Sarau da Belvedere


SE O MEU COMPUTADOR FALASSE...
 
Romeu Prisco
 
Ele, que não é o Herbie e que nem mesmo nome tem, pois apenas atende por números de série, de modelo e de memória, talvez me dissesse: conheço-te como ninguém ! Conheço-te pelo que escreves e, principalmente, pelo que não escreves e pelo que pensas. Aqui estão os teus grandes e pequenos segredos.
 
Não te preocupes, porque não vou revelá-los. Ser-te-ei fiel até que eu seja substituído por um novo equipamento, mais moderno e avançado. Tem sido diante de mim que passas a tua vida a limpo. Já te vi alegre, sorridente, triste, deprimido e decepcionado. Contemplativo e meditativo. Ousado, ma non troppo. Ora dialogando baixinho com outros internautas, ora lendo-os, ora simplesmente ouvindo-os.
 
Sei quem aprecias e quem não aprecias. Sei o quê aprecias e o quê não aprecias. Sei o que te causou grande contentamento e o que te causou grande revolta. Uma desta ainda curtes até hoje. Não vou te dar conselhos. Tens feito o que é necessário, dentro das tuas possibilidades e da tua maneira de ser.
 
Sabes o que mais admiro em ti ? A tua vontade e o teu prazer indomitos de escrever. De escrever bem e corretamente, com estilo próprio, ressalvadas as tuas deficiências gramaticais e, obviamente, os textos coloquiais. Por isso, permito que uses e abuses de mim. Sei que escreveste praticamente durante toda a tua vida, primeiro como estudante, depois como profissional liberal e atualmente como candidato a escritor-poeta.
 
Escreveste muita coisa boa, bonita, prática e objetiva. Porém, também escreveste muita abobrinha, coisas sem pé e cabeça, ainda que com boas intenções. Por isso, há igualmente outras pessoas que te admiram, outras que não gostam de ti e outaos para quem apenas passas batido. Pior seria, no dizer de Nelson Rodrigues, se fosses uma unanimidade.
 
Pronto, acho que agora posso te liberar para outras atividades. A tua cara-metade está te esperando para que acabes de pintar o porão da chacrinha. Sei que não é preciso pedir, porque o farás quase automaticamente, mas, volte logo. Mais para frente, retomaremos o bate-papo.
 



Escrito por Belvedere às 16h26
[ ] [ envie esta mensagem ]


  Santa Maria da Terra
 
    No dia em que Maria nasceu, sem porquê nem quê, a terra deu de sangrar lá no Grotão das Moscas, onde penavam as carcaças dos desvalidos e amaldiçoados. Lugar seco, cruel e malvado, renegado até pelo Diabo.
    Maria nasceu bem na risca que separava o mundo dos vivos do charco dos assombrados. Nasceu de vida morta, de uma vagina seca que nem o chão a queimar a sola do cortejo que acompanhava o cadáver. Nasceu embrulhada em dois embrulhos: uma caixa de ossos descarnados e uma rede poída, rota e encardida.
    Parida sem contrações nem berro, Maria brotou no mundo bem no instante em que a primeira pá de terra seca foi lançada na cova. Brotou assombrada, sem susto, em meio a ladaínhas e velas.
    Talvez pelas chagas do Cristo da mãe ou pelo pouco de placenta que restara, a terra sangrou justo na hora em que Maria ia ser com a mãe enterrada.
    Não sei se por crença num Deus que por eles não velava ou por medo de um Capeta que os renegava, o povo deu à Maria o nome da Terra.
    Como não nasceu filha de Deus nem enteada do Diabo, Maria cresceu sem milagres. Por falta de um pão que servisse de molde não o multiplicou e por excesso de mortos não teve tempo para ressucitá-los. Mas conheceu o calvário de perto, com os olhos que a terra há de comer.
    Seja pela ausência de milagres ou pela carência absoluta de maldade, Maria cresceu tão comum que um belo dia ficou invisível como a gente do seu povoado.
    Embora nos contos de fadas a invisibilidade seja um poderoso instrumento mágico, para Maria era corriqueirice mesmo. Era o estado máximo de uma vida desnotada, em branco, daninha como o mato.
    E assim invisível Maria da Terra foi erodindo e secando o pouco de água que tinha. Não deu frutos, não pariu rebentos, não brotou na primavera nem germinou no inverno. Penou calvários sem cruz, mas munida de enxada.
    Tal qual erva daninha que toma conta de terra ociosa - que de tão ociosa só serve para alimentar o gozo de quem a possui -, Maria, sabe-se lá por quais artes de quem, um belo dia pariu um milhão de larvas.
    Não sei se por carência de mãe que ensinasse as coisas de mulher ou se pelo estado comum de substantivo sem gênero, Maria confundiu as larvas com filhos. Alimentou-as com o pouco de pirão de farinha que tinha e amamentou-as com as lágrimas da humilhação.
    Quando as larvas atingiram o tamanho certo para arar a terra que não era de Joana, nem de Pedro, nem de José, nem de Severina, nem de Antônio, nem de Raimundo, nem de Donana e sim de um alguém que de tão visível nem precisava aparecer, Maria deu uma enxada e uma foice para cada filho.
    Na invisibilidade comum dos assombrados, ninguém se assombrou com as larvas a arar a terra. No roçado não havia lugar para os assombros e o horror e a morte conviviam em assombrada comunidade.
    O Tempo foi escorrendo entre os calos das mãos de Maria da Terra até que um dia, sem ser convidado, adentrou pela casa acompanhado da Morte. Maria não se avexou pela miséria da casa e repartiu com as visitas o pouco de vida que ainda tinha.
    Maria morreu assim que os visitantes tomaram o rumo do Grotão das Moscas. Na manhã seguinte foi outra vez embrulhada em dois embrulhos: uma caixa de ossos descarnados e uma rede poída, rota e encardida.
    Sete dias após os vermes terem comido o pouco de carne que tinha, Santa Maria da Terra fez o primeiro milagre: no roçado, as larvas criaram asas e viraram borboletas.
    Não sei se pela santidade do milagre ou se pelo pólem que as borboletas espalharam no ar, os olhos do povo invisível olharam e se reconheceram no olhar do outro, se viram belos, viram a terra que era de todos e descobriram que tinham asas para voar.
    As borboletas? Ah, essas andam voando livres pelos campos e estradas, espalhando o pólem da visibilidade e agitando as asas em coloridas bandeiras, embora alguns cismem, por comodidade e insensibilidade social, em confundí-las com vândalos e baderneiros.
 
                    Marcia Frazão


Escrito por Belvedere às 10h40
[ ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]
 
Histórico
15/10/2006 a 21/10/2006
10/09/2006 a 16/09/2006
03/09/2006 a 09/09/2006
27/08/2006 a 02/09/2006
20/08/2006 a 26/08/2006
13/08/2006 a 19/08/2006
06/08/2006 a 12/08/2006
25/06/2006 a 01/07/2006
18/06/2006 a 24/06/2006
11/06/2006 a 17/06/2006
04/06/2006 a 10/06/2006
28/05/2006 a 03/06/2006
21/05/2006 a 27/05/2006
14/05/2006 a 20/05/2006
07/05/2006 a 13/05/2006
30/04/2006 a 06/05/2006
23/04/2006 a 29/04/2006
09/04/2006 a 15/04/2006
02/04/2006 a 08/04/2006
26/03/2006 a 01/04/2006
19/03/2006 a 25/03/2006
12/03/2006 a 18/03/2006
05/03/2006 a 11/03/2006
26/02/2006 a 04/03/2006
19/02/2006 a 25/02/2006
12/02/2006 a 18/02/2006
05/02/2006 a 11/02/2006
29/01/2006 a 04/02/2006
22/01/2006 a 28/01/2006
15/01/2006 a 21/01/2006
08/01/2006 a 14/01/2006
01/01/2006 a 07/01/2006
25/12/2005 a 31/12/2005
18/12/2005 a 24/12/2005
11/12/2005 a 17/12/2005
04/12/2005 a 10/12/2005
27/11/2005 a 03/12/2005
20/11/2005 a 26/11/2005
13/11/2005 a 19/11/2005
06/11/2005 a 12/11/2005
30/10/2005 a 05/11/2005
23/10/2005 a 29/10/2005
16/10/2005 a 22/10/2005
09/10/2005 a 15/10/2005
02/10/2005 a 08/10/2005
25/09/2005 a 01/10/2005
18/09/2005 a 24/09/2005
11/09/2005 a 17/09/2005
04/09/2005 a 10/09/2005
28/08/2005 a 03/09/2005
21/08/2005 a 27/08/2005
14/08/2005 a 20/08/2005
07/08/2005 a 13/08/2005
31/07/2005 a 06/08/2005
24/07/2005 a 30/07/2005
17/07/2005 a 23/07/2005
10/07/2005 a 16/07/2005
03/07/2005 a 09/07/2005
05/06/2005 a 11/06/2005
22/05/2005 a 28/05/2005
15/05/2005 a 21/05/2005
08/05/2005 a 14/05/2005
01/05/2005 a 07/05/2005
24/04/2005 a 30/04/2005
17/04/2005 a 23/04/2005
10/04/2005 a 16/04/2005
27/03/2005 a 02/04/2005
20/03/2005 a 26/03/2005
13/03/2005 a 19/03/2005
06/03/2005 a 12/03/2005
27/02/2005 a 05/03/2005
20/02/2005 a 26/02/2005
13/02/2005 a 19/02/2005
06/02/2005 a 12/02/2005
30/01/2005 a 05/02/2005
23/01/2005 a 29/01/2005
16/01/2005 a 22/01/2005
09/01/2005 a 15/01/2005
02/01/2005 a 08/01/2005




Votação
Dê uma nota para
meu blog



Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis





O que é isto?