Amigo da labareda
Cronistas deveriam ser obrigados a andar somente de ônibus. É lá que as coisas acontecem. Sou motociclista. A moto é um veículo rápido, econômico, mas absurdamente solitário. Por uma circunstância qualquer, peguei um ônibus. Era manhã na Cidade dos Príncipes. Sento-me perto da porta e começo a ler (hábito inadequado, porém inevitável). Pessoas vão entrando e logo o ônibus lota. Um dos últimos a entrar é um homem todo de branco. Ele trazia nas mãos uma bengala que mais parecia um cabo velho de enxada ou foice. Volto ao livro. Quando percebo, o homem está sentado nos degraus bem na minha frente. Volto ao livro. De repente, ele aponta para o livro e pergunta: - Você sabe quem é esse daí? Pensei que ele estivesse falando do autor, Rodrigo de Haro, mas o homem se referia ao título do livro: "Amigo da Labareda". Depois do meu tímido "sei", o homem afirmou categórico: - Eu já vi esse daí. Não voltei mais ao livro. A minha atenção era toda daquele estranho. Enquanto o ônibus seguia seu anda-e-pára, ele me resumiu a sua história: - Eu era presidiário em Itajaí. Um dos presos era pai-de-santo e chamou esse aí. Estavam no cubículo da cela o Renato, o Costa e o Maçaneiro. O bicho veio numa bola de fogo. O Renato morreu na hora, todo queimado, o Costa foi pro hospital, morreu no dia seguinte, tava cozinhado por dentro. O Maçaneiro agarrou-se com uma Bíblia e chamou por Jesus, só queimou as costas. O bicho é muito perigoso, mata mesmo... Meu filho comprou uma moto, mas agora descobrimos que tem a cruz desse daí lá dentro, não quero nem saber, a moto tá parada na garagem. Não vou dar espaço, ele quer me pegar, mas não vou dar espaço. O homem não sabe que a minha moto tem a famosa cruz do pacto (boato que se alastrou pela internet e merecedor d'outra crônica). Nem arrisquei dizer que eu abri o farol para confirmar, mas deixei o suporte de plástico lá. Chegamos ao terminal do centro. Lamentei um pouco não continuar ouvindo as histórias do homem. Era uma fala estranha porque era firme naquilo que dizia. Não se tratava de um religioso fanático ou de um bêbado. Era um homem destoador, sentado num lugar em que ninguém senta, falando-me de coisas em que quase acredito. Por fim, antes de sair, disse-me: - Melhor você não ler isso aí. E eu, que sou fascinado pela poesia enigmática de Rodrigo de Haro, adquiri mais uma dúvida na vida: sigo ou não sigo o conselho do homem-entidade que me apareceu numa manhã fria de junho?
Rubens da Cunha
Escrito por Belvedere às 17h23
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Estava só; apenas com seus pensamentos. Deitada na cama, relutava em ler algum entre aquele amontoado de livros. Não sentia vontade de assistir aos lançamentos cinematográficos, cuja programação havia sido entregue pela videolocadora do bairro. Guardara também todos os cd's. Havia silêncio a seu redor, algo denso, embora o sol entrasse convidativo através de sua janela. Para ela, naquele momento, o mais coerente era manter o cobertor sobre seu corpo. E fechar a janela.
Já não tinha idéia de quantas estações vivera, nem dos caminhos percorridos...
Suas lágrimas já estavam gastas por perdas sucessivas na vida. As conquistas atuais pareciam fogos de artifícios, que logo se perderiam. Pensava também em rasgar fotos, que já não diziam nada, a não ser lembrar ficções...
Sentia que não cabia mais perguntar ao destino, aos céus, ou a Deus: "Serei para sempre, uma mulher só?" O hoje já era o seu amanhã, e a constatação de que estava sozinha, de que este era o seu contexto na vida, fazia com que permanecesse debaixo do cobertor. Era, definitivamente, uma mulher só. Aquela constatação doía, mas nunca temera verdades.
Trancou seu coração, de forma que, a partir daquele momento, esperasse apenas a despedida de si mesma.
Escrito por Belvedere às 17h27
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CRÔNICA DO ABSURDO
NALDOVELHO
Madrugada de segunda feira, quase três horas da manhã e o silêncio da noite é repentinamente interrompido por gritos desesperados, em súplica inútil, a pedir clemência num desfecho presumível e tristemente rotineiro nestes nossos dias. Três tiros, mais gritos e desta feita de uma mulher, mais um tiro e o silêncio. Barulho de carros, que a toda velocidade se afastam do local.
Da janela do meu quarto eu nada vejo. Nem uma viva alma na rua, janelas e portas fechadas, nem os cachorros latem. Nenhum curioso em busca de notícias, nenhuma luz se acende, nada! É como se nada tivesse acontecido.
Manhã de segunda, seis horas da manhã, as pessoas começam a fazer o seu trajeto, alguns para o trabalho, outros levando os seus filhos para escola, rotina normal do dia a dia de uma cidade. Na calçada de uma rua transversal, apenas uma poça de sangue a testemunhar o triste evento. As pessoas que passam fingem que nada vêem, nenhum comentário, nenhuma pergunta... É como se um pacto pesado de silêncio tivesse sido estabelecido, nada é mais saudável do que: nada vi, nada escutei, nada falo. Crônica do absurdo, onde a vida humana passou a ser coisa à toa e sem valor, nada que valha a pena arriscar. Só que aqueles gritos permanecem no ar, só que os estampidos também. E a poça de sangue? Certamente um dos vizinhos, ao limpar a calçada da frente da sua casa lavou.
Lembro de Goethe: "SE CADA UM DE NÓS LIMPASSEMOS AS CALÇADAS DA FRENTE DAS NOSSAS CASAS, TODAS AS CALÇADAS DO MUNDO ESTARÃO LIMPAS". Será? Sei não! Como apagar dos meus ouvidos os gritos e da minha alma a sensação de desespero deixada no ar? Como acreditar não ter ouvido quatro tiros? Como esquecer ter sentido o cheiro de sangue naquela calçada ao passar? Tem certas coisas que por mais que limpemos e lavemos continuam sempre presentes no ar.
Escrito por Belvedere às 08h59
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