FACA AFIADA NALDOVELHO Novela das sete, novela das oito, faca afiada abre um sulco no rosto da cidade sitiada por omissões e desgostos e lhe expõe as entranhas de forma estranha, revelando a vergonha que reside em nós. Revela o pivete, o sinal, a gilete que na palma da mão agride a quem passa e a lata de cola cheirando à esmola, excremento infame de quem nada oferece. Revela o lodo, alguns pensam que é sangue, a correr pelas veias, valas negras, sarjetas. Revela o engodo a camuflar todo o nojo, realidade maquiada, novela das sete. Revela o ardil, o Ar-15, o fuzil e a bala perdida, mais um que partiu. Revela os ritos, tribais, primitivos, irmandades forjadas a ferro e fogo, feridas, comandos encarcerados a governar nossas vidas. Revela a incoerência de que consome e mente, faz questão de vestir o branco da paz, mas depende de um branco pra fazer o que faz. Revela a cicatriz talhada em concreto... Linha Vermelha e Amarela, acessos diretos, transformando as pessoas, em meros objetos, a transitarem apressadas e pelo medo acovardadas. Revela um padroeiro que morreu prisioneiro e que até hoje agoniza caçador de si mesmo. Faca afiada abre um sulco na carne, dilacera as entranhas e expõe toda a sanha dos que acreditam que o povo é um mero estorvo, que a justiça é um entrave e o traficante um detalhe, e que apesar disso tudo, há sempre um lucro eminente, ainda que ao custo de dores urgentes paridas no ventre de tanta gente inocente, anestesiados que estão! Novela sete, novela das oito, se desligarem a televisão, morrem de inanição
Escrito por Belvedere às 12h05
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COISAS DA VIDA!
NALDOVELHO
Limpo as feridas,
esterilizo a pinça,
retiro os espinhos.
Todo o cuidado é pouco,
feridas mal tratadas
costumam infeccionar.
Um antiinflamatório ia bem!
Agora é só seguir adiante,
cicatrizes permanecerão.
Na mudança de tempo
vão incomodar,
só pra lembrar
que a pele ainda é fina.
No trato com as rosas,
ainda que lindas,
todo o cuidado é pouco...
Coisas da vida!
Escrito por Belvedere às 18h37
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QUASE, QUASE MAIO
odeteronchibaltazar
Quase maio e minhas flores ainda sem brotação. Quase ali, na porta, meu desembaraço permite que te fale: estou sem ação. Vem aguar minhas esperanças de flor. Molha meus escuros, umedece minha boca, sedenta de palavras. Deságua teus temporais em minhas mãos, há tanto tempo, secas de versos sem lavras. Quase maio, e eu aqui, imóvel, à espera de auroras boreais, de cigarras e pirilampos. Quase maio e eu continuo aqui, como sempre: fantasia solta, promessas irreais, sempre à espera de ti...
Escrito por Belvedere às 11h50
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