Sarau da Belvedere


MULHERES DE PASSADO

E

HOMENS DE FUTURO

 

 

Andréa era recepcionista, mas não gostava de pessoas. Ana Carolina era corretora, mas não gostava de vendas. André era médico, mas não gostava de doenças. Eduardo era jornalista, mas não gostava de notícias.

Moravam em Belo Horizonte. Andréa e Ana Carolina no mesmo bairro, e André e Eduardo em bairros diferentes. Conheceram-se na Casa dos Contos, numa sexta-feira de noite. Andréa comendo batata frita com ketchup, Ana Carolina, frango à passarinho, André, peixe ao molho branco, e Eduardo, salaminho e azeitonas. Sentaram na mesma mesa por acaso. Andréa vinda do hotel, Ana Carolina, da companhia de seguros, André, do hospital, e Eduardo, sem destino.

O restaurante estava cheio. Andréa chegou primeiro e Ana Carolina não tinha onde sentar. André jurou que já as conhecia e Eduardo esbarrou na mesa, sem querer. Andréa sorriu e disse que era a força do destino, e arrumou mais um lugar.



Escrito por Belvedere às 16h43
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Continuação

 

Gostaram de se encontrar e fizeram confidências. Andréa, nascida em junho, em Santa Lúcia, queria ser cantora. Ana Carolina, nascida em setembro, na Savassi, queria ser atriz. André, nascido em maio, em Itabira, queria ser violonista. Eduardo, nascido em novembro, em Portugal, não sabia.

Falaram do passado e do futuro, e resolveram prolongar aquele encontro. Andréa leu as mãos e fez horóscopos, e Ana Carolina quis saber onde moravam. André falou da fazenda, em Itabira, e Eduardo escutou, silencioso. Andréa gostava de cavalos e de matas, e Ana Carolina morava só e não tinha namorado. André sorriu e achou ótimo, e Eduardo ficou triste e pediu vinho.

Andréa brindou a Câncer e a Gêmeos, e ao seu perfeito entendimento, e lamentou o medo que Libra sempre tem do imperioso e angustiado Escorpião. Ana Carolina brindou aos homens de futuro e afirmou, seriamente, que os opostos sempre acabando atraídos. André sorriu e achou ótimo, e Eduardo tentou adivinhar a cor dos sutiãs.

Terminaram a noite com duas garrafas de vinho português. Andréa cantou Travessia e André fez do tampo da mesa um violão. Ana Carolina lamentou a miséria dos sem-terra e a violência dos pivetes, e foi ao banheiro vomitar. Eduardo rebateu o vinho com conhaque e pensou nos seios de Andréa nus, caídos num lençol.

Festejaram o fim do ano em Cabo Frio e passaram um fim de semana na fazenda de André, em Itabira. Voltaram a Belo Horizonte bem queimados e Andréa casou com André no mês de maio. Eduardo embebedou-se na Casa dos Contos e não foi ao casamento e morreu atropelado na Avenida Afonso Pena nessa noite, e Ana Carolina desenvolveu dons mediúnicos e apaixonou-se por um colega de trabalho, aquariano e malcasado.

Naquele ano, o Brasil foi campeão de Fórmula 1, sem disputar a última das corridas, e Mikhail Gorbachev publicou Perestroika, sem prever a derrocada.

 

 

         Cunha de Leiradella

         Escritor

         leiradella@sapo.pt

 

 

 

 



Escrito por Belvedere às 16h43
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Delasnieve Daspet

Não há um instante.
Não há um momento.
Nem o suave sussurro da brisa.
Nem as saudades que sobraram
De andanças antigas,
Me deixam esquecer
Que sou vento. Que sou terra.
Que sou canto. Que sou quimera!

Que tenho no corpo o cheiro da noite.
Nos lábios o gosto do mato.
Nas entranhas, o mel silvestre,
E no olhar orvalhado trago o
Doce e meigo luar do sertão!

Sou humilde flor pequenina
Que se abre pela manhã
À espera do sol
P'ra desabrochar seu amor!

Sou o sertão.
Sou o sabiá que canta
No galho da mangueira.
Sou a chuva que pinga e respinga
Molhando a terra seca
Que faz florescer a roseira!

Sou o cheiro da terra molhada,
Da fantasia alucinante,
Dos rios, cascatas, pântanos,
Sou o verso único e maior
do poeta sonhador!

Sou a mentira. O sonho. A ilusão.
Sou a verdade da lágrima
No bom dia que raia!

Sou a canção de ninar.
Sou a agulha do bordado.
Sou a broa quentinha,
Sou o fogo no chão,
Sou paixão.

Sou o teu lugar vazio.
Sou a melancolia.
Sou a ausência total
Dos movimentos e de vozes!

Sou companheira. Sou parceira.
Que mais queres de mim,
Se já sou tu e não eu?

E na saudade que nos afasta
Sou a lembrança
Dos sonhos mais íntimos!
____________________
27 - 08 - 2001 - 11,00 hs
Campo Grande MS



Escrito por Belvedere às 16h40
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Belvedere Bruno


O vinho branco



 

 


Sentado na cadeira que pertenceu a várias gerações da família, faço o inventário de minha vida. O que fiz com ela? Percorri os caminhos que deveria,ou preferi atalhos? Aos noventa anos, já não tenho como modificar meus traçados, equívocos, rezas tortas...

Sozinho, miro o firmamento. O ser humano envelhece, se encarquilha, mas, se não houver a mão do homem, os cenários da natureza nunca se desfiguram.
Gosto do vinho branco seco. Me traz paz à alma.

Meus filhos já se foram. Triste foi a morte da mais novinha, Mariazinha da Conceição, que a tuberculose levou. Coloquei nela uma roupa branca com véu cobrindo o rosto, e um terço entre as mãos. Nunca mais consegui sorrir como antes. Meu riso ficou preso.

A mulher envelheceu antes do tempo, foi murchando, sequer notou a ida dos filhos. Sofri a dor da morte dos cinco, enquanto ela ia se encolhendo na cama, me deixando só. Uma tarde, sorriu , olhou para o teto suspirando e morreu. Nem senti falta, porque, na verdade, ela já havia morrido há trinta anos.

Fiquei neste casarão sozinho. Não gosto de estranhos, nem preciso que cuidem de mim, pois tenho pernas e braços. Monto a cavalo, cozinho, lavo e passo. Empregado é pra cuidar dos bichos, da terra e do trabalho pesado da casa.

Cheguei a pensar numa nova companheira, mas desisti. Nasci pra ser só. Não gosto de vozerios, confusões, e as pessoas sempre trazem essas coisas.

Os vizinhos moram longe. De quando em vez, recebo visita. Trazem compotas de frutas, vinhos, pão de aveia. Não gosto de desfeitear, e aceito, mas digo que visita não pode passar de meia hora.

O que a vida ainda quer de mim?

Rasguei todas as fotos que havia por aqui. Quem ficaria com elas após minha morte? Não tenho herdeiros, os vizinhos acham pecado queimar lembranças, e as fotos, dizem que têm alma... Já doei todos os objetos de valor para a igreja. Meu maior apego é com aquele Sagrado Coração de Jesus em louça que tenho na parede da sala. Ainda não sei o que fazer com a casa. Tenho tempo pra pensar.

Leio muito bem, nenhum problema pra enxergar, nunca fui a médico, tenho uma saúde de ferro, mas um dia virá o sono eterno.Para onde vou? Como será a morte? Penso que acordarei no céu, vendo meus cinco filhos, mas por conta do que Conchita me fez, peço a Deus Todo Poderoso que me livre dela na outra vida. Que continue encolhida no além...

Vou tomar uma tacinha de vinho pra me ajudar a dormir. Os fantasmas às vezes aparecem e me tiram o sono. Nunca matei ninguém, apenas dei ordens. Cada cabra safado que encontrei na vida!.. Chegaram a matar dois de meus filhos. Dei idéia para queimarem eles. Sobrou só pó. Ri e joguei no charco. Quem sabe eles agora cismaram? Deixa isso pra lá! Tô velho demais pra me preocupar com esses assuntos.

Não sei por que ainda estou por aqui. Acordo, fico o dia todo olhando a paisagem, como, escuto rádio, ponho uns discos que já estão chiando de tão velhos... Que cansaço anda batendo em mim ao cair da tarde! Me enrosco nas cobertas e vou dormir.

São cinco horas e ainda há sol. Vou tomar meu vinhozinho branco, ler meu livro de rezas, depois dormir na santa paz.

Nunca gostei de vinho tinto, por me lembrar sangue.

Que canseira me deu de repente, que sonolência estranha... Sinto frio, arrepios. Meus olhos se embaçam, pareço ver vultos, mas nunca tive problema de visão...

Estilhaços de garrafas e taças compunham o cenário final do inventário daquele homem.
 


Belvedere Bruno é cronista
Niterói - RJ




Escrito por Belvedere às 19h18
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Escritores, me façam chorar!
 
Meu choro foi sempre mais comum em cinema do que lendo um livro. No cinema, basta uma musiquinha, uma história basicamente conflituosa e um cineasta com noções mínimas de manipulação e lá estou eu às lagrimas. Eu queria chorar mais com literatura, não consigo. Talvez por ter uma relação pessoal, por conhecer melhor os meandros da "fabricação" de um texto, deixei de ser um leitor emotivo. Minha conversa com o livro fica, na maioria das vezes, no cérebro mesmo. No entanto, quando acho que estou intelectual, frio demais, saio por aí escavando algum escritor que me permita lê-lo apenas com o tato, ou como disse Cabral "(...) ao olho perto, sem intermediárias retinas, de perto, quando o olho é tato."
A internet tem me ajudado bastante na busca. Há uma profusão gigantesca de blogs, sites, revistas literárias, que garimpar novos escritores ficou bem mais simples. Obviamente requer paciência, pois a proporção entre o ruim e o bom é mais ou menos igual à vida real: 100 por 1.
Descobri alguns escritores até então nunca lidos por mim, nem sequer conhecidos pelo nome, destes que esfregam verdades na cara, que produzem hematomas na alma, gente fazedora de insônia e gozo. Mas ando sentindo falta de descobrir um escritor que me faça chorar.
Lembro quando meus olhos aguaram a primeira vez: eu lia Cora Coralina. Tão básica, tão feita de verdade a poesia de Cora, que aquilo me agoniava. Adolescente, imaturo, inquieto, eu me transportava para uma poesia que se distanciava completamente do que eu era. Lembro ainda de Jean-Baptiste Grenouille, personagem do livro "O Perfume". Chorei muito com aquele homem triste e belo criado por Patrick Suskind. Eram tempos de inocência. Se volto hoje a estes autores, dificilmente me comoverão. Não conseguem mais retirar o chão dos meus pés. Talvez eu deva chorar por isso. Depois, derramei umas lágrimas para Adélia Prado, e um pouco para Saramago em
"Ensaio sobre a Cegueira".
Quem me conhece sabe da minha obsessão doentia por Hilda Hilst. Só que por mais salvações-estrago que ela tenha me feito na vida (e aí entra o escritor angustiado com tanta perfeição, o leitor seduzido pelo fluxo contínuo de poesia e exasperação, o homem viciado na soberba existência dos personagens) nunca chorei lendo seus livros. O mesmo aconteceu com Clarice, Jorge de Lima, Cortázar, C. Ronald, Boos Jr. e tantos outros que já me causaram benefícios contundentes à saúde, mas não me fizeram chorar. Bregamente, chorar de emoção.
Rubens da Cunha



Escrito por Belvedere às 19h16
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