, e só à criança é dada a oportunidade de perceber tudo que nela transparece. Os sonhos de criança são realizados na alma que habita o palhaço. Tudo o que povoou sua fantasia terá sobrevivido num canto de sua existência, mesmo que sequer se lembre daqueles quando chegar à adolescência e à maturidade.

Faz a vez de peneira, como que tentando esconder o impossível, a máscara da maquiagem que cobre o rosto do palhaço. Tem sabor de infância a palhaçada divertida. Carrega o gosto de festa a roupa colorida que acompanha os trejeitos do palhaço. A lágrima que escorre por seu rosto não é vista pela criança crescida, que nada mais enxerga senão seu próprio mundo já povoado de outros palhaços e palhaçadas outras. Criança só faz palhaçada, e no mundo adulto não pode haver lugar para brincadeira.

Pobre adulto em que já não faz efeito a bocarra aberta de quem, em vão, se empenha para arrancar-lhe um sorriso. Envergonhado, o pré-adolescente deixará de ver no palhaço o jeito de chegar ao futuro tão almejado. Arrogante, o jovem passará a vê-lo com desdém, o que lhe privará do que a alma do palhaço oferece de graça. Adulto, portanto, tal sentimento antigo arrefecerá ainda mais – e sempre. Nada daquilo que antigamente o fazia dobrar de tanto rir fará mais sentido. A circunspecção terá tingido sua alma de cinza; a seriedade fará dele insensível à essência do palhaço. Adulto não ri à toa, adulto se preocupa muito com o destino.

Aos velhos é permitida a volta ao início. A ele, idoso, concede-se a possibilidade de um reencontro com suas afeições mais longínquas. A comédia é dos velhos e das crianças, pois eles não temem gargalhar à toa. Deles é a possibilidade de crer no impossível. Por razões distintas, ao avô e a seu neto perdoam-se as maluquices.

Loucuras não são permitidas aos adultos. Loucos, bastam a criança e o velho, que riem do talco que vem com o “pum” do palhaço. Irresponsáveis bastam eles, que choram com o drama do palhaço que vê sua colombina ir-se embora com o pierrô. A eles, velho e criança, e só a eles, se permite que chorem e riam abraçados enquanto o palhaço tropeça no chapéu e cai estapafurdiamente.

Assim perde-se a alma, fica só a “palhaçada” do dia-a-dia. Patacoada feita por quem nos faz de palhaço, sem que tenhamos a menor vontade de tomar o lugar deste. E viramos “palhaços” de um cotidiano que nos empurra em direção ao mundo dos palhaços que passamos a desdenhar, já que nos fizemos adultos.

Não crêem os marmanjos no elixir da eterna juventude que nasce da alma de um palhaço. Entretanto, que triste ironia, passam a viver de palhaçada em palhaçada, impelidos por palhaços cara de pau, sem nariz vermelho, espertos, que os ludibriam feito o mágico que também um dia iluminou seus sonhos infantis. E também, sem que tenham nítida sua intenção, buscam de volta, desesperada e inconscientemente, o lenitivo que lhes deu vida à infância.

Entretanto, aquele que se permite chorar ouvindo o canto de um velho palhaço pode sentir voltar os momentos; flashback colorido de emoção, recheado de imagens em que a chuva era confete, o caminho era serpentina e o delírio lançava perfumes no ar. Palhaço é a alma eterna em corpo de criança; assim ele a reavive. Hoje o revejo e dele sinto saudade.

Agora aqui estou eu e a palhaçada em que se transformou o meu viver de adulto cordato Hoje, daqui do meu canto, eu vi um homem. Seus cabelos brancos confundem-se com os braços da criança que tem no colo. Embevecidos os dois, eu os vejo, rindo. Abraçados os dois, eu os sinto, chorando. Na rua, à nossa frente, um palhaço solitário faz micagem num carnaval despovoado.

Rir e chorar, cada qual com seu motivo, cada qual com seu passado, cada qual com seu palhaço, cada um de nós com sua palhaçada favorita na alma.

Cada qual com um futuro frente aos olhos. Busco-o de volta.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4 e autor de O gogó de Aquiles, ed. A Girafa.



Escrito por Belvedere às 11h24
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